Desde o seu lançamento, a Nintendo Switch 2 tem vindo a receber, a um ritmo muito interessante, vários jogos que ajudaram a construir o seu primeiro ano de vida com bastante consistência. Mario Kart World, Donkey Kong Bananza, Pokémon Legends: Z-A e Metroid Prime 4: Beyond, juntamente com as versões Switch 2 Edition de vários jogos da Nintendo Switch, são os principais exemplos de uma biblioteca que tem crescido de mês para mês.
Ainda assim, tenho sentido que a Nintendo podia fazer ainda mais para dar à consola aquela sensação de uma verdadeira nova geração. Tinha muita expectativa de ver os seus grandes nomes a chegarem à Nintendo Switch 2 com uma experiência pensada de raiz para o novo hardware. Um novo The Legend of Zelda, Super Mario ou, claro, um novo capítulo de Fire Emblem estavam no topo da minha lista de desejos.
Por isso, quando Fire Emblem: Fortune’s Weave foi anunciado, fiquei curioso para perceber o que a Intelligent Systems e a Nintendo seriam capazes de fazer com a série neste novo hardware. Depois de alguma expectativa, o jogo chegou às nossas mãos e, felizmente, posso dizer que a espera valeu totalmente a pena.

Quatro experiências fortes e distintas
Os acontecimentos de Fire Emblem: Fortune’s Weave decorrem no continente de Dagda, uma terra governada por deuses onde um grupo de guerreiros participa nos Jogos Heroicos, uma competição que rapidamente se revela muito mais importante do que aparenta.
O primeiro aspeto que me intrigou foi a presença de quatro rotas paralelas, cada uma protagonizada por uma personagem distinta, Dietrich, Theodora, Cai e Leda. São quatro protagonistas com motivações, personalidades e objetivos diferentes, cujos caminhos se vão cruzando quando menos esperamos. Ao contrário de Fire Emblem: Three Houses, em vez de acompanharmos apenas um conflito entre nações, aqui vamos descobrindo o mesmo mundo através de diferentes perspectivas. Cada rota entrega as suas próprias cenas, eventos, missões e novidades na jogabilidade. O jogo permite alternar livremente entre campanhas sempre que quisermos, embora aconselhe a terminar pelo menos a primeira parte da história de uma das personagens antes de o fazerem.
Se tivesse de pedir algo para o futuro do jogo, seria um DLC dedicado a personagens como Bertrand, Talimun, Anatolia e Orchel.
Existe algum progresso partilhado entre elas, mas cada uma mantém os seus próprios sistemas de evolução. Mais importante ainda, cada protagonista oferece uma abordagem única à narrativa. Cai vive uma jornada de crescimento e maturidade enquanto tenta salvar o pai da prisão; Dietrich destaca-se pela sua personalidade sombria e marcante, sempre em busca de alimentar a sede de combate; Theodora, a rainha de Saramis, assume o papel de líder com o propósito de proteger o seu povo; e Leda é movida pela vingança após a destruição da sua cidade e a morte do pai.

Ainda que tenha os meus títulos favoritos na série, fiquei muito surpreendido com a escrita de Fortune’s Weave. Foi construído um lore rico e omnipresente, e os momentos-chave têm um impacto marcante que me deixou impressionado ao longo de toda a aventura.
Outro ponto forte é a forma como a narrativa aborda temas pessoais e emocionais para além da vertente política, trazendo um lado mais humano às personagens e à própria narrativa. A história beneficia imenso desta estrutura de múltiplas perspetivas, fazendo com que determinados acontecimentos assumam um peso diferente consoante quem acompanhamos. As quatro rotas cruzam-se regularmente, especialmente em Dagsion, a capital de Dagda e palco dos Jogos Heroicos, reforçando constantemente a sensação de um mundo vivo e interligado.
Nenhuma das campanhas se sentiu supérflua ou colocada ali apenas para encher e aumentar a duração, cada uma adiciona algo relevante, tornando a experiência completa e altamente recompensadora para quem decidir explorar o percurso de todos os protagonistas.

Um mundo repleto de conteúdo
Na exploração, a liberdade sente-se logo na quantidade de atividades secundárias disponíveis ao lado dos tradicionais combates táticos, tantas que, nas primeiras horas, tive mesmo de me organizar com mais atenção. A cidade principal, Dagsion, é vasta e está repleta de personagens com quem podemos interagir, oferecer presentes, fortalecer relações e até recrutar para o exército. Nem sempre é fácil conquistá-las ou perceber qual a melhor para o combate, até porque há muitas e todas parecem apelativas, tanto a nível narrativo como visual.
Não faltam também vendedores de itens de cura, armas e acessórios, um ferreiro para refinar e consertar equipamento, e até uma estalagem para descansar ou partilhar refeições para fortalecer os laços com futuros aliados. Há ainda personagens que entregam missões secundárias com as típicas tarefas dos RPGs, além das missões paralelas com pequenas ramificações narrativas que compensam claramente o tempo investido. Estas atividades são fulcrais por vários motivos, mas principalmente porque concedem prestígio, um recurso que vai desbloqueando novos espaços e possibilidades, com umas termas e um teatro.
Na exploração, os protagonistas trazem diferenças que mudam a forma como interagimos com o mundo fora do combate. Por exemplo, a rota de Cai aposta na agricultura e na domesticação de criaturas selvagens, dando um tom descontraído a uma personagem já de si mais jovem.
Fora de Dagsion, temos acesso a um gigantesco mapa-mundo que se vai abrindo à medida que progredimos. O jogo está dividido por capítulos e, em cada um, recebemos um número limitado de turnos para gastar como acharmos melhor. Treinar, descansar, fazer missões, realizar atividades consome esses turnos, mas é sobretudo na exploração que encontramos as maiores oportunidades, recolher recursos, encontrar ouro, combater soldados ou criaturas hostis e explorar masmorras que nos levam a cavernas, minas, fortalezas e florestas cheias de baús valiosos.
Uma das qualidades que mais valorizo em Fire Emblem: Fortune’s Weave é precisamente a sua liberdade inicial. Não há qualquer obrigação de participar em todas as atividades. Quem quiser focar-se somente na evolução e nos combates pode fazê-lo sem problemas, tal como é possível ignorar grande parte da exploração e avançar diretamente para a próxima missão principal. É nos permitido até deixar os turnos restantes decorrerem automaticamente, recebendo experiência, dinheiro e recursos sem precisarmos de intervir.
Apesar dessa mecânica facilitadora, faço questão de dizer que é muito mais recompensador seguir o calendário do jogo, que assinala eventos especiais como combates no coliseu ou dias de comemoração que facilitam a pesca e a recolha de minerais. Além disso, é a melhor forma de conhecer as personagens e aprofundar tudo o que Dagsion e o continente têm para oferecer.

A fórmula estratégica continua irresistível
Não fiquei rendido apenas à narrativa, mas também ao combate, que continua a colocar-nos no papel de verdadeiros estrategas. À primeira vista, quem jogou Fire Emblem: Three Houses ou Fire Emblem: Engage vai sentir-se confortável. Os combates decorrem em grelhas por turnos, a gestão do posicionamento continua a ser primordial e cada decisão pode significar a diferença entre uma vitória tranquila e um desastre completo. Ainda assim, não se ficaram por seguir a fórmula que já conhecíamos. Aproveitaram as bases da série e inseriram ideias novas que tornam os confrontos sempre dinâmicos e mentalmente estimulantes.
Uma das mudanças mais percetíveis é a forma como o jogo abandona a tradicional dependência do triângulo de armas para apostar num sistema focado nas funções e classes de cada unidade. Os magos continuam a ser eficazes contra inimigos de armadura pesada, os arqueiros mantêm-se como uma ameaça constante para unidades voadoras, e cada classe tem vantagens e limitações próprias. Por isso, torna-se essencial analisar bem o terreno de combate e as unidades inimigas antes de carregarmos em “Fight”, de forma a escolher acertadamente as personagens que colocamos em campo. A meu ver, isso é extremamente importante neste género de jogo para manter os combates estimulantes e sempre desafiantes, algo que este novo Fire Emblem consegue, mais uma vez, fazer muito bem.
A grande novidade nos combates são as Blaze Arts, habilidades próprias dos protagonistas e de algumas personagens especiais. Estas técnicas desencadeiam ações particularmente poderosas, Theodora, por exemplo, consegue arrancar um pedaço do chão e projetá-lo contra o inimigo a grande distância, enquanto Cai lança uma chama negra capaz de incinerar os alvos e impedir que se movam. O detalhe mais interessante é que, ao contrário das habilidades de armas, o seu uso consome pontos de vida, por isso é preciso usá-las com prudência. Vale a pena arriscar a vida para eliminar uma ameaça imediata ou será melhor guardar esse recurso? São estas decisões que dão uma camada extra de profundidade aos combates.
As divindades deste continente são outro elemento importante a aproveitar. Visitar os seus templos e prestar-lhes devoção rende bênçãos com vantagens especiais em combate. A bênção da deusa Fortuna, a inicial, por exemplo, permite recuar vários turnos caso tenhamos cometido um erro ou perdido uma unidade que achamos fundamental para a nossa vitória, algo que já tínhamos visto anteriormente na série. Outras bênçãos reduzem o dano ou aumentam o movimento e o poder de ataque, revelando-se particularmente úteis em campo de batalha.

Os mapas são outro elemento que me surpreendeu pela positiva. A Intelligent Systems demonstra uma criatividade notável na construção dos cenários e dos objetivos. Obviamente que continuam a existir batalhas focadas em derrotar um comandante específico ou eliminar todos os inimigos, mas há objetivos mais complexos, resgates de civis, desafios para eliminar orcs gigantes ou confrontos onde os ambientes desempenham um papel significativo. Temos campos de batalha envoltos em nevoeiro, fortalezas repletas de obstáculos, mecanismos que alteram o mapa durante o combate e até posições de artilharia que podem ser utilizadas a nosso favor, assim como a favor do inimigo. Estes pormenores mantêm a jogabilidade ativa mesmo após mais de 70 horas.
O combate acontece igualmente dentro das masmorras, mas de forma mais direta, abandonando a tática por turnos em grelha para apostar num sistema mais próximo de um RPG de turnos clássico. Vejo as “Clash Battles” como uma boa maneira de ganhar experiência, subir o nível das personagens e das suas classes e evoluir as respetivas características sem perder demasiado tempo. Ainda assim, não passa disso, sem conseguir igualar a profundidade estratégica dos combates principais.

Mais vivo do que nunca
Visualmente, o jogo aproxima-se do estilo de Fire Emblem: Engage e Fire Emblem: Three Houses, mas aproveita o hardware da Nintendo Switch 2 para apresentar modelos de personagens e animações mais pormenorizados, cenários amplos e um mundo mais denso e vivo. A direção artística preserva a identidade marcante da série, com um design de personagens estiloso e cutscenes cinematográficas de enorme grandiosidade.
No que toca ao desempenho, confesso que nem parecia estar a correr a 30 fps, tal é a fluidez e estabilidade do jogo em todo o momento. Estamos, muito provavelmente, na presença do Fire Emblem mais bonito da série.
O meu encanto estende-se igualmente à banda sonora. A série sempre habituou os fãs a grandes composições, e Fire Emblem: Fortune’s Weave arrisca ao misturar elementos orquestrais com influências de flamenco e música eletrónica, trazendo uma energia contagiante para a exploração e combates. Além disso, cada protagonista tem a sua própria identidade musical, com temas que se vão fundindo à medida que as histórias se cruzam. Para finalizar, temos um voice acting em japonês requintado, que dá ainda mais personalidade a um elenco que, por si só, já é diversificado.

Uma excelente estreia na Nintendo Switch 2
Depois de passar dezenas de horas com Fire Emblem: Fortune’s Weave, fiquei completamente rendido. A Intelligent Systems conseguiu agarrar na fórmula da série, introduzir novidades e criar uma experiência com alma que nunca deixa de surpreender.
As quatro rotas, a liberdade de exploração e a profundidade dos combates mantiveram-me constantemente investido. Mesmo com a enorme quantidade de conteúdo disponível, nunca senti que estava simplesmente a cumprir tarefas para aumentar a duração do jogo. Pelo contrário, cada atividade acaba por ter o seu propósito e contribui para tornar este mundo mais interessante.
Era exatamente este tipo de experiência que esperava ver na Nintendo Switch 2. Fire Emblem: Fortune’s Weave superou as minhas expectativas e provou que a série ainda tem muito para dar. É uma aventura épica à qual quero investir ainda mais do meu tempo e que recomendo sobretudo a quem, tal como eu, aprecia boas histórias e RPGs de estratégia.











