
Os prémios Shogakukan de mangá anunciaram esta quarta-feira os vencedores da sua 71.ª edição, numa cerimónia que destacou cinco obras que representam a amplitude e diversidade da produção japonesa atual. Dandadan, o fenómeno sobrenatural de Yukinobu Tatsu, foi um dos grandes destaques, juntando-se a títulos que vão desde ficção científica até slice-of-life contemplativo.
Cada título vencedor receberá uma estatueta de bronze e um prémio monetário de 1 milhão de ienes (cerca de 6.000 euros). A lendária mangaká Moto Hagio, criadora de The Poe Clan, foi distinguida com o Prémio Especial do Júri, reconhecendo décadas de contribuições fundamentais para o meio.
Esta edição dos prémios Shogakukan marca o segundo ano desde que a organização eliminou as categorias tradicionais, infantil, shōnen, shōjo e geral, adotando um formato unificado que permite aos júris selecionar obras baseando-se exclusivamente no mérito artístico e narrativo, sem restrições demográficas.
Shogakukan Manga Awards – Lista de vencedores 2026
- Unmei no Makimodo Shi – Fūta Kimura (Monthly Coro Coro Comics)
- Cosmos – Ryūhei Tamura (Sunday GX)
- Dandadan – Yukinobu Tatsu (Shonen Jump+)
- Dekin no Mogura: The Earthbound Mole – Natsumi Eguchi (Morning)
- Hirayasumi – Keigo Shinzō (Weekly Big Comic Spirits)
- Prémio Especial do Júri: Moto Hagio (The Poe Clan)
O júri deste ano incluiu nomes como Genki Kawamura, Ako Shimaki, Kazuhiko Shimamoto, Kazutoshi Soyama, Shiho Takase, Bourbon Kobayashi e Taiyo Matsumoto, uma composição que reflete tanto a indústria criativa como a crítica especializada.
Dandadan

O mangá de Yukinobu Tatsu tornou-se num dos maiores fenómenos recentes do meio. Serializado no Shonen Jump+ desde abril de 2021, a história acompanha Momo Ayase e Ken Takakura (apelidado de Okarun), dois adolescentes com crenças opostas sobre o paranormal que acabam por descobrir que tanto fantasmas como aliens são reais.
A vitória nos prémios Shogakukan consolida o estatuto de Dandadan como uma das propriedades mais quentes da Shueisha. Com 22 volumes publicados até janeiro de 2026, a série já ultrapassou os 32 milhões de cópias vendidas. A adaptação anime produzida pela Science Saru estreou em outubro de 2024 com aclamação crítica.
Tatsu, que trabalhou como assistente em Chainsaw Man de Tatsuki Fujimoto e Hell’s Paradise de Yuji Kaku, criou uma obra que equilibra humor, ação frenética, romance e elementos sobrenaturais. A série mistura folclore japonês com teorias da conspiração sobre aliens, tudo apresentado com um estilo visual dinâmico que se tornou marca registada do mangaká.
A segunda temporada do anime foi transmitida entre julho e setembro de 2025, e uma terceira temporada já está confirmada para 2027.
Cosmos

Ryūhei Tamura, conhecido pelo humor irreverente de Beelzebub, regressa com uma abordagem completamente diferente em Cosmos. Serializado na Sunday GX da Shogakukan, este mangá de ficção científica explora questões existenciais através de uma narrativa que mistura aventura espacial com reflexões filosóficas profundas.
A vitória de Cosmos nos prémios Shogakukan demonstra a versatilidade de Tamura como criador. Enquanto Beelzebub era conhecido pelas suas cenas de comédia física e situações absurdas, Cosmos aposta num tom mais sério e contemplativo, mantendo ainda assim momentos de leveza que impedem a narrativa de se tornar demasiado pesada.
O mangá acompanha protagonistas que se veem confrontados com a vastidão do cosmos e o lugar da humanidade no universo. Tamura utiliza o cenário espacial não apenas como pano de fundo visual espetacular, mas como ferramenta narrativa para explorar temas de solidão, conexão humana e o significado da existência.
Unmei no Makimodo Shi

Publicado na Monthly Coro Coro Comics, Unmei no Makimodo Shi (Fate Rewinder) de Fūta Kimura representa a categoria mais jovem dos vencedores deste ano. A Coro Coro Comics é tradicionalmente conhecida por séries destinadas a crianças e pré-adolescentes, tendo publicado clássicos como Doraemon e Pokémon Adventures.
A vitória de Kimura nos prémios Shogakukan sublinha a importância de reconhecer obras que, apesar de direcionadas para públicos mais jovens, mantêm qualidade narrativa e artística notáveis. O mangá consegue equilibrar entretenimento acessível com storytelling que respeita a inteligência dos seus leitores mais jovens.
A inclusão de um título da Coro Coro entre os vencedores também reforça a decisão da Shogakukan de eliminar categorias etárias, permitindo que obras infantis compitam diretamente com mangás seinen ou shōjo, uma mudança que reflete a crescente compreensão de que qualidade transcende demografia.
Dekin no Mogura: The Earthbound Mole

Natsumi Eguchi traz uma perspetiva única com este mangá serializado na Morning da Kodansha, uma revista conhecida por publicar obras seinen maduras destinadas a um público adulto. The Earthbound Mole destaca-se pela sua abordagem contemplativa e pelo foco em personagens que navegam as complexidades da vida adulta.
O título metafórico sugere uma narrativa sobre pessoas que, como toupeiras, vivem em espaços confinados ou subterrâneos, seja literalmente ou como metáfora para existências limitadas por circunstâncias sociais ou pessoais. Eguchi explora com sensibilidade temas de isolamento, comunidade e a procura de significado nas rotinas quotidianas.
A vitória de um mangá da Kodansha nos prémios Shogakukan, tradicionalmente dominados por títulos da própria editora Shogakukan, demonstra o compromisso genuíno do júri em reconhecer excelência independentemente da proveniência editorial.
Hirayasumi

Keigo Shinzō oferece uma lufada de ar fresco com Hirayasumi, serializado na Weekly Big Comic Spirits. O mangá enquadra-se firmemente no género slice-of-life, seguindo personagens através das suas vidas quotidianas sem grandes dramas ou reviravoltas narrativas espetaculares.
O título Hirayasumi pode ser traduzido aproximadamente como “dia de folga tranquilo”, encapsulando perfeitamente o espírito da obra. Shinzō cria narrativas onde o extraordinário reside no ordinário, uma conversa numa esplanada, a preparação de uma refeição, um passeio pelo bairro. São momentos que, na pressa da vida moderna, frequentemente ignoramos.
Este tipo de mangá exige habilidade técnica considerável. Sem confiar em ação intensa ou revelações dramáticas, Shinzō precisa manter o interesse do leitor através de diálogos naturais, observações perspicazes sobre a natureza humana e um desenho que captura a beleza sutil do quotidiano. A vitória nos prémios Shogakukan valida esta abordagem mais subtil à narrativa.
Moto Hagio — Prémio Especial do Júri
Se existe uma figura que personifica a evolução e sofisticação do mangá shōjo, é Moto Hagio. Nascida em 1949, Hagio faz parte do lendário Year 24 Group, um coletivo de mangakás mulheres que revolucionou o mangá para mulheres nos anos 70, elevando-o de histórias românticas simples para obras com profundidade psicológica e temáticas complexas.
The Poe Clan, serializado originalmente entre 1972 e 1976, conta a história de uma raça de vampiros imortais através de séculos de história europeia. A série explora temas de imortalidade, perda, solidão e o significado de conexões humanas quando se vive para sempre. Edgar e Marybelle, irmãos transformados em vampiros ainda crianças, estão condenados a permanecer eternamente à beira da adolescência.
O que torna The Poe Clan revolucionário não é apenas a sua narrativa não-linear ou o seu tratamento maduro de temas pesados, mas a forma como Hagio utiliza personagens masculinas andróginas para explorar desejos e emoções femininas, uma técnica que se tornou fundamental no desenvolvimento do boys’ love como género.
Hagio recebeu inúmeros prémios ao longo da carreira, incluindo a Medalha de Honra com Fita Roxa (sendo a primeira mulher criadora de mangá a recebê-la), o Grande Prémio de Ficção Científica do Japão, o Grande Prémio Cultural Osamu Tezuka e um Inkpot Award. As suas obras foram adaptadas para rádio, drama em CD, televisão e teatro.
Uma tradição de sete décadas
Os prémios Shogakukan de mangá existem desde 1956, reconhecendo obras publicadas no ano anterior. São considerados entre os galardões mais prestigiados da indústria japonesa, lado a lado com os prémios Kodansha Manga e o Manga Taishō.
A decisão de 2023 de eliminar categorias demográficas foi significativa. Durante décadas, os prémios dividiam-se em Melhor Mangá Infantil, Melhor Shōnen, Melhor Shōjo e Melhor Mangá Geral. Esta estrutura refletia (e reforçava) as divisões tradicionais da indústria, onde revistas e séries eram rigidamente segmentadas por idade e género do público-alvo.
A mudança para um formato unificado reconhece que estas fronteiras têm vindo a esbater-se. Leitores adultos consomem shōnen, adolescentes leem seinen, e cada vez mais obras desafiam classificações simples. Ao julgar todas as obras em conjunto, os prémios Shogakukan adaptaram-se a esta nova realidade.
Criadores como Naoki Urasawa e Akimi Yoshida detêm o recorde de três vitórias cada um. A dupla Fujio Fujiko também venceu três vezes, incluindo um prémio especial do júri por Doraemon na 65.ª edição.
Os vencedores do ano passado incluíram Kore Kaite Shine, Burning Kabaddi, Natsume Arata no Kekkon e Puniru is a Kawaii Slime, uma seleção igualmente diversa que demonstra como os prémios abraçam genuinamente diferentes estilos e abordagens narrativas.









