Biomutant, é um nome que há algum tempo paira nesta indústria. O mesmo foi anunciado oficialmente a 19 de agosto de 2017 durante a Gamescom. No entanto, o seu desenvolvimento começou dois anos antes, quando ex-funcionários do jogo Just Cause resolveram voltar às origens, e fundar um estúdio de desenvolvimento de videojogos intitulado Experiment 101. Com esta premissa em mente, a recém-fundada empresa sueca resolveu criar uma aventura editada pela THQ Nordic, situada num mundo verdejante apenas povoado por espécies animais antropomórficas. Tudo parecia correr na perfeição, não fossem alguns acidentes de percurso que provocaram múltiplos adiamentos, que até levaram muitos a questionar se alguma vez esta grande aventura veria a luz do dia. Muitos anos após o seu anúncio Biomutant chegou finalmente às nossas mãos, veremos se corresponderá as expetativas e ambições da produção e dos jogadores.

A história de Biomutant transporta-nos até a um mundo fictício pós-apocalíptico, onde a natureza persiste em tandem com os pecados da humanidade. Encarnamos o pelo de um pequeno mamífero, com determinadas características de outros animais. Por exemplo, a nossa personagem pode ter a aparência de um gato, mas o seu braço esquerdo ter o aspeto e características de um réptil, isto porque este mundo sofre de uma poluição severa, e devido à sua propagação as espécies desenvolveram meios para se adaptar e sobreviver. Esta miscelânea de espécies é um dos pontos mais surpreendentes de Biomutant, e uma das características mais fantásticas que vimos num editor de personagens. Logo após o primeiro premir de botões no menu principal, somos introduzidos a um dos mais simples, complexos e inovadores sistemas de criação de personagens. Em primeiro lugar, temos ao nosso dispor a escolha de diversas espécies, cada uma com as suas características próprias. A raça Primal, é focada em armas de fogo, e movimentos rápidos; Dunpon em força física; Rex um equilíbrio entre todas as habilidades; Hyla resistência a elementos; Fip mestre em magia; e finalmente Murgel onde coloca a aparência física em primeiro lugar sem se preocupar com outras características. Claro que estes templates são imagens primárias do estilo de jogo de cada um de nós, a verdadeira surpresa na criação de personagens chegou logo após a confirmação, na nossa espécie, que neste caso foi Primal. Muitos editores de criação de personagens são abusivamente extensos e complexos. Em Biomutant, o que demora horas, é ultrapassado numa questão de segundos e de uma forma inovadora.

Ao nosso dispor temos um círculo onde podemos deambular com o manípulo analógico para qualquer uma das características da nossa personagem. A grande surpresa foi verificar que ao viajarmos para cada característica, a aparência, estatísticas e até raça da mesma mudava. Se, por exemplo, colocarmos o nosso indicador na força, o nosso mamífero será um ser corpulento dotado de uma enormíssima massa muscular, mas muito lento. O inverso acontece se colocarmos o cursor na agilidade, e por artes de magia a nossa massa muscular esfuma-se para dar lugar a movimentos ágeis. É possível colocar o cursor em pontos intermédios e ao fazermos isso a nossa personagem adotará formas de coelho, esquilo, rato ou gato, por exemplo. Na redação enveredamos por criar um gato branco com uma tatuagem vermelha semelhante à que Kratos -a personagem de God of War– tem na cara. Depois da criação do nosso “Cat of War”, ainda restam mais duas escolhas que correspondem à classe principal, e resistências naturais da nossa personagem, que determinarão o método de combate e abordagens iniciais neste mundo. Nesta escolha somos abordados com cinco escolhas. O Pistoleiro, será uma espécie de Dante felpudo que usará uma espada semelhante à Buster Sword de Cloud Strife de Final Fantasy VII, e armas de fogo. O soldado, será uma categoria especializada em armas de fogo; Psicodóido usará mágicas ao invés de armas; Sabotador usará duas adagas; por último o Sentinela será especializado em armas brancas.

Após esta escolha o jogo pode realmente começar! Outra grande inovação em Biomutant, é a forma em como a história é contada. Esta é relatada na terceira pessoa aos olhos de um narrador. Apenas a consciência da nossa personagem -mais daqui a pouco- tem vozes diferentes, todos os diálogos, mesmo com NPCs, descrições e introspeções de personagens são relatados na terceira pessoa. Este narrador comenta a história de um mundo futuro onde a Árvore da vida, a cada dia que passa seca as suas cinco raízes, devido a uma toxina, e à ameaça crescente dos World Eaters, uma raça que deseja acabar com todas as outras. O jogador depressa também descobre que tem de tomar uma posição neste mundo, e aqui a consciência surge de uma forma personificada. Teremos de decidir se enveredamos pelo caminho do bem ou do mal, logo após a primeira encruzilhada do jogo. Esta também determinará os ataques, ramificações da história e alianças que tomaremos. Isto porque cada região da raiz da árvore, é governada por uma tribo, e consoante a nossa escolha a mesma também ditará o destino do mundo. Pelo caminho e de uma forma muito inteligente, também descobriremos mais acerca deste mundo, e o que levou a tais acontecimentos. Estes acontecimentos serão retratados de diversas formas, através da resolução de quebra-cabeças (bem simples) de dispositivos do velho mundo tais como micro-ondas, máquinas de lavar ou frigoríficos, documentos espalhados nas cidades, e pequenos segmentos onde viajaremos até à juventude da nossa personagem. Nesta última também desbloquearemos mecânicas e técnicas de combate.

Relativamente ao combate, e segundo a produção, este elemento foi o mais problemático de desenvolver, pois, relataram várias vezes que era complicado produzir um sistema divertido, e equilibrado entre armas brancas, artes marciais e armas de fogo. É com muito agradado que vos informamos que todo o tempo que a produção colocou neste parágrafo foi bem empregue, pois estamos na presença de um dos mais intensos, divertidos e gratificantes sistemas de combate num Action Rpg. À boa maneira de jogos stylish action, como Devil May Cry, ou Bayonetta, o combate de Biomutant, rege-se pelos mesmos elementos. Aliás, mecânicas como parries, last second dodges, e projetar os adversários para os ares e enquanto descem cumprimentá-los com numa chuva de balas, ou mantê-los no ar com projéteis enquanto no solo combatemos com armas brancas outras ameaças, são momentos que também encontraremos em Biomutant. A ação é tão intensa que por vezes nos levou a pensar se não estaríamos a jogar um jogo de outro género. Adicionalmente o jogo adquire contornos ainda mais dinâmicos com o uso de “Wung Fu”, uma arte-marcial animal, que explora diversas facetas das espécies, tais como a agilidade de um coelho, os movimentos de um lagarto, ou a persistência de uma formiga, e integra-os na nossa personagem. Em alguns destes movimentos ainda assistimos, ao nome dos ataques, “lobo mau” ou onomatopeias ocidentais com “blam” “click” “thump” atribuindo a ideia de que assistimos a uma história, que se solidifica com pequenos comentários do nosso narrador, a encorajar ou alertar para acontecimentos. Estes elementos fluem com um equilíbrio e uma harmonia sem paralelo, podemos mesmo dizer com todas as certezas que estamos perante um dos melhores sistemas de combate num Action RPG, que evolui constantemente com a aquisição de novas técnicas com os pontos de experiência que recolhemos. Mais à frente na aventura e viajando até ao novo mundo, o jogador ainda pode desenvolver mechas, e veículos para lutar e explorar este tenebroso belo mundo.

Outro elemento extremamente vanguardista em Biomutant, é a sua criação de armas e armaduras. Esta não se restringe a apenas um único elemento, e poderemos criar armaduras, armas brancas ou armas de fogo quase como desejamos. Cada um destes arsenais, possui diversas zonas, por exemplo, cabo, canhão, lâmina, gatilho, etc., e com a aquisição de objetos ou novas partes poderemos não só criar uma arma com partes que encontramos nos mais variados ambientes, como juntar pequenos objetos como chaves de fendas, saca-rolhas ou miras para aumentar os seus atributos e oferecer novos elementos em combate. Este sistema é tal forma gratificante e complexo que passámos longas horas em menus a desenvolver armas e nem demos pelo tempo passar. Os mesmos elementos de criação de armas, também persistem nas nossas armaduras e podemos colocar dedais ou pregos numa camisa para oferecer proteção extra. Com tanta variedade, o único fator negativo é mesmo o amealhamento de pontos para proceder às nossas experiências. De salientar que se os resultados finais não forem os ideais, que não existe retrocedimentos, por isso é extremamente recomendado que salvem o jogo previamente.

Visualmente Biomutant, é um jogo extremamente belo. O vento a pairar nas folhagens, o sol a incidir nas árvores e nos rios, ou florestas densas são ambientes dotados de uma beleza sem paralelo. Por sua vez, as cidades decadentes onde a humanidade outrora prosperou também são conotativas de uma beleza apocalítica. A união destes mundos tão diferentes assentou que nem uma luva no ambiente e mensagens ambientais que o título da 101 Experiment evoca. Esta aventura neste contexto foi muito educativa, pois demonstrou os cuidados e o respeito que devemos ter pela mãe natureza, e o que uma ambição desmedida pode produzir no mundo real. Devido a estas mensagens, ambiente e temáticas, esta aventura num cômputo visual, é muito semelhante a um misto entre Horizon Zero Dawn, e The Last of Us, diríamos mesmo que diversos segmentos deram a impressão que estávamos a jogar qualquer um destes geniais títulos.

Biomutant conta com diversas opções gráficas, tais como os habituais efeitos de sombras, detalhes nas texturas, resoluções, etc. Relativamente ao último elemento -ou seja, a resolução- a nossa aventura protagonizada por animais felpudos conta com uma muito bem-vinda opção para resolução dinâmica. Esta também pode ser barrada para uma resolução máxima para assim evitar a perda de fotogramas em áreas ou momentos de maior intensidade. No nosso equipamento, pudemos desfrutar de Biomutant entre 60 a 120fps -com todas as opções gráficas acionadas e ao máximo- consoante a intensidade visual do jogo, e sem recorrer à resolução dinâmica. Quando o fizemos, o jogo manteve os seus 120fps, mas a qualidade visual desceu um pouco e a resolução também. Relativamente ao som, além das vozes do narrador e da nossa consciência, os únicos registos de som que temos são numa melodia presente em quase todos os ambientes, e pouco mais. Embora esta via minimalista seja compreensível, pensamos que seria uma mais-valia para o jogo se este tivesse mais variedade musical, afinal estamos perante um título dotado de uma qualidade e requinte bem acima do habitual. Por último, mas certamente não menos importante, o jogo tem os seus textos localizados para português do Brasil.

Biomutant, é um jogo dotado de mecânicas, ideias originais e vanguardistas, envolto num pacote de muita qualidade. O jogo faz jus ao seu nome e pega em diversos conceitos usados até à exaustão, e molda-os sem perder a identidade ou requinte. Estamos perante uma majestosa aventura em mundo aberto que infelizmente corre o risco que ser enterrada no meio de produções de elevado orçamento. Contudo, se assim for, é com toda a certeza que dizemos que Biomutant se vai tornar num jogo de culto, pois a sua beleza natural, originalidade, opções de personalização, jogabilidade dinâmica e evolutiva serão apenas alguns dos elementos que cativarão os olhares e tempo dos jogadores mais atentos.

Vindo de vários mundos e projetos, juntou-se à redação do Otakupt em 2020, pronto para informar todos os leitores com a sua experiência nas várias áreas da cultura alternativa. Assistiu de perto ao nascimento dos videojogos em Portugal até à sua atualidade, devora tudo o que seja japonês (menos a gastronomia), mas é também adepto de grandes histórias e personagens sejam essas produzidas em qualquer parte do globo terrestre.