O género de fantasia e RPG sempre ocupou um lugar especial nas minhas preferências. É um território onde a imaginação, o mistério e o sentido de descoberta se cruzam de forma natural e onde um bom mundo fictício pode valer tanto quanto a própria jogabilidade. Nesse campo, a Obsidian Entertainment tem um historial difícil de ignorar. Desde o seu aparecimento, como ficou bem evidente em títulos como Pillars of Eternity e Fallout: New Vegas, o estúdio demonstra uma capacidade consistente para criar universos autênticos e personagens cativantes, sustentados por uma escrita que privilegia a complexidade moral em detrimento de soluções simplistas.
Por isso mesmo, a minha curiosidade rapidamente deu lugar ao entusiasmo quando foi anunciada a chegada de Avowed à PlayStation 5, tornando-o finalmente acessível a jogadores como eu, que não tiveram oportunidade de o experimentar enquanto exclusivo da Xbox e PC.

Avowed leva-nos até ao mundo de Eora, o mesmo universo onde decorre Pillars of Eternity, uma série que representa uma das melhores experiências de RPG dos últimos anos. Ainda assim, quem nunca teve contacto com os jogos anteriores não tem motivos para preocupação. Avowed apresenta-se como um spin-off, com uma narrativa independente, situada numa nova região deste mundo.
O jogo coloca-nos na pele de um enviado do Império de Aedyr, encarregado de viajar até às Terras Vivas para investigar uma estranha praga que aflige os habitantes da região, um território que o Império, de forma pouco subtil, ambiciona também anexar e controlar em todos os seus aspetos. Trata-se de uma premissa que estabelece desde cedo um conflito político e social claro, ainda que o jogo não se detenha muito a explorar as suas implicações nas primeiras horas.
Para quem não se identifica com a perspetiva na primeira pessoa, Avowed permite alternar para a terceira pessoa diretamente no menu, oferecendo maior flexibilidade na forma de jogar.
Apesar de recorrer, em parte, a algum humor cliché devido a uma escrita com traços “millennial”, a narrativa acaba por se afirmar como um dos pontos mais apelativos de Avowed. A história é competente a manter o nosso interesse, apresentando dilemas que nos incentivam a refletir e a tomar decisões com consequências palpáveis ao longo da jornada.
Muitas das escolhas que temos de fazer colocam-nos frequentemente em situações moralmente ambíguas, onde a distinção entre o certo e o errado é deliberadamente difusa. Há momentos particularmente pesados, daqueles em que cada pessoa poderá reagir de forma diferente e é precisamente aí que a escrita ganha força. Para reforçar esta sensação de mundo vivo, Avowed permite ainda que missões secundárias e descobertas opcionais influenciem a narrativa principal.
O lore do jogo é particularmente vasto, sendo desenvolvido não só através dos diálogos, com destaque para palavras-chave, como também por documentos espalhados pelos cenários. Posso dizer que fiquei bastante satisfeito com a construção narrativa. A história do enviado de Aedyr e as personagens que o acompanham conseguem envolver e convencer, cumprindo plenamente as expectativas associadas ao nome Obsidian.

Explorar o seu mundo à procura de segredos e tesouros é constantemente recompensador, ao ponto de tornar a procura por loot numa atividade genuinamente divertida. A sensação de descobrir algo, seja uma gruta escondida atrás de uma cascata, um salto que pode pôr a nossa vida em risco ou um desvio aparentemente irrelevante, acaba por ser sempre gratificante.
Durante estes momentos, Avowed recompensa a nossa curiosidade com equipamentos únicos que podem alterar de forma significativa o nosso estilo de jogo. O sistema de encantamentos, vindo de Pillars of Eternity, regressa e permite melhorar armas e adaptá-las ao nosso estilo de combate, embora tenha sentido falta desta profundidade nos restantes equipamentos. Ainda assim, encontrar uma arma ou um item distinto é motivo suficiente para continuar a vasculhar o mundo em busca dos seus segredos.
O mais interessante é que as missões secundárias funcionam como um excelente pretexto para aprofundar o conhecimento deste mundo. A maioria incentiva à descoberta e consegue surpreender. Ainda assim, não deixamos de ter algumas tarefas mais genéricas, como a habitual entrega de um item num local específico ou outras atividades menos inspiradas.

Neste título, a Obsidian optou por uma abordagem claramente diferente da dos seus RPG tácticos, apostando desta vez num RPG focado maioritariamente na ação. A mudança mais evidente sente-se no combate, que é onde a produtora faz um óptimo trabalho. O sistema é fluido, dinâmico e bem executado, oferecendo confrontos divertidos e estimulantes, com um bom equilíbrio entre acessibilidade e profundidade.
Uma das mecânicas que sobressai é a possibilidade de termos dois conjuntos de armas equipados em simultâneo, podendo alternar entre eles instantaneamente, mesmo durante o combate. Isto abre espaço a combinações multifacetadas e criativas: desde grimórios de magia combinados com armas de fogo, espadas com cajados, armas de duas mãos, entre muitas outras possibilidades.
A rapidez com que se combinam armas, magia, habilidades da personagem e as técnicas dos aliados torna os combates energéticos e num dos pontos altos da experiência. Não faltam situações em que damos de caras com um grupo de inimigos, podendo atacar à distância, flanquear com magias enquanto os companheiros seguram a linha da frente, ou avançar para o combate corpo a corpo com espada e escudo.

Um dos aspectos que funciona muito bem é a ausência de um sistema de classes tradicional. Ou seja, não escolhemos uma classe pré-definida no início do jogo; em vez disso, temos acesso a um bom conjunto de habilidades associadas a arquétipos como Fighter, Archer e Mage. O foco está numa abordagem mais livre e flexível, que se adapta ao estilo de jogo de cada jogador.
O que ainda assim poderia ter levado um pouco mais de atenção é a ausência de variedade de inimigos. Apesar de existirem diferentes tipos de criaturas e algumas variações, a verdade é que acabamos por enfrentar repetidamente os mesmos arquétipos ao longo da campanha. Embora este aspeto não comprometa a qualidade da experiência, teria sido interessante aproveitar esta versão para introduzir novas criaturas e enriquecer ainda mais o bestiário.
Avowed é uma viagem que também cativa pela sua vertente artística, ainda que não esteja isenta de problemas pontuais. Os cenários, principalmente os naturais, são expressivos e vibrantes, transmitindo uma sensação constante de vivacidade. As diferentes raças destacam-se pelo seu design bem conseguido, contribuindo para uma identidade visual forte e distinta.
Contudo, nota-se alguma falta de fluidez nas animações das personagens e na sincronização labial durante as conversas, revelando uma certa rigidez que acaba por causar alguma estranheza.
Durante o desenvolvimento, Avowed chegou a ser descrito como um RPG mais próximo de Skyrim, com mundo totalmente aberto. Com o tempo, a Obsidian decidiu apostar numa estrutura segmentada em áreas distintas, semelhante a The Outer Worlds.
O desempenho na versão PlayStation 5 apresenta resultados positivos. Quer no modo Qualidade, quer no modo Desempenho, o jogo corre normalmente de forma estável e consistente. Não presenciei quedas de framerate nem problemas relevantes de nitidez na imagem. Toda a minha experiência foi realizada em modo Qualidade, com o VRR ativado, e posso dizer que é nesta configuração que Avowed mais se sobressai.

A banda sonora afasta-se um pouco do que é normal neste tipo de jogos, apostando sobretudo na criação de atmosfera e ambientação. O resultado funciona bem, acompanhando a exploração e reforçando o ambiente do mundo de Eora. Já o voice acting é igualmente competente, encaixando de forma natural no estilo e na personalidade das personagens que vamos conhecendo ao longo da aventura.
Foram inúmeras horas de conversa, exploração e combate, e em nenhum momento me senti aborrecido. Avowed destaca-se pela sua narrativa cativante e bem construída, com especial destaque para um lore profundo e envolvente, enquanto o combate ganha interesse à medida que dominamos as suas mecânicas e exploramos novas combinações. O mundo das Terras Vivas revela-se igualmente generoso para os jogadores mais curiosos, recompensando constantemente a exploração e a vontade de descobrir o que se esconde para lá do caminho principal.
Ansiava por este novo título da Obsidian Entertainment e da Xbox Game Studios e posso claramente afirmar que as minhas expectativas foram correspondidas.












