Marathon não é apenas o novo FPS de extração e sobrevivência da Bungie, é um retorno a um universo que esteve esquecido durante anos e que agora surge revitalizado. Situado em 2472, cerca de 90 anos após o desfecho da trilogia original de 1994, o jogo lança-nos para a colónia de Tau Ceti IV após a receção de um pedido de socorro da UESC Marathon. O que encontramos é um ambiente devastado onde várias facções disputam recursos valiosos através de mercenários cibernéticos conhecidos como Runners.
Marathon é o primeiro projeto da Bungie desde que a Sony Interactive Entertainment adquiriu o estúdio em 2022.
Nunca tive muita curiosidade sobre o género extraction shooters mas quando, no ano passado, decidi dar uma oportunidade a Arc Raiders, foi aí que comecei a perceber a admiração por este estilo de jogo. O apelo não reside unicamente na sobrevivência mas sim na natureza impiedosa onde o erro pode ser fatal, onde a vitória sobre os outros jogadores é sempre reconfortante. Quando a Bungie anunciou a sua interpretação deste género, fiquei intrigado com o que estavam a criar. Conhecendo a maioria dos projetos do estúdio, já se esperava que as mecânicas que envolvem as armas e a ação fossem estimulantes, mas por outro lado fui igualmente surpreendido com a importância que deram na construção da narrativa e do seu mundo, adicionando profundidade ao lore de Marathon.
A atmosfera de Tau Ceti IV é sombria e carregada de mistério. O jogo não se limita a oferecer mapas imprevisíveis, ele convida-nos a questionar o destino da colónia que se encontra desaparecida. Através de contratos realizados por diferentes fações, o enredo desenrola-se de forma fragmentada mas recompensadora, recorrendo à narração ambiental, entradas de codex e diálogos com agentes que expandem o universo a cada partida. Esta componente narrativa é sustentada por uma estética visual que têm sido para mim um dos melhores aspetos de Marathon, apostando num estilo biopunk retro-futurista com apontamentos de Techno Industrial (que remonta ao grafismo visto em Neon Genesis Evangelion ou em WipeOut 2097) onde as cores neon e imagens intermitentes contrastam com uma atmosfera cibernética. Cada mapa, desde as ruínas industriais de Perimeter aos pântanos de Dire Marsh, possui uma identidade visual e tática muito próprias.

Falando da jogabilidade, o ciclo de progressão é satisfatório. Em Marathon, cada expedição serve um propósito maior, cumprir contratos que aumentam a reputação com fações e desbloqueiam melhorias indispensáveis para as próximas partidas. O sistema de Shells (as classes das personagens) incorpora elementos de hero shooter que acrescentam profundidade à estrategia sem comprometer o equilíbrio em combate. Com sete Shells ao nosso dispor, cada um com habilidades especiais e únicas, como a invisibilidade do Assassin, as capacidades de cura do Triage ou o escudo do Destroyer, o jogo deixa evidente que temos diversos estilos de jogo em mãos. Os implantes e núcleos equipáveis reforçam ainda mais estas especialidades, garantindo que, embora as habilidades sejam um bom apoio em combate, o resultado de um confronto direto seja com a IA ou contra Runners rivais, depende sempre da habilidade e destreza que temos com as armas.
Durante o jogo, sente-se a mestria da Bungie na movimentação e gunplay que voltam com a intensidade que estávamos acostumados em Destiny. O arsenal, composto por mais de 20 armas distribuídas por oito categorias, requer mestria e conhecimento das suas características, temos por exemplo armas que compensam com o seu sistema de mira automática e outras que disparam tiros precisos e que provocam danos maiores. Além disso, a mobilidade é outro factor que devemos estar atentos, uma vez que o sistema de sobreaquecimento e o peso das armas impedem movimentos erráticos e exigem uma abordagem tática quanto ao posicionamento. Se ficarmos sem energia num momento delicado, tornamo-nos alvos fáceis de eliminar, o que reforça a tensão de cada encontro.
Quanto ao PvP e ao PvE, os produtores conseguiram equilibrar bem ambos os elementos, embora nas primeiras expedições a experiência possa parecer um pouco frustrante. A inteligência artificial dos inimigos comporta-se de forma astuta, quase como se fossem jogadores humanos. Os mesmos usufruem também de habilidades durante os tiroteios, podendo ficar invisíveis, usar escudos e até demonstrar alguma consciência ao saber quando se devem esconder e atacar-nos de surpresa.

Por isso mesmo, escapar com vida é essencial porque para melhorar a árvore de habilidades das fações necessita que encontremos materiais e outros recursos importantes. Com este ciclo constante estaremos sempre a realizar expedições não só para fortalecer o nosso equipamento mas também para reunir recursos que permitam melhorar o nosso desempenho.
Na parte técnica, Marathon entrega um desempenho melhor do que estava à espera na PlayStation 5. Mesmo em situações de caos absoluto, com fogo cruzado, não dei conta de qualquer entrave ou quebras de FPS. Poder usufruir de fluidez constante na movimentação é uma mais-valia para um FPS online. Porém, os tempos de carregamento podem ser longos e para encontrar uma partida e jogadores nem sempre é fácil, pontos que ainda precisam de melhorar para tornar a transição para as partidas mais célere.
A composição de Ryan Lott contribui para uma identidade sonora única, marcada por tons electrónicos e ambientes imersivos.
O som desempenha ainda um papel importante para a sobrevivência dos jogadores. Através dele conseguimos ouvir os passos de outros jogadores, inimigos ou o som das extrações, permitindo antecipar o perigo e tomar decisões mais rápidas. O design de som foi muito bem trabalhado, o que ajuda a tornar a experiência o mais imersiva e tensa possível.

O facto é que quanto a ação, Marathon proporciona um gameplay competitivo e muito divertido, o problema é que faltam mais incentivos para querer continuar a jogar frequentemente. Tirando as missões (contratos), que nos recompensam com armas, acessórios e itens de cura, assim como a nossa curiosidade em relação à história, por agora não há muito mais que nos prenda a longo prazo. Isso nota-se especialmente no primeiro Reward Pass. Para além das skins de armas e cosméticos do costume, a oferta é demasiado frágil. Embora mudar o aspeto das armas seja sempre bem-vindo, teriam criado um incentivo muito maior se tivessem incluído a moeda premium, o Lux, ou uma maior variedade de skins para os Runners.
Marathon é um ótimo FPS de extração que fica ainda melhor quando jogamos com amigos ou com outros jogadores. O seu estilo artistico é extremamente apelativo, experimental e arrojado, o que é raro de se ver nos dias de hoje neste género de jogo online, destacando-se pela singularidade artística. A meu ver, o grande desafio agora é a introdução de conteúdo. A Bungie precisa de limar algumas arestas e trazer novidades com frequência para manter quem já entrou no mundo de Marathon e para convencer novos jogadores a entrar.










