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Mangá bate recordes no Japão mas está a perder leitores jovens

Um investigador da indústria editorial japonesa alerta para um paradoxo preocupante, as vendas batem recordes, mas as crianças e adolescentes estão a abandonar o mangá

Os números do mercado de mangá no Japão pintam um quadro de saúde invejável. Em 2024, as vendas totais superaram os 700 mil milhões de ienes (cerca de 4,4 mil milhões de dólares) pela primeira vez, num sétimo ano consecutivo de crescimento, segundo o Research Institute for Publications. Só o formato digital já representa 72,7% desse total. Vista assim, a indústria parece estar em ótima forma.

Mas Ichishi Iida discorda desta leitura. Escritor, jornalista especializado em imprensa e investigador da indústria editorial japonesa, Iida publicou recentemente uma coluna na President Online onde compila vários estudos e inquéritos para defender uma tese incómoda, o mangá está a perder os leitores mais jovens, e o crescimento das vendas esconde essa realidade em vez de a corrigir.

Para perceber o problema que Iida identifica, é preciso recuar algumas décadas. As revistas de mangá, antologias semanais ou mensais que agrupam várias séries em simultâneo, das quais a Weekly Shonen Jump é provavelmente o exemplo mais conhecido, foram durante muito tempo o principal ponto de entrada para leitores jovens no universo do mangá. Era nas revistas que se descobriam novas histórias, se acompanhavam capítulos semana a semana e se criava o hábito de leitura regular.

Segundo Iida, até 2004 o mercado das revistas era substancialmente maior do que o dos volumes independentes (os chamados tankōbon). O pico foi algures nos anos oitenta, de acordo com dados da Japan School Library Association, na altura os alunos do ensino básico e secundário chegavam a ler cerca de dez revistas por mês. Em 2025, esse número caiu para uma. E a proporção de jovens que não lê revistas de todo atingiu os 77,7%.

O investigador reconhece que existem poucos estudos longitudinais suficientemente abrangentes para traçar a evolução da leitura de volumes de mangá ao longo do tempo, o que torna difícil generalizar com rigor. Mas no que diz respeito às revistas, os dados das escolas são consistentes e apontam sempre na mesma direção, menos leitores jovens, ano após ano.

Um exemplo concreto, a Shonen Jump, que mantinha uma presença forte entre alunos do secundário em décadas anteriores, viu a sua leitura entre esse grupo cair para cerca de um décimo do que era, de acordo com dados recolhidos numa escola não identificada. A Corocoro Comics, dirigida a rapazes mais novos do ensino primário, manteve um número de leitores razoável entre 1996 e 2019, mas é uma exceção num panorama mais preocupante.

O digital não está a substituir o papel

A primeira explicação que vem à cabeça é simples, os jovens migraram para o digital. Mas Iida argumenta que essa transição não está a acontecer com a profundidade necessária para compensar o abandono do formato físico.

Usando dados de vários inquéritos, incluindo os da Japan School Library Association de 1985 e 1995 e os do Benesse Educational Research & Development Institute e da Universidade de Tóquio de 2023, Iida conclui que a leitura de mangá entre crianças e adolescentes está a cair tanto em papel como em digital. Em 2023, as taxas de leitura física de mangá eram de 68% para alunos do 4.º ao 6.º ano do ensino básico, 60% para os do ensino secundário inferior e 49% para os do secundário superior. Em 1985, esses valores eram de 88%, 85% e 77%, respetivamente, uma queda de quase 20 pontos percentuais em todas as faixas etárias ao longo de quatro décadas.

Mais surpreendente, o mangá em papel continua a ser mais lido do que o digital entre os jovens japoneses. Em 2023, a taxa de leitura digital era de 15% entre os mais novos do ensino básico, 35% no secundário inferior e 49% no secundário superior. O digital não está a causar a queda, mas também não está a travar.

O problema dos preços e da oferta

Por que razão o digital não está a atrair os leitores mais jovens com a mesma força que, por exemplo, os webtoons coreanos atraíram a sua geração? Iida aponta para um fator estrutural que muitas vezes passa despercebido nas análises de mercado, o digital japonês foi construído para adultos.

O crescimento da leitura digital de mangá no Japão foi impulsionado principalmente por transações frequentes e dispendiosas dentro das aplicações e por planos de subscrição pensados para quem tem rendimento próprio. As crianças e os adolescentes mais novos não têm esse poder de compra. E como o mercado não os vê como clientes prioritários, há poucos títulos e plataformas que lhes sejam especificamente dirigidos.

Iida compara esta realidade com a da Coreia do Sul, onde os webtoons, tiras de comics em formato vertical, pensadas para smartphones, conquistaram uma fatia muito maior de leitores jovens, em parte porque o modelo de acesso gratuito com monetização por capítulo premium foi desenhado com esse público em mente desde cedo.

A Corocoro Comics lançou a sua própria aplicação de leitura de mangá em 2022, o que pode ser visto como uma tentativa de colmatar essa lacuna. Mas Iida deixa no ar a dúvida sobre se uma iniciativa isolada é suficiente para inverter uma tendência com décadas. Nas suas próprias palavras “será difícil atrair crianças e adolescentes a ler mangá tanto como costumavam, mesmo em formato digital”.

Um mercado que cresce sem jovens

O paradoxo que Iida expõe é o seguinte, as receitas do mercado continuam a crescer porque os adultos estão a gastar cada vez mais em mangá digital, e o mercado internacional está em franca expansão, com a América do Norte a registar taxas de crescimento anuais superiores a 15%, segundo dados de análise de mercado. Mas esse crescimento não depende, nem reflete, o comportamento dos leitores mais jovens no Japão.

Se a tendência se mantiver, a questão que a análise de Iida coloca implicitamente é uma só, quem vai ser o leitor de mangá daqui a vinte anos?

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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