
Quando uma empresa anuncia uma remodelação de liderança desta dimensão, há uma palavra que ninguém escreve mas toda a gente lê nas entrelinhas: despedimentos. A saída de Phil Spencer, a demissão de Sarah Bond e a chegada de Asha Sharma, uma executiva sem historial na indústria dos videojogos, foram o suficiente para acender os alarmes entre os milhares de trabalhadores dos mais de 40 estúdios que compõem a Microsoft Gaming.
Matt Booty, recém-promovido a vice-presidente executivo e chief content officer, tratou de responder antes que a especulação tomasse conta da conversa. Num memo interno enviado às equipas na sexta-feira, foi direto ao assunto: “O meu foco está em apoiar as equipas e os líderes que temos e em criar as condições para que façam o seu melhor trabalho. Para ser claro, não há alterações organizacionais em curso nos nossos estúdios”.
O contexto que torna este memo necessário, e que Booty não ignora, é o dos últimos dois anos. Desde que a Microsoft concluiu a aquisição da Activision Blizzard por 69 mil milhões de dólares em outubro de 2023, a divisão de gaming foi palco de alguns dos momentos mais sombrios da sua história recente: o encerramento do Arkane Austin, responsável por Prey e Redfall; o fecho do Tango Gameworks, estúdio por trás de Hi-Fi Rush, apenas meses depois de o jogo ter sido aclamado pela crítica; e o encerramento do Alpha Dog Games. Ao todo, a Microsoft cortou milhares de postos de trabalho na área de gaming. É esse historial que faz com que a palavra “reestruturação”, mesmo quando acompanhada de um “não”, provoque imediatamente desconforto.
No mesmo memo, Booty partilhou também as primeiras impressões sobre Asha Sharma, com quem já teve contacto direto desde o anúncio da nomeação: “Ela faz perguntas, procura clareza e quer que as nossas decisões sejam fundamentadas nas necessidades dos jogadores e dos criadores”. Foi mais longe ao tentar fundamentar o otimismo com substância: “Temos boas razões para acreditar no que está pela frente. Esta organização e as suas franquias navegaram mudanças durante décadas, e a nossa força vem de equipas que sabem como se adaptar e continuar a criar. Essa confiança está sustentada num pipeline sólido de franquias estabelecidas, de novas apostas em que acreditamos, e de uma procura clara por parte dos jogadores daquilo que estamos a construir”.
O memo de Booty completa um trio de comunicados internos que a liderança da Microsoft Gaming enviou na sexta-feira: o de Satya Nadella a anunciar as mudanças, o de Phil Spencer a despedir-se, e agora este, o único dos três que fala diretamente para quem trabalha nos estúdios e cujo emprego pode estar em jogo.
A pressão financeira está lá. As receitas de gaming da Microsoft caíram 10% no último trimestre em comparação com o período homólogo do ano anterior, com as receitas de hardware a registar uma queda de 32%. Sharma já tem na agenda o GDC Festival of Gaming em março e a Xbox Games Showcase na primavera, onde se esperam os primeiros sinais concretos da sua visão para o futuro da plataforma.








