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Processo contra a Valve por loot boxes pode afetar todos os jogos

A procuradora-geral Letitia James quer parar permanentemente as caixas de loot do Counter-Strike 2, Team Fortress 2 e Dota 2, e exige uma multa equivalente ao triplo dos lucros da empresa com estas funcionalidades. As implicações podem ir muito além de Nova Iorque.

A procuradora-geral de Nova Iorque, Letitia James, apresentou na quarta-feira uma ação judicial contra a Valve Corporation, acusando a empresa de promover jogo ilegal através dos seus videojogos mais populares. O processo, apresentado num tribunal estadual de Manhattan e confirmado pela CBS News, foca-se nas loot boxes presentes no Counter-Strike 2, Team Fortress 2 e Dota 2, três títulos gratuitos que a Valve monetiza há anos através da venda de caixas com itens aleatórios.

A acusação é direta, a Valve estaria a violar a Constituição e o Código Penal do estado de Nova Iorque ao cobrar aos utilizadores, muitos dos quais crianças e adolescentes, pelo acesso a um sistema de recompensas aleatórias cujos prémios mais raros têm valor monetário real. No Counter-Strike 2, abrir uma caixa envolve uma roda animada que gira até parar num item, num mecanismo que a queixa descreve expressamente como semelhante a uma slot machine. Um dos itens, uma skin para uma arma, foi vendido por mais de um milhão de dólares em 2024, segundo o escritório da procuradora-geral. O mercado global de skins do Counter-Strike ultrapassou os 4,3 mil milhões de dólares em março de 2025, de acordo com a mesma fonte.

“A Valve ganhou milhares de milhões de dólares ao deixar crianças e adultos apostarem ilegalmente para ter a hipótese de ganhar prémios virtuais valiosos”, disse Letitia James em comunicado. “Estas funcionalidades são viciantes, prejudiciais e ilegais, e o meu gabinete está a processar a Valve para travar a sua conduta ilegal e proteger os nova-iorquinos”.

A queixa pede à Valve que pare permanentemente com as funcionalidades de loot boxes nos seus jogos, que restitua os utilizadores lesados e que pague uma coima equivalente ao triplo dos lucros obtidos através destas práticas, o que poderia representar um montante assinalável, tendo em conta a escala do negócio.

O advogado especialista em gaming Harris Peskin, descreveu a ação como “uma notícia absolutamente ENORME para o ecossistema dos videojogos e dos esports”. Peskin explicou que o caso vai provavelmente depender de uma questão central: se os itens obtidos nas loot boxes constituem “algo de valor” no sentido legal do termo. A lei de Nova Iorque define jogo como a aposta de algo com valor num evento futuro fora do controlo do jogador, com a expectativa de receber algo de valor em função do resultado.

“Não é uma questão nova”, nota Peskin, apontando para precedentes como o caso Kater v. Churchill Downs de 2018, em que um tribunal concluiu que fichas virtuais podiam qualificar como “coisa de valor” mesmo sem serem convertíveis em dinheiro. Se o tribunal de Nova Iorque chegar à mesma conclusão aplicada às loot boxes, as consequências podem estender-se muito além do estado. “As ramificações são ENORMES”, escreveu Peskin. “Se [Letitia James] tiver sucesso, pode acabar com as loot boxes em todo o país. Quase imediatamente, outros estados com legislação semelhante procurariam o mesmo. Nesse ponto, o custo operacional seria demasiado elevado”.

Para a sua defesa, a Valve deverá invocar os seus Termos de Serviço e os esforços que tem feito para combater mercados de terceiros não autorizados, argumentando que não está a facilitar jogo, mas precisamente a tentar limitar a liquidez das skins. A empresa não fez qualquer declaração pública sobre o processo até ao momento da publicação desta notícia.

O contexto regulatório internacional é relevante. Bélgica e Países Baixos já proibiram ou restringiram as loot boxes. Em França, uma decisão de 2019 obrigou a Valve a implementar um sistema que revelava o conteúdo das caixas antes da compra no Counter-Strike. O processo de Nova Iorque pode ser o primeiro passo equivalente nos EUA, e a questão que Peskin deixa em aberto é inevitável: se as loot boxes da Valve forem consideradas jogo ilegal, o que acontece a sistemas semelhantes noutros jogos. “Isso é agora também jogo ilegal?”, perguntou o advogado.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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