
A editora japonesa Chikuma Shobo confirmou na passada sexta-feira que Yoshiharu Tsuge morreu a 3 de março de 2026, vítima de pneumonia de aspiração. Tinha 88 anos.
O nome de Tsuge pode não ser imediatamente reconhecível fora dos círculos do mangá de autor, mas a sua influência atravessa décadas e continentes. Nascido em Tóquio em 1937, estreou-se como autor de mangá em 1954, numa época em que o Japão ainda se recompunha das consequências da Segunda Guerra Mundial. Foi precisamente esse contexto de escassez e reconstrução que moldou o olhar singular que viria a marcar toda a sua obra.
O gekiga e a ruptura com o mangá de entretenimento
Tsuge foi um dos grandes pioneiros do gekiga, literalmente “imagens dramáticas”, um movimento que surgiu no final dos anos 50 como alternativa ao mangá convencional, apostando no realismo e dirigindo-se a um público adulto. O termo foi cunhado por Yoshihiro Tatsumi em 1957, e Tsuge foi um dos seus expoentes mais radicais. Antes de se afirmar neste registo, passou brevemente pela condição de assistente de Shigeru Mizuki, nos anos 60, experiência que deixou marcas visíveis na forma detalhada como passou a trabalhar os cenários.
O ponto de viragem na sua carreira chegou em 1968, com a publicação de Nejishiki na revista de vanguarda Garo. A história, baseada num sonho do próprio autor, acompanha um homem que vagueia por um Japão desolado do pós-guerra em busca de um médico para tratar um ferimento. A narrativa surreal e fragmentada, que mistura o quotidiano com o perturbador, tornou-se imediatamente um marco. Décadas depois, continua a ser estudada como uma das obras mais importantes da história do mangá.
Para além do gekiga, Tsuge é também considerado o criador do chamado método do “romance do eu” aplicado ao mangá, uma abordagem introspetiva e autobiográfica que influenciou gerações de autores japoneses e, mais tarde, o próprio movimento da banda desenhada alternativa ocidental.
Após 1987, Tsuge deixou de publicar obras novas. O silêncio durou quase quatro décadas, mas não apagou a sua relevância. Em 2005, foi nomeado para o Prémio de Melhor Álbum no Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême, o mais prestigiado da Europa nesta área. Em 2017, ganhou o Grande Prémio da Associação Japonesa de Cartoonistas por Yume to Tabi no Sekai, e voltou a ser nomeado em Angoulême em 2019. Em 2020, o mesmo festival dedicou-lhe uma exposição especial que lhe valeu uma ovação de pé do público presente.
O legado de Tsuge não ficou confinado ao papel. Teruo Ishii realizou em 1998 uma adaptação em live-action de Nejishiki, distribuída na América do Norte pela Panik House sob o título Screwed. Mais recentemente, o conto Ame no Naka no Yokujō serviu de base a um filme homónimo estreado em novembro de 2024.
O exemplo mais recente do impacto duradouro da sua obra chegou em 2025, o realizador Sho Miyake adaptou dois contos de Tsuge, Umibe no Jokei e Hanyara-Dō no Ben-san, no filme Tabi to Hibi (Two Seasons, Two Strangers), que conquistou o Leopardo de Ouro no Festival de Locarno, um dos prémios mais importantes do cinema de autor a nível mundial. O filme estreou no Japão a 7 de novembro de 2025.
Aqui no OtakuPT apresentamos as nossas mais sinceras condolências à família e amigos de Yoshiharu Tsuge.








