Após Dragon Quest III HD-2D Remake e do subsequente lançamento de Dragon Quest I + II HD-2D Remake, ninguém esperava algo diferente de uma reinterpretação 2D HD-2D de outro episódio da série. O relançamento de um JRPG clássico é sempre motivo de celebração para mim, mesmo que, depois dos jogos mencionados e de Octopath Traveler 0, esta vertente visual já revelasse sérios sinais evidentes de saturação. Contudo, surge uma agradável surpresa Dragon Quest VII Reimagined, uma reinterpretação moderna de Dragon Quest VII que devido ao seu aspeto visual renovado e às inúmeras melhorias implementadas proporcionou-me uma experiência muito mais envolvente do que qualquer outro relançamento da série até à data da série.
A narrativa leva-nos até Estard, uma ilha paradisíaca dedicada à pesca. Enquanto os mais velhos vivem confortavelmente o seu quotidiano, os mais novos são movidos pela curiosidade e partem em pequenas aventuras à descoberta do desconhecido. O protagonista, clássico e silencioso, é filho de um pescador. Certo dia, juntamente com Kiefer, príncipe de Estard, descobre uma antiga tábua de pedra que sugere a existência de algo para além da ilha. Apesar de tentarem manter o segredo, acabam por ser descobertos por Maribel, uma adolescente caprichosa e com personalidade reminiscente à Bulma de Dragon Ball, que os força a incluí-la na aventura.

Após várias peripécias, o grupo encontra um templo habitado por uma criatura misteriosa que lhes confia uma missão e os envia para o passado. Ao derrotarem o mal, esses locais ressurgem séculos depois como novas ilhas no presente e confirmam que Estard nunca esteve isolada. Seguem-se múltiplas viagens temporais que acabam por determinar o destino do mundo. Embora, no papel, a premissa possa lembrar Chrono Trigger, a sua execução é bastante diferente.
As enigmáticas tábuas fragmentadas são a chave para viajar até ilhas presas no passado por uma força maligna desconhecida. Ao ajudar os seus habitantes, seja a curar maldições ou a destruir estátuas, libertamos territórios que regressam ao presente. Existem mais de 70 fragmentos espalhados pelo jogo, obtidos tanto através da narrativa como da exploração.

Felizmente, o jogo orienta constantemente o jogador através de marcadores no mapa e pistas fornecidas pelas personagens. Dragon Quest VII Reimagined é composto por inúmeras histórias independentes que, gradualmente, se unem numa narrativa coesa. Estes episódios aprofundam as personagens e introduzem novos companheiros.
Graças ao tom humorístico, ao ritmo reformulado e à variedade de situações, a monotonia raramente se instala. Mesmo com estruturas semelhantes, os diálogos bem localizados e a excelente dobragem mantêm o envolvimento. A qualidade estende-se tanto à versão japonesa como à inglesa, que conta com talentos reconhecidos, como Mamoru Miyano no papel do excêntrico príncipe Kiefer. Mesmo assim, é pena que o protagonista continue praticamente mudo. O que há 25 anos parecia moderno, hoje soa a um fragmento do passado. Numa reimaginação que valoriza tanto as personagens, esta passividade torna-se ainda mais evidente.
Apesar disto, é impossível não criar empatia com o grupo. Cada membro possui características próprias, expressas de forma exemplar através dos diálogos, vozes e animações. Neste aspeto, o jogo supera claramente os remakes HD-2D, e seria desejável que esta abordagem fosse adotada doravante no futuro da série. O jogo mantém uma enorme quantidade de conteúdo. Mesmo com algum material removido, como o casino que foi substituído por um jogo de cartas, continua a ser extremamente longo. Dragon Quest VII sempre foi conhecido pelo seu ritmo lento, uma característica que merece reflexão.
O original foi lançado em 2000 para a PlayStation, numa era em que os JRPG dominavam o mercado com experiências extensas e ricas em conteúdo. Nesse contexto, o ritmo pausado era uma virtude, pois permitia um desenvolvimento profundo dos mundos e das personagens. Cada ilha possui o seu próprio vilão, narrativa e ecossistema e reforça a sensação de um mundo vivo e em constante evolução. Na minha experiência pessoal, reafirmo que este aspeto contribuiu para uma das aventuras mais marcantes do seu género, mesmo que muitos achem polémico.

Outro destaque é a possibilidade de adaptar a experiência ao gosto de cada jogador. À semelhança de Final Fantasy VII Remake Intergrade, existem diversas opções de personalização: dificuldade, velocidade das batalhas, experiência recebida, recuperação automática de HP e dano causado. Estas opções não são obrigatórias, mas revelam-se úteis para reduzir o “grind”. O sistema respeita o tempo do jogador e oferece grande liberdade. Quando estamos muito acima do nível dos inimigos, é possível derrotá-los diretamente no mapa de forma a evitar combates desnecessários, ainda que com quantidades reduzidas de pontos de experiência e moedas de ouro.
Existem três tipos principais de mapas: mapa-mundo, mapas de ilhas e mapas de aldeias e masmorras. Nas ilhas, podemos explorar livremente, evitar inimigos ou derrotá-los rapidamente. Há inimigos especiais com auras que permitem obter as suas almas para melhorar atributos e habilidades das nossas personagens e uma arena com bosses adicionais, alguns provenientes de outros jogos da série, tais como o célebre Psaro.
O sistema de combate foi significativamente melhorado. Podemos definir táticas automáticas para cada personagem, tais como ataque físico, uso intensivo de magia ou foco na recuperação de HP. Basta selecionar “Lutar” para que o grupo atue autonomamente para acelerar os confrontos. As batalhas continuam a decorrer em ecrãs separados, mas agora com a equipa visível, em vez da perspetiva na primeira pessoa. As animações reforçam a ligação emocional ao jogador. O sistema de profissões foi aprofundado com a moonlighting, uma nova funcionalidade que permite às personagens aprenderem múltiplas classes e desbloquearem combinações avançadas. Cada combate concede experiência profissional para desbloquear novas técnicas e feitiços.

A possibilidade de combinar profissões torna o “grind” mais interessante, apoiado por menus simples e intuitivos. Novos puzzles, caça às mini-medalhas, minijogos e arenas garantem variedade ao pacote. Existe também um sistema detalhado de estatísticas e equipamento, embora o aspeto visual das personagens apenas mude com armas e escudos. O jogo transmite constantemente uma sensação de carinho e dedicação. Apesar do charme infantil, típico de um filme CGI da Pixar, aborda temas sérios, tais como a morte, o abandono, a esperança e a identidade cultural. Os protagonistas e monstros, desenhados por Akira Toriyama, mantêm toda a sua personalidade e carisma.
O grafismo moderno dá um novo fôlego à aventura e constitui, na minha opinião, o maior ponto forte desta reimaginação. A abordagem diferente dos remakes HD-2D resulta numa direção artística impressionante. As personagens, inspiradas em pequenas maquetes, fazem lembrar figuras de ação, com proporções exageradas ao estilo de Final Fantasy IX, enquanto os cenários funcionam como dioramas ricos em detalhe. Apesar do aspeto moderno, o jogo não é particularmente exigente em termos de hardware, comportando-se bem em dispositivos portáteis, tais como o primeiro modelo da ROG Ally ou a versão LCD da Steam Deck, e sistemas mais antigos.
A escala de resolução pode ser configurada para “Média” ou “Alta”. Em dispositivos portáteis, a opção “Média” permite manter uma taxa estável de 60 FPS, enquanto a opção “Alta” poderá exigir a limitação para 45 FPS, de modo a evitar flutuações significativas de desempenho. É igualmente aconselhável desativar o “Ajuste Automático de Qualidade de Imagem” e selecionar a opção “Priorizar Qualidade” para garantir uma nitidez constante de forma a evitar reduções abruptas na resolução. Relativamente à taxa de FPS, o motor do jogo suporta até 90 FPS em sistemas compatíveis, mas é recomendada a limitação para 45 ou 60 FPS em plataformas portáteis tais como a mencionada ROG Ally para assegurar um equilíbrio entre fluidez, estabilidade térmica e consumo energético Em suma para uma experiência equilibrada, recomenda-se ajustar cuidadosamente as definições gráficas, especialmente a escala de resolução e os limites de FPS. Com a vossa já conhecida build o jogo foi executado sem nenhuns compromissos gráficos com 144 FPS fixos e as portáteis Steam Deck e ROG Ally também não tiveram problemas a correrem o jogo nas suas taxas é resoluções nativas com o preset base automático do jogo.

Ao nível das opções de sistema, o menu disponibiliza diversos parâmetros de acessibilidade e gameplay que incluem reconfiguração de controlos, taxa de FPS, ajustes da câmara e atalhos personalizados. O sistema de combate permite ainda escolher entre diferentes velocidades de execução para melhorar o ritmo das batalhas. Existem também modos de correção cromática para jogadores com daltonismo.
No campo sonoro, não há praticamente nada a apontar. As composições orquestrais de Koichi Sugiyama continuam excelentes, mesmo não sendo completas. A música amplifica magistralmente os momentos mais intensos da narrativa. A faixa “Fighting Spirit”, em particular, transmite uma forte sensação de aventura marítima e locais e personagens apresentam um misto ibérico do século XV. A versão ocidental sofreu alguma supressão de vozes em diálogos com NPCs, mas nada que não possa ser resolvido através de modificações criadas pela comunidade.
Em suma, Dragon Quest VII Reimagined não só representa um simples relançamento como também uma reinterpretação cuidada e respeitosa de um clássico adaptado às exigências dos jogadores modernos.
A renovação visual, as melhorias na gameplay, a flexibilidade das opções de personalização e o reforço narrativo tornam esta versão a forma definitiva de experienciar a aventura. Apesar de algumas limitações herdadas do original, tais como o protagonista silencioso e o ritmo deliberadamente lento, o conjunto demonstra uma notável atenção ao detalhe e um profundo respeito pelo legado da série.
Trata-se de uma obra que consegue equilibrar nostalgia e inovação e que oferece uma experiência acessível aos novos jogadores enquanto simultaneamente é gratificante para os fãs de longa data. Dragon Quest VII Reimagined afirma-se como um dos remakes mais sólidos da série que prova que quando existe dedicação, visão artística e sensibilidade para com a fonte, é possível revitalizar um clássico sem perder a sua identidade. Esta é sem dúvida, uma aventura memorável e uma referência para o futuro da série.









