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    Go Nagai entra para o Hall da Fama dos Eisner Awards

    Criador de Mazinger Z, Devilman e Cutie Honey é o nono japonês a receber a distinção e junta-se a outros 18 homenageados

    Go Nagai screenshot

    O criador de mangá Go Nagai, responsável por obras como Mazinger Z, Devilman e Cutie Honey, foi seleccionado para integrar o Hall da Fama dos Eisner Awards em 2026. O anúncio foi feito esta quinta-feira pela organização dos prémios, que escolheu 19 homenageados através do painel de jurados.

    Nagai, nascido em 1945 com o nome Kyoshi Nagai, torna-se o nono criador japonês a receber esta distinção, considerada uma das mais prestigiadas da indústria internacional de banda desenhada. A cerimónia de entrega dos troféus do Hall da Fama decorrerá na manhã de 24 de Julho no San Diego Convention Center, como parte da Comic-Con de San Diego, enquanto a gala principal dos Eisner Awards terá lugar na mesma noite no Hilton Bayfront Hotel.

    O comité que seleccionou os homenageados foi composto por Michael T. Gilbert, Karen Green, Alonso Nuñez, Diana Schutz, Jim Thompson e Maggie Thompson. Para além de Nagai, foram escolhidos 18 outros nomes, incluindo oito criadores já falecidos: Edwina Dumm, Oliver Harrington, Don Heck, Abe Kanegson, Paul S. Newman, Hector German Osterheld, Tom Palmer Sr. e Jimmy Swinnerton.

    Os restantes 10 homenageados vivos são Bob Bolling, Gerry Conway, Denys Cowan, Mike Friedrich, Lee Marrs, Bud Plant, Mike Royer, Dave Sim, Carol Tyler e Rick Veitch. A organização anunciou ainda que revelará na próxima semana 16 nomeados adicionais para o Hall da Fama de 2026, dos quais os profissionais da indústria de banda desenhada elegerão quatro vencedores através de votação.

    “Poucos géneros que não tenha influenciado ou criado”

    Na justificação para a escolha de Nagai, os Eisner Awards destacaram o impacto transformador do autor na cultura popular global. “Dos muitos géneros de mangá populares hoje nos Estados Unidos, há poucos que Go Nagai (Kyoshi Nagai) não tenha influenciado ou directamente criado”, afirmou a organização.

    “Com Mazinger Z, ele criou os primeiros robôs mecha – um género centrado em robôs gigantes pilotados – popular agora mais do que nunca. Com Cutie Honey, ajudou a ser pioneiro no género ‘magical girl’. As visões pós-apocalípticas, a violência obscura e a profundidade psicológica presentes em obras como Violence Jack e Devilman foram enormemente influentes, não apenas no seu Japão natal, mas também em todo o mundo. Muito do seu trabalho continua a ser adaptado através de outros meios até hoje”.

    Nagai estreou-se como artista de mangá em 1967 com Meakashi Polikichi, depois de ter trabalhado como assistente de Shotaro Ishinomori, criador de Cyborg 009 e Kamen Rider. Ao longo da carreira, produziu obras que definiram géneros inteiros e influenciaram gerações de criadores. Para além de Mazinger Z, Devilman e Cutie Honey, o seu currículo inclui Getter Robo (co-criado com Ken Ishikawa) e Harenchi Gakuen, este último uma sátira escolar que gerou controvérsia no Japão pela sua abordagem provocadora.

    Mazinger Z, lançado em 1972, revolucionou o conceito de super robô ao introduzir pela primeira vez um piloto humano dentro da máquina gigante, em contraste com os robôs controlados remotamente que dominavam o género até então. Esta inovação tornou-se o padrão para incontáveis franquias posteriores, desde Gundam a Evangelion.

    Devilman, também de 1972, explorou temas de horror psicológico, transformação demoníaca e crítica social num tom radicalmente diferente do mangá shonen da época. A sua influência estende-se a criadores como Kentaro Miura (Berserk) e ao próprio Hideaki Anno, diretor de Neon Genesis Evangelion. A obra teve múltiplas adaptações, incluindo o recente anime Devilman Crybaby da Netflix, realizado por Masaaki Yuasa em 2018.

    Cutie Honey, lançado originalmente em 1973, foi um dos primeiros títulos do género magical girl a incorporar elementos de acção e transformação que se tornariam centrais ao género. A personagem principal, uma androide que pode transformar-se em diferentes formas, abriu caminho para séries posteriores como Sailor Moon.

    Nos últimos anos, Nagai tem continuado activo na indústria, criando novos spin-offs das suas obras clássicas, como o mangá Devilman Saga, ainda em serialização. Também publicou o mangá autobiográfico Gekiman!, que documenta o processo de criação dos seus vários títulos notáveis ao longo das décadas.

    Ordem do Sol Nascente meses antes da distinção americana

    Em Novembro de 2025, poucos meses antes do anúncio do Hall da Fama dos Eisner Awards, o governo japonês condecorou Nagai com a Ordem do Sol Nascente, Raios Dourados com Roseta, pelas suas contribuições significativas ao país. A distinção foi anunciada pelo Ministério dos Assuntos Internos e Comunicações como parte da Conferência de Outono de Condecorações, que homenageou 3.963 pessoas.

    Na ocasião, Nagai declarou que era uma grande honra ser reconhecido pela vocação que perseguiu durante quase seis décadas desde a infância, observando que as adaptações de anime das suas obras têm sido populares não apenas no Japão mas também no estrangeiro, tendo visitado mais de 20 países como resultado.

    Curiosamente, Nagai recebeu a Ordem do Sol Nascente no mesmo dia que Yuji Horii, criador da franquia de jogos Dragon Quest. Horii revelou nas redes sociais que, há mais de 50 anos, quando era estudante do último ano do ensino secundário e aspirante a mangaká, visitou Nagai na esperança de se tornar seu assistente. Apesar de não ter conseguido o posto, Nagai recebeu-o com gentileza e até lhe deu um autógrafo.

    Japão condecora criadores de Devilman e Dragon Quest com uma das suas mais altas distinções

    Oitavo japonês num clube exclusivo

    A lista de criadores japoneses previamente induzidos no Hall dos Eisner Awards é composta por nomes que marcaram a história do mangá. Osamu Tezuka, frequentemente chamado de “deus do mangá” e criador de Astro Boy, foi o primeiro em 2002. Seguiram-se Kazuo Koike (2004), argumentista de Lone Wolf and Cub, e Goseki Kojima (2004), desenhador da mesma obra.

    Katsuhiro Otomo, criador de Akira, entrou em 2012, seguido por Rumiko Takahashi (Ranma ½, Inuyasha) em 2018. Moto Hagio, uma das figuras mais importantes do mangá shojo, foi homenageada em 2022. Keiji Nakazawa, autor de Barefoot Gen sobre a bomba atómica de Hiroshima, foi induzido em 2024, tendo sido previamente nomeado em 2020 e 2023.

    O criador de mangá de horror Junji Ito foi induzido no ano passado durante a San Diego Comic-Con 2025, tornando-se o oitavo japonês a receber a honra. Ito, conhecido por obras como Uzumaki, Tomie e Gyo, foi o primeiro criador internacional a vencer o prémio Eisner de Melhor Escritor/Artista em 2022 pela sua obra Remina.

    É de notar que Akira Toriyama, criador de Dragon Ball, e Naoki Urasawa, autor de Monster e 20th Century Boys, foram nomeados em 2019 mas não ficaram entre os quatro seleccionados naquele ano. A ausência de Toriyama, em particular, tem sido tema de discussão entre fãs de mangá, dado o impacto global de Dragon Ball na cultura pop.

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    Um legado que transcende gerações

    Nagai junta-se agora a este grupo selecto de criadores cujo trabalho transcendeu fronteiras culturais e geracionais. A sua carreira de quase seis décadas produziu um legado que continua a influenciar não apenas o mangá e o anime, mas também videojogos, cinema e televisão em todo o mundo.

    O impacto de Nagai estende-se para além das obras individuais. O conceito do “super robot” que criou tornou-se num dos pilares da cultura pop japonesa, gerando franquias multimilionárias e influenciando dezenas de séries subsequentes. O género magical girl que ajudou a definir com Cutie Honey continua a ser um dos mais populares no anime e mangá, com séries como Madoka Magica a construírem sobre as fundações que estabeleceu.

    As suas obras mais sombrias, particularmente Devilman e Violence Jack, abriram caminho para explorar temas adultos no mangá shonen, desafiando as convenções do que o género poderia abordar. Esta ousadia narrativa inspirou gerações posteriores de criadores a experimentar com tons mais maduros e complexos nas suas histórias.

    A cerimónia de Julho em San Diego marcará o reconhecimento formal de um dos criadores mais prolíficos e influentes da história do mangá, cujo trabalho continua a ser descoberto por novas gerações de leitores em todo o mundo.

    Helder Archer
    Helder Archer
    Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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