
Durante sete anos consecutivos, o mercado de mangá no Japão cresceu sem parar. A pandemia foi, paradoxalmente, um dos maiores catalisadores, em 2020, o sector disparou 23%, passando de 498 mil milhões de ienes para 612,6 mil milhões. Em 2024, bateu o recorde histórico de 704,3 mil milhões de ienes. Em 2025, o crescimento parou.
Segundo o relatório anual da Research Institute for Publications, organismo da All Japan Magazine and Book Publishers and Editors Association (AJPEA), divulgado na semana passada, o mercado de mangá no Japão contraiu 1,7% em 2025, para 692,5 mil milhões de ienes (cerca de 4,4 mil milhões de dólares).
O papel a cair, o digital a travar
O mercado de impressão está em colapso progressivo. Os volumes compilados em papel recuaram 14,4% face a 2024, para 126 mil milhões de ienes (cerca de 801 milhões de dólares). As revistas de mangá, que durante décadas serviram de motor de serialização, caíram 12,7%, para 39,2 mil milhões de ienes. Em conjunto, o mercado impresso soma agora 165,2 mil milhões de ienes, contra os 192,1 mil milhões do ano anterior. Para ter noção da escala da queda, em 2017, o mercado impresso de mangá valia 258,3 mil milhões de ienes. Em menos de uma década, perdeu quase 40% do seu valor.
O digital tem sido o travão desta queda, mas começou a mostrar sinais de fadiga. Em 2025, o mercado digital cresceu 2,9%, para 527,3 mil milhões de ienes (cerca de 3,35 mil milhões de dólares), representando agora 76,1% do total do mercado de mangá. O problema é que esse crescimento desacelerou significativamente ao longo do ano, nos primeiros seis meses de 2025, o digital cresceu 4,6%; na segunda metade, cresceu apenas 1,5%. É a terceira queda consecutiva no ritmo de crescimento digital, e começa a sugerir que o digital está a aproximar-se da maturação no mercado japonês.
Há, no entanto, um paradoxo, em 2025, as editoras japonesas lançaram mais de 16000 novos volumes de mangá, um crescimento de 6,5% face ao ano anterior e o maior aumento desde 2008. A Kadokawa ilustra bem esta contradição, lançou 13% mais títulos, mas as suas vendas totais caíram 10%. Nas palavras da própria empresa, “a escala de vendas por título encolheu”.
É uma armadilha clássica de sobreoferta, ao saturar o mercado com novos títulos, as editoras diluem a atenção dos leitores e reduzem as receitas médias por publicação, ao mesmo tempo que os custos de produção sobem. A resposta da indústria tem sido diversificar para adaptações anime e expandir para os mercados internacionais, onde, curiosamente, o mangá continua a crescer. Nos Estados Unidos, as vendas de mangá cresceram 4,6% em receita e 8,1% em unidades em 2025.
A quebra do mercado de mangá não é isolada. A AJPEA tinha divulgado em fevereiro o relatório global da indústria editorial japonesa para 2025, e os números são igualmente reveladores, o mercado editorial no seu conjunto contraiu 1,6%, para 1,63 biliões de ienes (cerca de 9,82 mil milhões de dólares). O mercado digital subiu 2,7%, mas o mercado em papel recuou 4,1%, para 964,7 mil milhões de ienes, a primeira vez em 50 anos, desde 1976, que fica abaixo de 1 bilião de ienes. As publicações digitais representam agora 37,6% do mercado editorial total.
Os supermercados e lojas de conveniência continuam a reduzir o espaço dedicado a revistas e periódicos, acelerando ainda mais o declínio das revistas de mangá, que durante décadas foram o principal ponto de contacto entre os leitores e as novas séries em serialização.








