Resident Evil 3 – Análise

A franquia Resident Evil tem uma história longa, o primeiro jogo da série foi lançado em 1996 e teve uma receção crítica e comercial estrondosa. Para além disto, a franquia é muitas vezes creditada como sendo uma das “faíscas” que re-acenderam o interesse na cultura pública pelo género “zombie“. A trilogia inicial, toda ela lançada para a primeira PlayStation, é composta por alguns dos jogos mais emblemáticos da sua era e são tópico de discussão ainda nos dias de hoje. Não é de surpreender, então, que a Capcom esteja a lançar remakes destes jogos para as plataformas modernas, recriando as experiências através de uma lente moderna com grande sucesso, como foi visto no remake fiel de Resident Evil 2, lançado em 2019. Apenas um ano depois, vemos agora o lançamento de Resident Evil 3, será que conseguiram repetir a proeza?

O jogo começa com Jill Valentine, uma ex-membro do grupo S.T.A.R.S. (Special Tactics And Rescue Services), a acordar em Raccoon City, uma cidade infestada pelo T-Virus, um vírus que ataca o cérebro do hospedeiro, deixando apenas algumas funções básicas ativas que governam ações como andar e comer, efetivamente transformando o infetado num zombie. No início do jogo, a Jill é atacada e perseguida por um monstro misterioso que aparenta ser indestrutível, o Nemesis. Durante a perseguição ela conhece um mercenário da Umbrella Corps, Carlos Oliveira, que a ajuda a fugir. Depois de estarem em segurança, a Jill aceita juntar-se à missão de Carlos, que é a de salvar e evacuar inocentes para fora da cidade.

A história do jogo é inspirada na do original, mas tem claras alterações e revisões. Alguns eventos são contados de forma diferente e em locais diferentes, algumas áreas e cenas do original foram omitidas por completo, não estão presentes as cinemáticas com múltipla escolha que o jogo original tinha e, por consequência, este remake também não tem múltiplos finais possíveis.

Apesar da história não ter sido recriada de uma forma totalmente fiel, nunca deixei de sentir que estava a jogar um remake de Resident Evil 3 e, em alguns aspetos, o remake faz um trabalho melhor que o original a contar uma história completa e com poucas falhas na narrativa. O grafismo também ajuda muito a contar uma história mais rica, os modelos das personagens estão espetaculares e a estética dos cenários ajuda a criar um ambiente apropriadamente repleto de tensão e pavor.
Um melhoramento claro neste remake é a representação das personagens. Em parte devido ao grafismo, as personagens são mais humanas, têm mais personalidade e o diálogo é apresentado de uma forma mais séria. Em particular, o Carlos Oliveira tem um papel mais importante nesta iteração do jogo e, como consequência disso, beneficia de um maior desenvolvimento que mostra um lado mais interessante da personagem.

Infelizmente, a história é muito curta. O jogo completa-se em menos de 6 horas e não oferece muitas razões para ser jogado uma segunda vez para além do desafio de jogar em dificuldades mais altas, pois ao contrário de Resident Evil 2, este jogo não tem um ‘New Game Plus‘.

A nível de gameplay, a essência da franquia mantém-se, mas sabe um pouco mais a jogo de ação do que o original. Os elementos clássicos de terror estão presentes, em particular em secções onde se exploram áreas fechadas e escuras, no entanto não há tantos momentos de tensão como seria de se esperar de um jogo do género, devido ao facto de uma parte significativa do jogo passar-se nas ruas da cidade, em áreas amplas e abertas. Tendo dito isto, o áudio complementa imenso a experiência, flutuando entre momentos de silêncio desconcertante e caos completo, adicionando tensão muito necessária.

O foco do gameplay está no uso inteligente dos recursos que o jogador encontra nos mapas, uma vez que itens valiosos como munição e ervas medicinais são escassos, especialmente nos níveis de dificuldade mais altos. Isto cria uma necessidade ao jogador de escolher bem o seu equipamento, tentar evitar o conflito quando possível, e usar o mínimo possível de munições quando o combate é inevitável. Para além disto, o inventário que as personagens têm é muito limitado, obrigando o jogador a escolher o que é essencial e o que pode ficar para trás. Tudo isto ajuda a criar tensão e incerteza sobre os desafios que vêm pela frente.

Os controlos do jogo são responsivos, e o feedback visual nos disparos e movimentos é muito bom, dando uma sensação de realismo por detrás de todas as ações do jogador. Há uma variedade de armas adequada no jogo, desde uma simples pistola a um lançador de granadas, e todas elas são divertidas de usar e têm um propósito no jogo. Em particular, o lançador de granadas é muito satisfatório devido ao seu poder destrutivo e da variedade de munições ao seu dispor, desde tiros explosivos a munições que deitam fogo a tudo à sua volta.

Durante o jogo, a história alterna entre a perspetiva da Jill e do Carlos. As sequências da Jill são mais tensas, com maior escassez de recursos e um ênfase em evitar o conflito direto, enquanto que as sequências do Carlos têm mais ação, e não há tanta escassez de munições.

Uma adição nova à jogabilidade é um botão de “dodge” que permite à Jill desviar-se dos ataques dos inimigos, abrandando o tempo quando o botão é pressionado com timing perfeito. Esta habilidade permite ao jogador ser mais estratégico no combate, podendo tirar melhor partido de momentos de vulnerabilidade dos inimigos, em vez de tentar manter sempre a distância.

Um elemento memorável do jogo original era a constante perseguição do Nemesis. Isto foi bem re-criado neste remake, com algumas aparências inesperadas do monstro durante alturas em que pensamos estar seguros, que muitas vezes se culminam em batalhas épicas contra as suas várias formas.

Como é tradicional na franquia, o jogo tem vários puzzles que têm de ser resolvidos para progredir na história, e que promovem a exploração dos mapas do jogo.
De forma geral, o gameplay do jogo é muito divertido, tem muitas cenas memoráveis, no entanto esta direção para ação faz perder um pouco da tensão e medo que o jogo original provocava.

Para concluir, o Resident Evil 3 Remake é uma experiência muito boa tanto para fãs da franquia como para novos jogadores, pelo menos enquanto dura. Será certamente um jogo divisivo entre os fãs, devido ao conteúdo omitido e alterado do original, assim como a curta duração. É difícil justificar um preço de 59,99€ para um jogo que oferece menos de 6 horas de conteúdo, no entanto é das poucas experiências do género ‘survival horror’ com um nível de qualidade elevado. Para fãs do género e franquia, pode ser uma compra obrigatória, mas para os outros, talvez seja melhor esperar por uma promoção. É uma experiência que vale a pena, mas não ao preço de lançamento.

O Resident Evil 3 está disponível para PlayStation 4, Xbox One, e PC (Steam).