Retronime: Assassination Classroom

Vindo de um autêntico sucesso em formato mangá, e uma com uma enorme legião de fãs, Assassination Classroom (Ansatsu Kyoshitsu) obteve a sua versão animada uns anos atrás.

A premissa desta série, foi um pouco estranha, ainda mais vinda da revista onde foi publicada, a célebre, Weekly Shounen Jump, responsável por sucessos como, Naruto, Dragon Ball, ou One Piece. A mesma apresentou-nos um Herói-Vilão, que nem foi bem um, nem outro, que ainda conseguiu promover a antiviolência, e a educação. Com tantos elementos totalmente incompatíveis, como conseguiu uma obra feita de tantas antíteses prosperar?

A obra de Yusei Matsui, chegou às páginas da Jump em 2012, e desde muito cedo foi um sinónimo de grande sucesso, traduzindo-se em milhões de volumes de manga vendidos. Ninguém previa um sucesso numa obra com elementos tão incompatíveis e tão estranhos, ainda mais numa era, onde a violência, gore, ou fanservice reinam e dominam esta indústria quase por completo. A história de Assassination Classroom foi muito simples e direta. Uma turma de liceu tem de assassinar o seu professor, porque este foi responsável por destruir parcialmente a lua, e afirmava explodir o Planeta Terra por completo no espaço de um ano. O próprio desceu à Terra renascido como tutor, e impondo um pequeno jogo a uma Turma de jovens assassinos que foram despojados da sociedade. “Se querem permanecer com o vosso planeta intacto é muito simples, só têm de matar-me até ao final do vosso ano escolar”. Surgiram aqui dois problemas, o primeiro deveu-se ao facto deste tutor ser um extraterrestre capaz de deslocar-se a velocidades mach 20! Em segundo lugar este foi o melhor professor que alguma vez tiveram.

Estes dois elementos à primeira vista pareceram tão estranhos como incompatíveis, mas asseguro-vos que mesmo que demorem um pouco desenvolver-se e nutrirem-se, Assassination Classroom foi dos raríssimos casos, onde temos tantos elementos, tanta variedade, e dezenas de personagens, em que mesmo assim nada nem ninguém ficou esquecido e por explicar. Também pareceu um paradoxo como uma série que promoveu a antiviolência e a educação, tem a palavra “Assassination” no seu título. Este facto deveu-se aos seus alunos usarem vários tipos de armas desde armas de fogo, explosivos e armas brancas de um material específico. Como o Koro-Sensei é um extraterrestre, as armas terráqueas não lhe causaram dano nem ferimentos, devido a esse ponto, o governo desenvolveu umas armas sob forma de uma espécie de borracha, e estas foram as únicas capazes de ferir o Koro-Sensei e consequentemente mata-lo. Este facto não só permitiu uma abordagem mais suave como foi também responsável por diversas situações muito divertidas e cómicas.

Talvez possa parecer estranho comparado com obras que misturam elementos sociais, e mitológicos como Naruto ou One Piece, onde também temos mais ações e desenvolvimentos, mas foi na sua simplicidade que Assassination Classroom atingiu todo o seu potencial. Esta série ao contrário das já referidas, não precisou de dezenas e dezenas de episódios para o seu desenvolvimento. Todo o ambiente foi desde muito cedo estabelecido e a sua premissa nunca mudou ao longo de toda a obra, apenas foram inseridos elementos que enriqueceram as suas personagens. Também o fluxo de informação não foi abismal, e esse facto foi bastante bem-vindo tanto para a nossa mente como para a nossa visão. Hoje qualquer obra que se preze bombardeia o espetador com conceitos, e personagens a um ritmo supersónico, que rapidamente destroem a sua história, as suas personagens, acabando por confundir e aborrecer o espetador, acreditem Naruto sofreu bastante neste ponto. É preciso manter uma história e uma imagem sólida, e foi precisamente aqui que Assassination Classroom contou com uma arma secreta, o próprio Koro Sensei.

O seu design simples reconheceu-se a milhas! Foi impossível evitar a sua enorme smiley face inexpressiva, em todo o tipo de lugares, desde atrás de janelas, objetos, ou até nos vários cameos da Shounen Jump. Koro-sensei foi o elo de tudo nesta obra, contudo também acabou por criar outro conflito, porque será bem difícil para alguns encontrar o equilíbrio deste animado professor nesta série. Koro-sensei pôde ser descrito como um antagonista pouco credível, e as tentativas de assassinato dos seus alunos face às suas capacidades sobre-humanas, foram absolutamente nulas. Todo engenho e suspense usados para assassinar alguém pareciam perdidos, este seria o caso, mas Yuusei tira outro coelho da cartola, desta vez um chamado Nagisa. O jovem pôde ser considerado a personagem principal desta obra, um jovem com aspeto de rapariga que uniu as ideologias do Koro-Sensei com o resto da turma. Este foi o causador de todos os efeitos acima descritos, mas que o Koro-Sensei não conseguiu alcançar, é seguro dizer que tanto Nagisa como Koro-Sensei foram reversos da mesma moeda, diferentes, mas, ao mesmo tempo, muito iguais, uma personagem complementa a outra. Mas não só de Nagisa viveu a Turma E, os seus alunos usaram métodos muito próprios e originais para as suas técnicas de assassinato. Que dizer de Okuda um apaixonado pela química que usou venenos? Ou um dos seus colegas adepto de maquetes que usou pequenos brinquedos como bombas? Realmente é uma pena que com tantas personagens (mais de 50!), muitas delas sejam completamente ignoradas e esquecidas devido ao seu elevado número. Porém, todas foram únicas, relacionáveis e pouco estereotipadas, aceitando todas as suas forças, fraquezas e diferenças, contribuindo para um plano sólido em grupo, mas fraco individualmente, equilibrando a fonte de interesse e comédia ao longo de toda a série.

Koro-Sensei não seria um grande professor se não, tivesse algo para ensinar. Não estou a referir-me apenas as suas lições de estudo, como também de vida. Literalmente conseguiu unir a sua turma como uma grande família criando laços muito fortes, sendo ele próprio a figura paterna que nunca tiveram. Rapidamente assistíamos a um conflito emocional muitíssimo bem retratado pelos seus alunos, devem matar o seu professor e prosseguir a sua missão enquanto assassinos? Ou devem seguir o seu lado mais humano? Esta são perguntas que não vou responder porque têm de ser experienciadas por quem não assistiu a esta maravilhosa obra. Assassination Classroom, também atuou uma série sociocultural, quando tivemos comparações com os valores da alta sociedade, face a classes mais baixas. Neste ponto foi breve, mas muito concisa, demonstrando que lixo da sociedade como foi descrita a Turma E, também possuiu sonhos e emoções, e não devia ser rotulada como imunda e desprovida de valores como a educação. Por último teve a sua dose de romance através do impressionante passado do Koro-sensei, e da relação entre Irina, a bela assassina russa destacada para a escola, vulgarmente chamada de Bitch-sensei pelos seus alunos, e o ministro da defesa, Tadaomi, um tipo do mais denso que possam imaginar! Assassination Classroom foi uma série que não teve receio de fazer da simplicidade e subtileza as suas forças principais, rompeu moldes e de criou inúmeros momentos emocionais, o final bem, nem vos falo!

A produção de Assassination Classroom esteve a cargo do jovem estúdio de animação, Studio Lerche. O mesmo foi retratado a traços muito semelhantes a obras de grande sucesso como Hunter X Hunter e Ushio to Tora. A arte conseguiu capturar toda a essência e qualidade da obra de Yuusei Matsui. Especulares jogos de sombras, alternando entre cores vivas, e frias consoante a ação. Podem contar com uma animação fluída e de qualidade, sem recorrer a técnicas de CGI. A banda Sonora foi novamente um reflexo de toda a obra. Por um lado, temos faixas onde o mistério e inquietação marcaram presença, enquanto, por outro lado, conforme a natureza do seu ambiente encontra faixas emocionais harmoniosas e cómicas. Este facto também foi evidente nas várias aberturas da série, onde o destaque foi para uma vida escolar animada. Contrastando com os emocionais encerramentos onde foi retratada a relação da Turma E com o seu amado Koro-Sensei, e como este viveu inocentemente dentro dos seus corações.

Os contrastes entre o sério e o improvável, uma história forte e sensível, uma dimensão dramática e sensível, estes são os valores que vão encontrar neste sucesso KOROSSAL! Demonstrando que podem ser feitas boas adaptações anime de sucessos recentes.
Uma obra que foi uma autêntica lufada de arte de fresco, numa altura decadente de qualidade deste género. Não hesitem e descobrir tudo o que o Koro-Sensei tem para ensinar, enquanto recordam com nostalgia os vossos agridoces tempos anos de estudante.
No país a série está disponível na NETFLIX e atualmente a sua publicação manga encontra-se a cargo da Editora Devir.

Assistiram a esta adaptação? Que acharam?