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10 mangás que os portugueses mais querem ver publicados em Portugal em 2026

Pedimos à comunidade que escolhesse. O resultado é uma lista que mistura clássicos que já deviam cá estar há anos com títulos recentes que provam que os leitores portugueses estão completamente a par do que se passa lá fora.

10
Bleach

Bleach vol 1 cover

Há uma geração inteira de fãs de anime que cresceu com a trindade do shonen, Naruto, One Piece, Bleach. Os três definiram o que era ser fã de anime durante os anos 2000 e início dos 2010, e enquanto os outros dois acabaram por chegar a Portugal com edições físicas, Bleach ficou sempre de fora. Isso pesa, e os votos mostram isso.

A história de Ichigo Kurosaki começou na Weekly Shōnen Jump em 2001, da mão de Tite Kubo, e durante quinze anos foi um dos mangás mais vendidos do planeta. A premissa, um adolescente que herda os poderes de um Shinigami e passa a combater criaturas sobrenaturais enquanto tenta manter uma vida normal, podia parecer genérica em resumo, mas o que Kubo fez com ela estava longe de ser genérico. O design das personagens e das Zanpakutō, as espadas de cada Shinigami, tornaram Bleach uma referência visual que poucos mangás conseguiram igualar. Kubo desenhava como ninguém, cada página tinha uma composição que parecia pensada para existir como poster.

Quando o anime regressou em 2022 para adaptar a última parte da história do mangá, Thousand-Year Blood War, a reacção foi enorme. Uma nova geração descobriu Bleach, a geração mais velha reencontrou-o, e de repente voltou a estar em cima da mesa como uma das séries que qualquer fã de shonen deve conhecer. São 74 volumes no total.

9
JoJo’s Bizarre Adventure

JoJo's Bizarre Adventure part 7 vol 1 cover (2)

Poucas séries mangá têm uma base de fãs tão fervorosa e tão difícil de explicar a quem não leu. Tentar descrever JoJo’s Bizarre Adventure a alguém de fora é quase uma tarefa impossível e essa impossibilidade é exactamente parte do encanto.

Hirohiko Araki começou a publicar JoJo em 1987 e, mais de trinta anos depois, ainda está a fazê-lo. O que distingue a série de praticamente tudo o resto é a forma como Araki nunca ficou preso a uma fórmula. Cada uma das partes publicadas até hoje é quase uma série diferente, a primeira é aventura victoriana com vampiros, a terceira é uma road trip pelo mundo com poderes psíquicos, a quinta passa-se na máfia italiana, a oitava é um thriller de memória perdida numa cidade japonesa fictícia. O único fio condutor é a família Joestar, e a assinatura inconfundível de Araki, que mistura referências da moda europeia de alta-costura com poses que parecem saídas de uma campanha de perfume e combates que funcionam como puzzles lógicos.

Os Stands, as manifestações de poder únicas de cada personagem, com formas humanóides e habilidades completamente distintas, são uma das ideias mais criativas que o mangá já produziu, e abriram caminho para uma forma de contar batalhas que influenciou inúmeras séries posteriores. JoJo tem 130 volumes em circulação no Japão e é uma das séries mais presentes na cultura pop online, o que torna a ausência de uma edição portuguesa ainda mais sentida por quem acompanha a comunidade internacional.

8
Hell’s Paradise

Hell's Paradise vol 1 cover

Hell’s Paradise: Jigokuraku chegou relativamente tarde ao radar de muita gente, mas quando chegou, ficou. Publicado na Shōnen Jump+ entre 2018 e 2021 por Yuji Kaku, é um daqueles títulos que provam que o formato de serialização digital abriu espaço para histórias que o modelo tradicional de revista semanal talvez não tivesse acolhido da mesma forma.

A premissa instala-se no Japão do período Edo, Gabimaru é um assassino ninja de reputação lendária, considerado praticamente imortal, que é capturado e condenado à morte. Em vez de ser executado, é enviado numa missão aparentemente suicida, explorar uma ilha misteriosa no mar do sul e regressar com o elixir da vida eterna, o que lhe garantiria o perdão. A ilha, que seria o paraíso terreno segundo as lendas, revela-se um pesadelo de criaturas mitológicas, poderes incompreensíveis e uma lógica completamente própria que o mangá vai desvendando.

O que distingue Hell’s Paradise do shōnen de acção típico é a forma como Kaku equilibra a brutalidade dos confrontos com uma análise genuína das personagens. Gabimaru e Sagiri, a executora oficial que o acompanha e que tem a missão de o matar caso falhe, desenvolvem uma das relações mais interessantes do mangá recente, construída sobre respeito mútuo e dúvidas existenciais partilhadas. O anime produzido pelo MAPPA em 2023 foi bem recebido e ajudou a trazer novos leitores para os 13 volumes da edição original.

7
Gachiakuta

Gachiakuta é a escolha que mais diz sobre o estado actual da comunidade de leitores portugueses. Não é um título com décadas de história nem uma adaptação anime já consolidada, é uma série que começou em 2022 e que, mesmo assim, entrou nesta lista porque os fãs portugueses estão a acompanhar o que se passa no shōnen actual com a mesma atenção que dedicam aos clássicos.

Kei Urana, que foi assistente de Atsushi Ohkubo durante a produção de Fire Force, criou um mundo distópico com uma premissa que é simultaneamente simples e densa. Existe uma cidade flutuante, estratificada em classes rígidas, e no fundo de tudo existe o Poço: um abismo sem fim para onde vai o lixo e para onde são atirados os condenados. Rudo, o protagonista, cresce nessa cidade marcado pelo estatuto de descendente de criminal, até que uma acusação falsa o empurra exatamente para o Poço. A particularidade que o distingue dentro desse inferno é a capacidade de absorver a “Anima”, a essência espiritual de objectos descartados e transformá-la em poder.

O anime produzido pelo estúdio Bones estreou em 2025 com uma receção muito positiva, e a segunda temporada já está confirmada. Urana tem uma forma de desenhar acção que é ao mesmo tempo caótica e perfeitamente legível, com personagens secundários que têm consistentemente mais substância do que o género costuma oferecer. Com 18 volumes publicados no Japão, é um dos títulos do shōnen contemporâneo com mais potencial comercial imediato, e um dos que mais beneficiaria de chegar cá enquanto o anime ainda é popular.

6
Neon Genesis Evangelion

Neon Genesis Evangelion vol 1 cover

Neon Genesis Evangelion é um dos títulos que mais justifica a pergunta “como é que isto ainda não existe em português?”. A série anime de 1995 de Hideaki Anno é uma referência da cultura pop, estudada em universidades, citada em literatura, usada como ponto de partida para discussões sobre saúde mental, religião, filosofia existencial e a linguagem visual do anime. O mangá é a outra face dessa história.

Ilustrado por Yoshiyuki Sadamoto e publicado entre 1994 e 2013, o mangá de Evangelion não é uma adaptação da série anime, é a versão da história que Sadamoto quis contar, com um ritmo diferente, decisões narrativas próprias e um final alternativo. Shinji Ikari, o protagonista, tem aqui uma caracterização ligeiramente mais directa do que na televisão, e a relação com as outras personagens desenvolve-se com nuances diferentes. Para quem conhece o anime, ler o mangá é encontrar uma história familiar vista de outro ângulo. Para quem não conhece, é uma porta de entrada para um universo que moldou décadas de ficção japonesa.

Com o anúncio de uma nova série anime em produção, escrita por Yoko Taro, o criador de NieR: Automata, em co-produção entre o Studio Khara e a CloverWorks, o interesse em Evangelion vai continuar a crescer. A curta de aniversário lançada em março de 2026 no YouTube acumulou quase três milhões de visualizações em menos de 24 horas. Publicar os 14 volumes do mangá em Portugal agora seria, do ponto de vista editorial, um timing quase perfeito.

5
Cardcaptor Sakura

Cardcaptor Sakura vol 1 cover

Cardcaptor Sakura é a escolha desta lista que mais facilmente poderia ser subestimada e que mais facilmente provaria quem a subestimasse. CLAMP não é um nome qualquer, é um colectivo de quatro autoras japonesas que ao longo de três décadas produziu algumas das obras mais influentes do mangá, de X/1999 a xxxHolic, Cardcaptor Sakura é a mais acessível e ao mesmo tempo uma das mais completas.

Publicada entre 1996 e 2000 na revista Nakayoshi, a série acompanha Sakura Kinomoto, uma criança de dez anos que acidentalmente liberta as Clow Cards, um conjunto de cartas mágicas com poderes próprios e se vê com a responsabilidade de as recuperar antes que causem dano. A estrutura episódica de captura de cartas é o andaime, mas o que sustenta a série é outra coisa, as relações entre as personagens, tratadas com uma maturidade emocional e uma ternura que raramente se encontra no mangá para o público jovem.

A edição original tem 12 volumes e é um dos títulos mais pedidos pelas leitoras mais jovens que entram no manga através do anime, que passou em Portugal na televisão nos anos 2000 e ainda é recordado com afecto por muita gente que hoje tem vinte e tal anos e compraria o mangá sem hesitar.

4
Fullmetal Alchemist

Há mangás bons, há mangás excelentes, e depois há Fullmetal Alchemist, uma obra que entra numa categoria à parte pela simples razão de que quase toda a gente que a leu considera que não tem um único volume desperdiçado. Hiromu Arakawa publicou a série entre 2001 e 2010 na Monthly Shōnen Gangan, e nos 27 volumes que a compõem construiu algo que poucos autores alguma vez conseguiram, uma história com a escala de uma epopeia e a precisão emocional de um conto.

Edward e Alphonse Elric tentaram o impossível, usar a alquimia para ressuscitar a mãe morta, e pagaram um preço devastador: Edward perdeu um braço e uma perna, Alphonse perdeu o corpo inteiro, com a alma presa numa armadura. A aventura que se segue à medida que os dois procuram a Pedra Filosofal para recuperar o que perderam é simultaneamente uma história de irmandade, um thriller militar e político, e uma meditação sobre o que significa ser humano e os limites do conhecimento. Arakawa não desperdiça nenhuma personagem secundária, cada figura que aparece na história tem uma função, uma motivação, e um arco próprio que contribui para o todo.

A adaptação anime Fullmetal Alchemist: Brotherhood, que em 2009 adaptou fielmente o mangá pela primeira vez, continua regularmente a aparecer no topo das listas dos melhores anime de sempre. O facto de um título desta dimensão não ter edição portuguesa activa é, honestamente, uma das lacunas mais difíceis de compreender em todo o mercado editorial nacional.

3
Vinland Saga

Vinland Saga vol 1 cover (1)

Vinland Saga é o tipo de obra que muda a perspectiva de quem o lê sobre o que a indústria de mangá consegue fazer. Makoto Yukimura começou a publicá-lo em 2005, e ao longo de mais de duas décadas criou uma obra que evoluiu de forma tão profunda que o tom do primeiro volume quase não se reconhece no tom dos volumes mais recentes e isso não é uma falha, é exactamente o ponto.

A história começa como uma saga de vingança. Thorfinn é filho de Thors, um guerreiro viking lendário que abandonou as armas e foi assassinado por traição. Desde criança que Thorfinn vive para matar Askeladd, o homem responsável pela morte do pai, seguindo-o de batalha em batalha, ganhando o direito a um duelo com vitórias em combate que nunca chegam a ser definitivas. É uma espiral de violência que Yukimura descreve sem romantismo, mostrando a guerra pelos seus resultados reais: trauma, degradação, morte banal. E é nesse ponto que a série começa a transformar-se numa coisa completamente diferente.

A segunda fase de Vinland Saga, que começa aproximadamente a meio da série, é um dos maiores pivôs narrativos da história do mangá. Thorfinn sobrevive à sua sede de vingança e tem de descobrir o que é sem ela, num arco de redenção que Yukimura estica durante anos com uma paciência e um rigor poucos autores teriam coragem de manter. O resultado é um mangá que começa como aventura viking e termina como uma reflexão sobre a paz, o trabalho e a construção de algo duradouro. O Wit Studio adaptou a primeira fase em 2019 com uma qualidade de animação impressionante, e a segunda temporada, em 2023, foi elogiada mesmo por quem não conhecia a fonte.

2
Berserk

Berserk vol 1 cover

Berserk não precisa de ser apresentado, mas merece que se fale sobre o que representa tê-lo ausente das livrarias portuguesas. Kentaro Miura começou a publicar a série em 1989 e trabalhou nela durante mais de trinta anos, construindo uma obra de uma densidade e de uma ambição visuais que poucos autores alguma vez tentaram igualar. Quando faleceu em maio de 2021, deixou 41 volumes e uma história inacabada que a sua equipa de assistentes, o Studio Gaga, com a supervisão de Kouji Mori, continua a publicar com os materiais e as notas que Miura deixou.

Guts é um dos protagonistas mais complexos da ficção popular. Nascido de circunstâncias que nunca lhe deviam ter permitido sobreviver, passou a vida a lutar como forma de existir, primeiro como mercenário, depois como o único sobrevivente de uma traição que destruiu tudo o que lhe importava. A relação com Griffith, o antagonista, é uma das mais ricas e mais devastadoras alguma vez escritas num mangá, dois homens que se definem mutuamente, que se elevam e que se destroem, e cuja dinâmica sustenta toda a mitologia da série. O mundo que Miura construiu à volta deles é de uma elaboração que poucos autores alguma vez tentaram, a cosmologia, a iconografia, os reinos, a história interna do universo têm a solidez de uma obra de world-building de décadas.

1
The Apothecary Diaries

The Apothecary Diaries é o número um desta votação. É um dos títulos mais presentes na conversa global sobre mangá neste momento, tem números de vendas que falam por si, mais de 45 milhões de cópias em circulação a nível mundial, e a série já provou em múltiplos mercados que atrai leitores muito além do público habitual do mangá.

A origem da série é invulgar, começou como uma web novel de Natsu Hyūga, publicada numa plataforma amadora japonesa, e o sucesso orgânico foi suficiente para despoletar duas adaptações em mangá simultâneas, uma com arte de Nekokurage, publicada na Monthly Big Gangan da Square Enix, e outra com arte de Minoji Kurata, na Monthly Sunday Gene-X da Shogakukan. Não é comum uma história ter duas versões em mangá a correr ao mesmo tempo em editoras diferentes, e o facto de ambas terem funcionado bem diz algo sobre a força do material original.

A protagonista, Maomao, é o que distingue a série de uma forma mais imediata. Filha de um boticário que cresceu num bairro de entretenimento da capital de um império inspirado na China da dinastia Tang, Maomao não tem interesse em heróis nem em aventuras, o que quer é estudar plantas, compostos e venenos. Quando é vendida como serva para o palácio imperial, a sua natureza curiosa e analítica leva-a a começar a resolver os mistérios que se acumulam nas câmaras internas da corte, muitas vezes sem querer e quase sempre contrariada. É uma protagonista que pensa, que observa, que chega a conclusões antes do leitor, e que trata os outros com um distanciamento que esconde uma empatia calibrada.

O anime foi um dos mais vistos e mais discutidos dos últimos anos. A história chegou a leitores que normalmente não lêem mangá e a espectadoras que normalmente não vêem anime.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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