Kenji Mizoguchi disse uma vez sobre Hiroshi Shimizu: “People like me and Ozu get films made by hard work, but Shimizu is a genius”. É uma frase que resume tanto o talento incomum de Shimizu como o paradoxo da sua carreira: apreciado pelos pares, desconhecido do grande público. A partir de 16 de abril, os cinemas portugueses têm nova oportunidade de o descobrir.
A The Stone and the Plot especializada em cinema de autor e cinema clássico asiático, regressa às salas com o ciclo Shimizu Tardio, dedicado à fase final da carreira do realizador japonês. São cinco filmes no total: três inéditos em Portugal e a reposição de dois títulos já exibidos anteriormente. A estreia comercial acontece no dia 16 de abril no Cinema City Alvalade, em Lisboa, onde o ciclo terá quatro sessões diárias até 22 de abril. A partir de 17 de abril, durante três fins de semana, os filmes estarão também nas salas NOS das cidades de Lisboa (Amoreiras) e Porto (Alameda), além de exibições em Coimbra, Sintra, Santarém, Maia, Guimarães, Barcelos e Fundão.
Quem foi Hiroshi Shimizu?

Nascido em 1903 na Prefeitura de Shizuoka, Shimizu dirigiu mais de 160 filmes ao longo de uma carreira que atravessou o cinema mudo e chegou até à era dourada do cinema japonês. Estreou-se na realização em 1924, com apenas 21 anos, depois de se juntar ao estúdio Shochiku em Tóquio. Trabalhou lado a lado com Yasujirō Ozu, os dois nasceram no mesmo ano, e foi admirado por Mizoguchi, que não poupou nos elogios.
A sua obra é habitada por personagens à margem: crianças órfãs, mulheres trabalhadoras, viajantes, deficientes, migrantes. Shimizu retratar os seus protagonistas com leveza e humanidade, evitando o melodrama fácil mesmo quando os temas são pesados. Apesar disso, a dificuldade de aceder aos seus filmes fora do Japão contribuiu durante décadas para o seu apagamento nos circuitos internacionais, em claro contraste com o reconhecimento que merece.
Nos últimos anos, esse panorama tem vindo a mudar. Em 2024, o Museum of the Moving Image de Nova Iorque e a Japan Society apresentaram a maior retrospetiva de Shimizu alguma vez organizada na América do Norte, com 27 filmes em duas partes. Em Portugal, a The Stone and the Plot tem sido pioneira nessa redescoberta.
O que traz o ciclo?
Os três filmes inéditos que chegam a Portugal pertencem todos à fase final da carreira do realizador, rodados entre 1956 e 1957 para o estúdio Daiei.

O Idiota Sentimental (1956) parte de uma premissa que poderia facilmente cair numa fábula moralista sobre a sedução e a ingenuidade masculina. Yuri é uma cantora de cabaré que atrai um vendedor de motas, Yoshio, até à ruína financeira e à prisão. Mas Shimizu desvia-se do caminho óbvio, o filme transforma-se numa reflexão sobre o altruísmo e a redenção, com Yuri a tentar reparar os danos causados por Yoshio, não por amor a ele, mas pelo simples desejo de fazer o bem.

Crianças à Procura de Mãe (1956) leva de volta ao tema que mais marcou Shimizu ao longo da vida, a orfandade e os laços familiares. Aki Yamamoto chega a um orfanato em Nagano à procura do filho desaparecido. Não o encontra, mas fica. A câmara de Shimizu acompanha com delicadeza o quotidiano das crianças que habitam esse espaço e as ausências que carregam.

A Dançarina (1957), baseado num romance do escritor boémio Kafū Nagai, é talvez o mais cinematograficamente exuberante dos três. Quando Chiyomi chega de Kanazawa para ficar com a irmã Hanae em Tóquio, a vida da família muda. Shimizu filma as ruas e becos de Asakusa com longos travellings laterais, e Machiko Kyō, atriz que marcou o cinema japonês dos anos 50, entrega um retrato de energia e caos que é difícil de esquecer.
Os outros dois filmes do ciclo são reposições: O Som do Nevoeiro (1956), primeiro filme de Shimizu distribuído em Portugal, estreado em 2023, e Imagem de uma Mãe (1959), último filme da carreira do realizador. O Som do Nevoeiro, estruturado em quatro capítulos separados por anos, é uma história de amor não consumado nos Alpes japoneses que a Japan Society de Nova Iorque descreveu como um “triunfo por descobrir” do cinema tardio de Shimizu.

Quatro edições de um projeto de fundo
Este ciclo é o quinto capítulo de um projeto mais amplo da The Stone and the Plot. Após quatro edições do ciclo Mestres Japoneses Desconhecidos e a Integral Kinuyo Tanaka, dedicada à primeira mulher realizadora do Japão do pós-guerra, com quem Shimizu viveu entre 1927 e 1929, a distribuidora portuguesa consolida o seu papel como uma das poucas a trazer sistematicamente cinema japonês clássico para as salas nacionais.
Shimizu Tardio é, em particular, uma aposta na continuidade, quem viu O Som do Nevoeiro ou Imagem de uma Mãe nas edições anteriores tem agora a possibilidade de completar o retrato desta fase final; quem não os viu pode descobri-los pela primeira vez no contexto do ciclo completo.
Shimizu Tardio estreia comercial a 16 de abril no Cinema City Alvalade, Lisboa. Exibições até 22 de abril no Alvalade (quatro sessões diárias), e a partir de 17 de abril nas salas NOS de Lisboa (Amoreiras) e Porto (Alameda), e noutras salas em Coimbra, Sintra, Santarém, Maia, Guimarães, Barcelos e Fundão.









