Desde muito cedo que Cris Tales, o projeto da SYCK e da Dreams Uncorporated, editado pela Modus Games despertou atenções. Além de um estilo cartoonesco atual, também revelou que seria assente em alguns dos mais lendários Jrpgs alguma vez produzidos; Chrono Trigger Final Fantasy. Como assistimos várias vezes nesta indústria quando se misturam ou se assentam valores demasiado altos num novo projeto corremos o risco de não estar à altura ou então de permanecer numa linha de demasiado conforto. No Entanto, Cris Tales conseguiu um feito raríssimo, além de muito provavelmente ser um dos jogos de destaque deste ano, também conseguiu criar uma identidade muito sua, através de uma direção artística e originalidade fora do comum.

Cris Tales abre logo com uma batalha! Crisbell a nossa heroína é confrontada por um grupo de goblins num campo de cultivo em chamas. Após a conquista, é abruptamente enviada para o passado, mas neste período encontramos uma Crisbell mais frágil e inocente. Esta versão é órfã e vive num orfanato junto da sua querida Mãe Suprema e as outras crianças. Certo dia enquanto podava um campo de rosas, recebe a visita de um sapo laranja -misteriosamente remendado- com um chapéu na cabeça. A criatura rouba-lhe uma das rosas e Crisbell não perde tempo e segue-o para reaver a mesma. Perante algumas peripécias encontra o sapo, e descobre que a criatura até fala, pois este até lhe indica que o seu nome é Matias. O animal indica-lhe que procura por alguém que consiga libertar os cristais do tempo para realizar uma profecia. Matias estava certo, Crisbell, é mesmo a escolhida para despertar o cristal e emerge como uma maga do tempo. Contudo, não há tempo a perder e Crisbell descobre que um grupo de goblins está a queimar os campos de trigo da quinta a este da cidade de Narim. Este episódio será o ponto de partida para Crisbell, Matias, Cristopher, Willhelm, e um conjunto de outros aventureiros impedirem que a imperatriz do tempo reescreva um futuro sombrio.

A lenda Crisbell conta com algumas sequências animadas que mais parecem oriundas de uma autêntica série animada

Através desta introdução e dos vários vídeos promocionais que o jogo recebeu desde o seu anúncio inicial, certamente que se aperceberam que o fator tempo é o cartão de visita de Cris Tales. Além de ser um poderoso e interessante elemento narrativo, é também uma mecânica fundamental quer na exploração como nas batalhas aleatórias à boa velha maneira dos títulos onde se inspira. Além de Crisbell, todos os seus aliados possuem uma característica temporal que desempenha um papel fulcral nas mesmas. Adicionalmente vários ataques entre diversos membros podem ser enriquecidos para aumentar as suas características. Em combate podemos manipular o tempo para explorar as fraquezas dos nossos adversários. Por exemplo, ao envenenarmos um inimigo, podemos transportálo para o futuro para receber quantidades de veneno em abundância de uma só vez, ou encharcarmos equipamentos e transportar os adversários uns anos mais para frente para assistirmos ao reluzente equipamento inimigo ser transformado em sucata ferrugenta, retirando as suas propriedades de defesa. Contudo, esta também pode ser uma espada de dois gumes, pois certos inimigos são mais poderosos noutros períodos da sua vida, uma criança por vezes é bem mais perigosa que um adulto no mundo de Crystallis, e convém manipular o tempo para obtermos desafios menores, no entanto, inimigos mais perigosos albergam melhores itens e outras recompensas. Neste ponto o jogo é de uma originalidade e uma criatividade sem precedentes, que contribuiu para um sem fim de situações para os jogadores experimentarem e acima de tudo se divirtam. Pois, alguns resultados são do mais peculiar e divertido, ninguém disse que a lógica teria de habitar neste verdadeiro conto de fadas.

Os combates decorrem no presente, mas podemos enviar os nossos adversários para outros períodos consoante a sua                                                                                     disposição no terreno

Outro elemento imprescindível nos confrontos de Crisbell e os seus aliados é o “timing”. Quer no ataque como na defesa, este é uma constante nas batalhas e fundamental para a nossa equipa prosperar e emergir vitoriosa sem grandes incidentes. Os ataques podem ser fortalecidos ou até duplicados se no momento do contacto com o inimigo for pressionado o botão de ataque correspondente. O mesmo acontece na defensiva, pois o dano ou estados alternados podem ser mitigados se for executada a mesma operação. Estas duas mecânicas em total equilíbrio mantêm os jogadores “na batalha”, transformando pacatos combates de turnos num frenético pressionar de botões, rítmico com algum nervosismo à mistura, nos confrontos mais difíceis.

Cris Tales mantém os jogadores envolvidos nos combates ao introduzir técnicas avançadas de ataque e defesa

Estes momentos atingem proporções épicas contra os bosses e elevam o jogo para novas dinâmicas. Não é só Crisbell que pode manipular ou tem consciência de poderes temporais. Alguns bosses também o fazem, e a jovem e o seu bando depressa descobrem o que é estar na pele dos seus inimigos. Como se não fosse bastante cada um atua de maneiras diferentes, as suas formas de ataque são completamente distintas, o que obrigará os jogadores a desenvolverem novas técnicas e estratégias para triunfar. Esta não é a única preocupação que os jogadores terão pela frente, alguns também desenvolvem vias para contra-atacar ou até inutilizar os ataques e manipulações do tempo. Só mesmo com a experiência adquirida quer durante o próprio combate, como em derrotas anteriores que conseguiremos triunfar, acreditem Cris Tales é um jogo bem difícil para o seu género, e a derrota é uma parte integral da experiência de jogo.

O mapa-mundo retira também inspirações da era dourada dos Jrpgs

Além da mecânica “Syncro” (ataques combinados) que retira uma página do lendário Chrono Trigger, os jogadores também podem moldar os espaços temporais enquanto exploram as fantásticas paisagens de Crystallis. Desde cidades movimentadas, a campos decrépitos, podemos assistir ao passado, presente e futuro no ecrã em tempo real e a cada instante. CrisBell, é uma maga do tempo e possui um cristal especial que lhe permite visualizar os 3 três períodos temporais em simultâneo. À medida que viaja pelos cenários podemos assistir a uma criança adulta enquanto nos aproximamos, ou então uma mãe acompanhada de um bebé, quando nos afastamos. O mesmo também acontece nos cenários, por exemplo, uma loja que existia no passado, e que no futuro fechou portas ou foi abandonada. Estes elementos ganham uma maior dimensão ao completarmos missões secundárias. Crisbell pode assumir algumas atividades paralelas para mudar o presente, ao afetar o mundo futuro de uma forma significativa. São nestas ocasiões que o nosso sapo cavalheiro recebe o seu merecido destaque, pois este é o único capaz de interagir com os diferentes períodos, recolher informações ou itens que não existem no presente para que Crisbell os use e complete os objetivos. Muitas estão interligadas até com a história principal, e se as abandonarmos, o fluxo de acontecimentos subsequentes é perdido para sempre. Embora estejam rotuladas como secundárias e moldem ligeiramente a história principal, incentivamos a todos os jogadores a completarem o maior número possível, pois muito do charme e requinte deste título está presente nestas mecânicas, o que certamente condicionará para uma experiência final mais rica do produto.

Cris Tales são literalmente três jogos a serem executados simultaneamente

Outro requinte de Cris Tales está na sua complemente visual. Praticamente estamos na presença de uma série animada interativa com um grafismo muito próximo de produções ocidentais criadas pelo Cartoon Network. Arestas cúbicas, traços finos em alguns membros das personagens, omissão de contornos e animações fluidas e deslumbrantes paisagens criadas em cores sólidas em recortes são alguns elementos de um jogo com uma direção artística que tem tanto de metafórico como de fantástico. Infelizmente não dispomos de quaisquer opções gráficas no jogo, não podemos melhorar ainda mais as suas arestas, limitar fotogramas ou até a sua resolução, o jogo adapta-se às melhores configurações que o nosso sistema dispõe, claro que convém sempre deixar a decisão aos seus utilizadores, confessamos que este foi um efeito estranho, e após o seu lançamento não temos dúvidas que vai receber uma atualização para pelo menos escolhermos a resolução de jogo pretendida. É com muita surpresa que descobrimos que absolutamente todos os diálogos de Cris Tales possuem áudio. Desde comentários introspetivos, relatos com os nossos aliados ou inimigos, até mesmos todos os NPCS são falados por um grupo de grandes talentos. Este é sem dúvida um efeito muito bem-vindo, ainda mais quando estamos na presença de um indie AA na sua mais pura essência. Relativamente ao resto das melodias alternam entre o calmo e harmonioso, a épicos orquestrais. Quanto a textos e áudio nesta versão para teste não temos o acesso a textos em português europeu, no entanto, a página oficial do jogo indica o suporte, dai que assumimos que será um elemento da versão final. Tecnicamente o único elemento negativo são os carregamentos, até mesmo a gravar a partida demora imenso tempo por razões inexplicáveis, quem sabe se este elemento não foi usado para replicar as gravações dos nossos progressos nos Memory Cards da PlayStation original.

Os visuais de cores sólidas e cúbicas são representativos da era atual de animação ocidental

Cris Tales, é uma obra meticulosamente orquestrada assente em valores contemporâneos maravilhosamente resgatados para uma era moderna. A sua receita parte essencialmente de uma originalidade e uma direção artística sem precedentes, uma jogabilidade desafiadora, orgânica e mutável, e um mundo vibrante, intenso e harmonioso, que teve a ousadia de sair de imensas zonas de conforto. Estamos na presença de um jogo que devido a esta filosofia vanguardista, vai certamente fazer corar muitas superproduções nesta indústria. Podem crer que a história de Crisbell será contada no passado, presente e futuro.

Vindo de vários mundos e projetos, juntou-se à redação do Otakupt em 2020, pronto para informar todos os leitores com a sua experiência nas várias áreas da cultura alternativa. Assistiu de perto ao nascimento dos videojogos em Portugal até à sua atualidade, devora tudo o que seja japonês (menos a gastronomia), mas é também adepto de grandes histórias e personagens sejam essas produzidas em qualquer parte do globo terrestre.