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    Streamer espanhol morre em direto após desafio com álcool e drogas pago por espectadores

    Polícia catalã investiga primeira morte relacionada com desafios extremos online em Espanha, com autoridades a avaliarem possível responsabilização criminal de quem incentivou o comportamento

    Hell Mode screenshot PC computer gaming

    A passagem de ano trouxe uma tragédia que expõe o lado mais sombrio do streaming. Sergio Jiménez, um criador de conteúdos espanhol de 37 anos, morreu na madrugada de 31 de dezembro em Vilanova i la Geltrú, perto de Barcelona, durante uma transmissão ao vivo onde terá aceite consumir uma garrafa inteira de whisky e seis gramas de cocaína em menos de três horas. O desafio, alegadamente pago por espectadores através de doações, terminou em overdose.

    O corpo de Jiménez, conhecido online como Sancho ou Sssanchopanza, foi descoberto pelo irmão mais novo, Daniel, na casa que partilhava com a mãe. A webcam continuava ligada quando foi encontrado numa posição descrita pela família como “de oração”, ajoelhado junto à cama. Vozes de espectadores ainda podiam ser ouvidas a perguntar se estava “a dormir uma ressaca” e a incentivá-lo a terminar o whisky, segundo os familiares.

    Investigação policial em curso

    A polícia catalã, confirmou a abertura de uma investigação a 5 de janeiro de 2026, tornando este o primeiro caso documentado em Espanha de uma morte relacionada com desafios extremos online. As autoridades aguardam os resultados completos da autópsia e estão a examinar as circunstâncias para determinar se ocorreu algum crime.

    Um porta-voz declarou: “Estamos a investigar a morte de um homem de 37 anos encontrado sem vida numa propriedade em Vilanova i la Geltrú nas primeiras horas de 31 de dezembro. Estamos a aguardar os resultados completos da autópsia e a examinar as circunstâncias para determinar se ocorreu um crime”.

    Os investigadores não descartam expandir o caso para determinar se algum espectador ou organizador poderá enfrentar responsabilidade criminal por alegado incitamento a comportamento de risco. No local foram encontrados uma garrafa de whisky quase vazia, latas de bebidas energéticas e vestígios de droga num prato vermelho junto ao computador.

    O modelo de Simón Pérez

    Sergio Jiménez terá começado a criar este tipo de conteúdo depois de conhecer Simón Pérez, um dos nomes mais controversos do streaming espanhol. Pérez tornou-se viral em 2017 com um vídeo sobre hipotecas a taxa fixa, mas a sua carreira descambou para transmissões onde realizava desafios pagos, muitos envolvendo consumo de substâncias.

    O próprio Pérez reagiu à morte de Jiménez num vídeo no YouTube, afirmando ter “a consciência tranquila” e declarando: “Me podía haber pasado a mí, le ha pasado a él” (Podia ter-me acontecido a mim, aconteceu-lhe a ele).

    A família de Sergio responsabiliza Pérez por ter introduzido o jovem a este tipo de desafios, mas também critica os espectadores que pagam para ver pessoas vulneráveis serem humilhadas ou colocarem a vida em risco.

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    Transmissões privadas fora do radar

    Uma das características mais preocupantes deste fenómeno é a migração para plataformas privadas. Ao contrário das transmissões públicas no Twitch ou YouTube, que têm sistemas de moderação (mesmo que imperfeitos), os desafios extremos têm-se deslocado para videochamadas no Google Meet, grupos privados no Telegram e outras plataformas onde praticamente não existe fiscalização.

    Segundo relatos publicados pela imprensa espanhola, os espectadores pagavam entre 40 e 120 euros para aceder a transmissões exclusivas onde podiam sugerir desafios progressivamente mais perigosos. Esta dinâmica cria um sistema perverso onde o anonimato relativo dos espectadores, os micropagamentos e a gratificação imediata alimentam uma espiral de comportamentos cada vez mais arriscados.

    O caso Jean Pormanove

    Este não é um incidente isolado. A morte de Sergio Jiménez segue-se à de Raphaël Graven, conhecido como Jean Pormanove, que morreu em agosto de 2025 durante uma transmissão ao vivo na plataforma Kick. Graven, streamer francês de 46 anos, faleceu após mais de 10 dias de transmissão ininterrupta onde foi sujeito a violência física, privação de sono e humilhações por parte de outros criadores de conteúdos.

    A autópsia de Graven concluiu que a morte não foi causada diretamente por ações de terceiros e não foram apresentadas acusações criminais, embora uma investigação tenha examinado alegações de abuso físico, ingestão forçada de substâncias e privação extrema de sono. Os criadores envolvidos mantiveram que o conteúdo era consensual e encenado, posição apoiada publicamente pela mãe de Graven.

    A ministra francesa dos assuntos digitais, Clara Chappaz, classificou a morte de Pormanove como “um horror absoluto” e referiu o caso às autoridades reguladoras. O episódio levou a Kick a banir temporariamente vários canais, incluindo o de Simón Pérez e da sua parceira Silvia Charro, embora a plataforma tenha depois levantado algumas dessas restrições.

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    O caso de Sergio Jiménez levanta questões urgentes sobre a regulação de conteúdos online e a responsabilidade das plataformas. Enquanto as plataformas públicas de streaming têm políticas de moderação (ainda que frequentemente criticadas pela sua aplicação inconsistente), os grupos privados e videochamadas operam numa zona cinzenta legal.

    O fenómeno do “trash streaming”

    O que Sergio Jiménez e Jean Pormanove praticavam faz parte de um fenómeno conhecido como trash streaming, onde criadores realizam atos degradantes, perigosos ou violentos em troca de dinheiro de espectadores. Esta prática tem crescido particularmente entre pessoas em situação de vulnerabilidade económica ou psicológica.

    Investigação académica sobre violência sob demanda em streaming identifica três fatores chave que alimentam esta dinâmica: anonimato relativo dos espectadores, micropagamentos que facilitam a participação, e gratificação imediata de ver as suas “sugestões” executadas em tempo real. A audiência não se limita a observar passivamente, mas empurra ativamente os criadores para comportamentos cada vez mais extremos através de doações.

    O modelo económico é perverso, quanto mais extremo o conteúdo, maiores as doações. Quanto mais vulnerável o criador (seja financeira, psicológica ou socialmente), maior a probabilidade de aceitar desafios cada vez mais perigosos. Esta escalada continua até algo correr tragicamente mal, como aconteceu com Sergio Jiménez.

    Helder Archer
    Helder Archer
    Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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