
Uma controvérsia sem precedentes abala o mundo das light novels japonesas. A AlphaPolis, uma das maiores editoras do sector, anunciou o cancelamento da publicação física e da adaptação para mangá da obra vencedora do seu 18.º Prémio de Novela de Fantasia. O motivo? A descoberta de que a história foi predominantemente criada com recurso a inteligência artificial generativa.
Jimi Skill ‘Okatazuke’ wa Saikyou desu! ~ Shachiku OL, Miwaku no Kishi-dan-chō to Kōtei Heika ni Aisarete Isekai Kakumei Hajimemashita (título não oficial em português: A Modesta Habilidade de Arrumar é a Mais Forte! ~ Funcionária Corporativa Escrava Inicia Acidentalmente uma Revolução Isekai e É Agora Adorada pelo Chefe dos Cavaleiros e Sua Majestade o Imperador) conquistou tanto o Grande Prémio como o Prémio dos Leitores. Parecia o início perfeito de uma carreira literária. Até que não era.
A vitória que durou pouco
A AlphaPolis confirmou a decisão através de um anúncio oficial, após verificar que a obra violava as diretrizes atualizadas do concurso. As novas regras, implementadas a 18 de novembro de 2025, proíbem explicitamente obras geradas por IA.
O timing é crucial aqui. Quando o concurso foi lançado, estas restrições ainda não existiam. O autor, que publica sob o pseudónimo Tabisuru Shosai, participou numa altura em que o uso de IA não estava formalmente proibido nas regras. Mas a editora decidiu aplicar as novas diretrizes retroativamente.
Apesar do cancelamento da publicação e adaptação, a obra mantém oficialmente o estatuto de vencedora do concurso. Continua disponível para leitura na plataforma online da AlphaPolis, embora nunca vá chegar às prateleiras das livrarias ou ganhar vida em formato mangá.
Ao contrário do que se poderia esperar, o autor não parece devastado com a decisão. Numa declaração, Tabisuru Shosai afirmou não ver isto como uma perda, mas sim como uma oportunidade para se tornar “mais livre e mais novo”.
O autor acrescentou que pretende continuar a criar obras interessantes que as pessoas vejam como algo que só pode ser feito “em colaboração” com IA. É uma posição filosófica intrigante num momento em que a indústria se debate com a questão do que constitui autoria genuína.
O que mudou nas regras da AlphaPolis
A atualização das diretrizes em novembro de 2025 não surgiu do nada. A AlphaPolis, como muitas plataformas de publicação online, tem enfrentado um aumento acentuado de conteúdo gerado por IA nos últimos meses. O problema tornou-se suficientemente sério para forçar uma resposta corporativa clara.
As novas regras excluem especificamente obras em que a IA é a principal ferramenta de criação. A motivação por trás desta decisão é dupla, proteger a propriedade intelectual humana e evitar potenciais problemas legais relacionados com direitos de autor que poderiam surgir da comercialização de obras predominantemente geradas por IA.
Curiosamente, a AlphaPolis não baniu completamente a IA. Em setembro de 2024, a empresa lançou um programa chamado Novel AI Proofreading, que verifica erros tipográficos e uso incorreto de expressões idiomáticas nas submissões. Isto sugere que a posição da editora não é anti-IA em absoluto, mas sim focada em distinguir entre usar IA como assistente versus usá-la como substituto do trabalho criativo humano.
Uma história isekai com twist corporativo
Mesmo no meio da controvérsia, vale a pena considerar o conteúdo da obra em si. O título absurdamente longo já entrega o conceito, uma funcionária corporativa sobrecarregada de trabalho é transportada para um mundo de fantasia onde a sua habilidade mundana de organização se torna surpreendentemente poderosa.
É o género isekai na sua essência, trabalhadores japoneses exaustos que escapam para mundos fantásticos onde as suas competências aparentemente inúteis se tornam super-poderes. Neste caso, a protagonista usa as suas habilidades de gestão e organização para iniciar reformas num reino medieval, conquistando no processo a adoração tanto do chefe dos cavaleiros como do próprio imperador.
O conceito não é particularmente original dentro do saturado género isekai, mas claramente ressoou com os leitores. Ganhar o Prémio dos Leitores não é tarefa fácil, significa que pessoas reais leram e votaram na história, preferindo-a a todas as outras candidatas.
Aqui chegamos ao coração da controvérsia. Se a história era suficientemente boa para ganhar tanto o júri profissional como o voto popular, será que importa como foi criada?
Esta é a pergunta que divide a comunidade. Alguns argumentam que a qualidade da narrativa deveria ser o único critério relevante. Se os leitores gostaram, se a história os entreteve ou comoveu, então cumpriu o seu propósito enquanto obra de ficção. O método de criação seria secundário.
Outros insistem que há algo fundamentalmente diferente entre uma história criada por um ser humano e texto gerado algoritmicamente. Mesmo que o resultado final pareça similar na superfície, o processo criativo, com todas as suas escolhas conscientes e inconscientes, as suas referências culturais, as suas experiências vividas, é irreplicável por uma máquina.
A AlphaPolis claramente caiu deste segundo lado do debate, pelo menos no que toca a publicação comercial. Mas ao manter a obra como vencedora oficial e disponível online, a empresa parece reconhecer que não há uma resposta simples.









