
Todos os anos, a editora educativa Gakken pergunta a crianças e jovens japoneses o que querem ser quando crescer. Os resultados do inquérito de 2026, divulgados esta semana pelo Sankei Shimbun e incluídos no Livro Branco sobre estudantes do ensino básico, médio e secundário, revelam uma tendência que vai surpreender muito pouco quem acompanha a cultura digital e ao mesmo tempo diz muito sobre como a relação das crianças com a internet muda à medida que ficam mais velhas.
Para chegar a estas conclusões, a Gakken inquiriu 1200 alunos do ensino básico, 600 alunos do ensino médio e outros 600 do ensino secundário. Cada participante podia indicar até duas profissões. As respostas que mencionavam YouTubers ou Instagrammers foram agrupadas na mesma categoria de “streamer online”, tornando o conceito mais amplo do que o título sugere, na prática, abrange qualquer forma de criação de conteúdo pessoal na internet.
No básico, ganham os streamers. Por pouco
Entre as crianças do ensino básico, a profissão mais escolhida foi streamer online, com 113 respostas, ultrapassando pela primeira vez o pasteleiro, que tinha liderado o ranking no ano anterior e ficou agora em segundo lugar com 110 respostas. Logo a seguir surgem agente da polícia (92 respostas), professor (87) e médico (69).
O resultado não é propriamente uma surpresa. Há vários anos que os YouTubers e criadores de conteúdo figuram no topo deste tipo de rankings no Japão. O que é novo é a liderança, e ela não é esmagadora. A diferença entre o primeiro e o segundo lugar é de apenas três respostas, o que diz muito sobre o equilíbrio entre o novo e o tradicional nas aspirações dos mais novos.
Olhando para os dados por género, o panorama muda de forma significativa. Entre os rapazes, a preferência por streamer é clara. Já entre as meninas, a profissão ficou apenas em oitavo lugar, com 37 votos, muito longe do pasteleiro, que dominou com 104 respostas, mais 43 do que a segunda opção feminina, que foi professora.
No médio, a realidade começa a bater à porta
Quando o mesmo inquérito chega aos alunos do ensino médio, o cenário muda de forma bastante expressiva. A profissão de streamer cai para um empate no quarto lugar, com 36 respostas, atrás de trabalhador por conta de outrem (75 respostas), funcionário público (54) e professor (49). As outras duas profissões empatadas no quarto lugar foram engenheiro e médico, ambas também com 36 respostas.
“Trabalhador por conta de outrem” é uma expressão usada no Japão para designar, de forma geral, trabalhos de escritório em empresas privadas e o facto de ser a escolha número um nesta faixa etária já diz muito. A estabilidade começa a pesar.
No secundário, os streamers desaparecem do mapa
No ensino secundário, a profissão de streamer sai completamente do top 10, tanto no ranking geral como nas listas separadas por género. O pódio fica dominado pelas mesmas escolhas pragmáticas: trabalhador por conta de outrem (74 respostas), funcionário público (52) e professor (47). Seguem-se enfermeiro (35) e engenheiro (27).
A tendência é clara e consistente, quanto mais velhos ficam os jovens japoneses, menos apelativa lhes parece a ideia de viver da criação de conteúdo online.
Um sonho que encolhe com a idade e faz sentido
A queda do streamer nos rankings à medida que a faixa etária aumenta pode ser lida de duas formas muito diferentes. A mais pessimista diria que os jovens japoneses vão abandonando os sonhos criativos em favor da segurança financeira e numa sociedade onde a responsabilidade pessoal e a capacidade de se sustentar são valores centrais, essa leitura não é assim tão errada.
Mas há outra explicação igualmente válida, à medida que crescem e se tornam mais familiarizados com o funcionamento real das plataformas, os jovens percebem que ser streamer profissional não é bem o que parecia. Para uma criança do ensino básico, um YouTuber é alguém que joga, faz coisas fixes e é pago por isso. O que não é imediatamente visível é que os streamers de sucesso trabalham em função dos interesses da audiência e não dos seus próprios, constroem e mantêm uma persona pensada para maximizar visualizações, e, exceto os que chegam ao topo, raramente conseguem dispensar uma fonte de rendimento paralela.
Não é muito diferente do que acontece com o sonho de ser futebolista profissional ou ator, começa a parecer menos glamoroso a partir do momento em que se percebe o que está realmente por detrás. Nesse sentido, o streamer pode ser simplesmente mais uma profissão que soa bem antes de se perceber o que implica, e para muitos jovens, essa perceção chega cedo o suficiente para mudar de ideias.








