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    China encerra a maior rede mundial de pirataria de mangá

    Este homem ganhava 54 mil euros por mês com sites de mangá pirateado e agora enfrenta a justiça

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    A organização anti-pirataria japonesa CODA revelou hoje ser a responsável pelo encerramento do Bato.to, um dos mais emblemáticos sites de pirataria de mangá da internet. A operação culminou numa rusga policial na China em novembro de 2025 e levou à detenção do alegado operador do site, que agora aguarda acusação formal por crimes de violação de direitos de autor.

    O caso representa o maior golpe contra a pirataria de mangá alguma vez registado. O suspeito não operava apenas o Bato.to, mas aproximadamente 60 outros sites de pirataria, incluindo o MangaPark, formando aquilo que a CODA descreve como a maior rede de pirataria de mangá na internet. Apenas em maio de 2025, estes sites registaram cerca de 350 milhões de visitas.

    A CODA, que representa as cinco maiores editoras japonesas de mangá, Kadokawa, Kodansha, Shueisha, Shogakukan e Square Enix, submeteu uma queixa criminal à delegação de segurança pública da China em setembro de 2025. A pressão aumentou quando a China Literature Limited, subsidiária da Tencent e uma das maiores plataformas de literatura online da China, apresentou uma queixa adicional após conversações com a CODA.

    As investigações levaram a uma rusga policial na residência do suspeito na Região Autónoma de Guangxi Zhuang, no sul da China, em novembro de 2025. O homem foi detido, interrogado e posteriormente confessou operar todos os sites relacionados. Encontra-se atualmente em liberdade sob fiança enquanto aguarda a acusação formal.

    Durante o interrogatório, o suspeito admitiu que o negócio gerava receitas significativas através de publicidade. Nos meses de maior atividade, os ganhos ultrapassavam os 400 mil yuan (aproximadamente 54 mil euros) mensais.

    O Bato.to permaneceu operacional durante algum tempo após a detenção, mas a CODA esclarece que tal se deveu a necessidades de preservação de provas. O site encerrou definitivamente no início de janeiro de 2026, com a confirmação do fecho de todos os 60 sites a ocorrer a 19 de janeiro.

    A operação da CODA não deve ser confundida com as ações recentes da Kakao Entertainment, que também visaram comunidades do Bato.to no Reddit e Discord. Segundo a CODA, as duas ações correram em paralelo mas de forma independente. A Kakao focou-se nas comunidades online, enquanto a CODA concentrou esforços na identificação e ação criminal contra o operador principal na China.

    O processo de investigação começou no verão de 2024, quando a CODA identificou o Bato.to como uma ameaça prioritária no âmbito do seu Projeto de Aplicação Transfronteiriça (CBEP). “Através da colaboração com especialistas em cibersegurança, incluindo hackers éticos, a CODA conduziu investigações de inteligência de fonte aberta (OSINT). Ao descobrir que estavam a ser utilizados serviços chineses, a CODA trabalhou com uma empresa de investigação chinesa para identificar o operador, levando à apresentação de uma queixa criminal junto da delegação de segurança pública da China”, explica a organização em comunicado.

    Um detalhe particularmente interessante revelado pela CODA prende-se com a estratégia do operador para evitar problemas locais. O site empregava bloqueio geográfico para impedir acessos a partir da China, criando assim a aparência de que não ocorria qualquer infração no território chinês, quando na realidade atraía tráfego global massivo e gerava receitas publicitárias ilícitas substanciais.

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    O Bato.to e sites relacionados dependiam em grande parte de scanlations, traduções não autorizadas de mangás por fãs para outras línguas. Embora estas tenham sido sempre uma preocupação major para a indústria, as tecnologias de inteligência artificial tornaram o processo ainda mais fácil, agravando significativamente o problema.

    As tecnologias de IA permitem agora traduzir mangás para mais de 50 idiomas com rapidez crescente, facilitando a distribuição não autorizada a uma escala global. Esta evolução tecnológica tem intensificado os danos causados à indústria nos últimos anos.

    Takero Goto, diretor representativo da CODA, agradeceu às autoridades chinesas e japonesas pela assistência: “O encerramento do maior site de pirataria de mangá do mundo através de aplicação criminal é altamente significativo para os esforços anti-pirataria transfronteiriços. Gostaria de expressar a minha sincera gratidão às autoridades chinesas, ao Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão, e a todos os outros envolvidos que dedicaram os seus esforços a este caso”.

    O impacto deste encerramento massivo não deve ser subestimado. Com 350 milhões de visitas mensais distribuídas por 60 sites, a rede do Bato.to representava uma fatia substancial do tráfego global de pirataria de mangá. A remoção súbita desta capacidade criou um vácuo significativo no ecossistema da pirataria.

    A operação contra o Bato.to insere-se numa tendência mais ampla de ações coordenadas internacionalmente contra a pirataria de conteúdo japonês. Em 2022, a CODA lançou a Organização Internacional Anti-Pirataria (IAPO), reunindo empresas e organizações de mais de 13 países, incluindo a Motion Picture Association dos Estados Unidos.

    A pirataria de anime e mangá tem custos astronómicos para a indústria japonesa. Segundo estimativas da CODA de 2023, a pirataria custou à indústria entre 1,9 e 2,2 triliões de ienes (cerca de 14,2 a 16,5 mil milhões de dólares) apenas em 2021, um aumento de cinco vezes face ao estudo anterior de 2019.

    O caso do Bato.to estabelece um precedente importante para ações futuras. Demonstra que mesmo operadores baseados na China, um mercado tradicionalmente difícil para ações de aplicação de direitos de autor estrangeiros, podem ser responsabilizados quando há cooperação adequada entre as autoridades.

    A revelação de que o operador bloqueava acessos da China é particularmente significativa. Esta tática, embora comum entre sites de pirataria que operam a partir de jurisdições com aplicação rigorosa de direitos de autor, demonstra consciência da ilegalidade das atividades. O bloqueio geográfico servia como tentativa de evitar chamar atenção das autoridades locais enquanto lucrava com audiências internacionais.

    As autoridades chinesas apreenderam os computadores pessoais do suspeito e continuam a investigar dados dos servidores, a estrutura operacional dos sites e informações sobre outros indivíduos envolvidos na operação. Esta investigação contínua pode revelar mais detalhes sobre a rede e potencialmente levar a ações adicionais.

    O Bato.to tinha sido lançado em 2014 como um site de submissão de utilizadores, alojando uploads não autorizados de mangás populares distribuídos globalmente. A plataforma tornou-se ao longo dos anos uma referência para milhões de leitores de mangá em todo o mundo.

    Helder Archer
    Helder Archer
    Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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