Os videojogos de desporto nunca despertaram particularmente o meu interesse. Nunca compreendi completamente as regras, nem nunca me senti realmente envolvido numa experiência suficientemente dinâmica para me manter investido a longo prazo. Ainda assim, quando falamos de títulos de desporto da Nintendo, a abordagem tende a ser diferente. Há sempre uma preocupação evidente em tornar as mecânicas acessíveis, intuitivas e, acima de tudo, divertidas. É esta combinação de simplicidade e incentivo constante que consegue manter jogadores como eu ligados ao ecrã, mesmo num género que, à partida, não me incentiva.
Falo nisto porque recentemente foi lançado Mario Tennis Fever, um jogo que trouxe consigo aquele habitual sentimento de “mais e melhor”. A japonesa Camelot Software Planning volta a assumir o leme e revela compreender bem o equilíbrio entre a tradição e modernização. O jogo apresenta um modo história competente, torneios com diferentes níveis de desafio e uma vertente assente em superar objetivos específicos que acrescenta variedade à progressão. A isto junta-se o modo multiplayer, tanto local como online, que continua a ser um dos grandes pontos importantes da série. Mas será que está isento de falhas? Provavelmente não.

Quando falamos de Mario Tennis sabemos que o grande trunfo é a sua jogabilidade e criatividade. Em Mario Tennis Fever, esse ADN continua a ser o protagonista. O registo mantém-se fiel ao estilo arcada, rápido e direto mas nota-se um polimento evidente. Os controlos são precisos, a resposta é imediata e as partidas atingem um ritmo por vezes elevado. Nos níveis de dificuldade mais altos, a velocidade é tal que acompanhar a bola se torna um desafio incrível, tornando os encontros intensos, por vezes caóticos, mas sempre divertidos.
O verdadeiro elemento transformador nesta entrega são as Fever Rackets. Antes de entrarmos em campo, temos à disposição 30 modelos de raquetes, cada um com uma habilidade especial que se ativa após encher a respectiva barra de energia (PE) que vai carregando durante a troca de bola. Esta mecânica adiciona versatilidade a esta proposta no que toca a estratégia, já que quando desencadeamos um golpe especial este pode alterar por completo o rumo da partida. Imaginem estar em desvantagem e conseguir dar a volta ao marcador por terem uma raquete capaz de congelar parte do campo adversário ou, melhor ainda, criar uma distração com um doppelgänger que atua como um aliado extra. É, no mínimo, estimulante.
Curiosamente, o primeiro jogo da série foi Mario’s Tennis, lançado em 1995 para a consola Virtual Boy.
Os efeitos são diversos e criativos, adicionando personalidade às partidas. Apesar do tom exagerado destas habilidades, os efeitos são temporários e estão ajustados para não comprometer o equilíbrio da dificuldade. Um detalhe crucial é que qualquer golpe especial pode ser devolvido antes de tocar no solo, permitindo que o poder se vire contra quem o iniciou. Esta nuance evita sentimentos de injustiça e premeia quem tem reflexos apurados e um posicionamento impecável.

A existência de uma barra de HP para cada tenista, particularmente relevante nos jogos de duplas, acrescenta ainda mais profundidade. Ver um jogador ficar temporariamente fora de jogo ao esgotar a sua vida é uma premissa interessante que torna os encontros menos previsíveis. Apesar do destaque dado às Fever Rackets, o jogo não descura as bases da série. O foco no posicionamento, nos golpes carregados e na leitura de jogo permanece intacto. Há uma simbiose clara entre a fantasia do universo Mario e o rigor do ténis tradicional, mantendo por exemplo elementos como as faltas por bola fora ou serviços na rede.
Além disso, o jogo ensina tudo o que precisamos saber no modo história que funciona como um tutorial bastante completo. É claramente um sistema fácil de aprender, ainda que exija prática no domínio.
Normalmente, os modos história nos títulos desportivos da Nintendo tendem a ser secundários ou até inexistentes. Contudo, Mario Tennis Fever quebra essa tendência com uma campanha de contornos RPG que cumpre exemplarmente a sua função. A narrativa acompanha Mario e Luigi numa aventura que, após um revés inesperado, os regride à forma de bebés, forçando-os a encontrar uma forma de recuperarem a sua forma adulta. O ponto de partida é uma academia de ténis, o cenário ideal para interiorizarmos os conceitos básicos, subir de nível e gerir estatísticas.
Este modo inclui diversos minijogos criativos, desde usar um martelo com o timing preciso até lançar discos para derrubar Goombas. Há inclusivamente questionários que testam o nosso conhecimento sobre as mecânicas. No fundo, são desafios desenhados para acolher os novatos, intercalados com partidas de treino que permitem escalar a dificuldade de forma orgânica.

No entanto, o desafio surge quando abandonamos o conforto da academia. A expedição torna-se mais diversificada: disputamos partidas num barco voador, enfrentamos hordas de inimigos e percorremos biomas distintos. Embora este modo seja curto, as provas demonstram criatividade e conseguem ser divertidas até ao final.
No que toca ao Modo Torneio, a estrutura mantém-se entre partidas a solo ou em duplas divididas por três copas. Apesar da variedade de campos, a dificuldade sabe a pouco. Ficou a faltar uma maior robustez no número de competições e um nível de dificuldade mais agressivo; algo que a Camelot parece ter-se esquecido.
Em contrapartida, é na Torre de Desafios que o jogo realmente brilha. Composta por três torres de dez níveis cada, coloca-nos perante cenários intensos e deliberadamente injustos: situações de 2 contra 1, barreiras de fogo ou pisos que condicionam a mobilidade. Aqui, a estratégia e a concentração são primordiais, tornando esta uma das vertentes mais viciantes desta nova obra.
Podemos escolher ainda o modo livre, focado em partidas de ténis tradicionais, ou para quem procura algo fora da caixa o modo Mix It Up, com partidas especiais que apresentam regras únicas. Desde pistas ao estilo pinball, outra inspirada na criatividade alucinante de Super Mario Bros. Wonder, ou até partidas em que temos de acertar em aros para marcar pontos. A imaginação neste modo mostra que uma partida de ténis pode ir muito além do habitual, oferecendo momentos surpreendentes e bastante aleatórios, que nos divertem constantemente.

Por fim, o Modo Realista convida-nos a largar o comando tradicional e a utilizar os sensores de movimento dos Joy-Con (ou Joy-Con 2). Embora eu prefira o controlo clássico pela sua precisão, a sensação de replicar o gesto da raquete é surpreendentemente gratificante e fluida. Embora seja um modo simples, tal como o modo livre, é o ideal para sessões de jogo locais com amigos, onde a diversão imediata se sobrepõe à técnica pura.
Os campos onde as partidas se desenrolam em Mario Tennis Fever desempenham um papel tático importante, embora fique a sensação de que este elemento poderia ter sido mais explorado. Estão presentes cerca de oito pistas principais, cada uma com as suas variantes: relva, terra batida e areia que acabam por influenciar a velocidade e o comportamento da bola ao bater no chão, adicionando alguma complexidade às partidas. Contudo, após algumas horas de jogo, os campos tornam-se algo previsíveis. Senti a falta de uma maior dose de audácia na conceção de obstáculos ou elementos interativos que dinamizassem os confrontos.
Quanto aos personagens, o jogo não desilude, oferecendo um total de 38 tenistas. Além dos suspeitos do costume, como Mario, Luigi e Peach, podemos controlar figuras mais inusitadas como o Goomba, a Lagartola (Wiggler), o Bowser Esqueleto, Diddy Kong ou Pauline. Cada personagem apresenta atributos próprios, versatilidade, potência, velocidade, táctica com padrões de movimento distintos. Experimentar diferentes estilos é divertido e acrescenta variedade às partidas, embora seja natural que, com o tempo, cada jogador acabe por encontrar o seu “parceiro ideal” para dominar o court.

No que respeita à rejogabilidade, Mario Tennis Fever cumpre bem o seu papel. Os modos de jogo recompensam a progressão, desbloqueando gradualmente personagens, raquetes especiais, campos e níveis de dificuldade da CPU, incentivando a continuidade e mantendo o interesse em explorar todas as atividades disponíveis.
O modo online assenta essencialmente nas Partidas Classificativas, individuais ou em dupla, com um sistema de classificação global semelhante ao de Mario Kart, ganhando ou perdendo pontos conforme os resultados, os emparelhamentos são equilibrados e permitem enfrentar outros jogadores de nível similar. Diria que a experiência online revelou-se sempre estável, sem problemas de ligação que tivesse notado. É também possível criar salas privadas para jogar com amigos.
Em suma, é uma aposta segura que garante dezenas de horas de entretenimento. O jogo ganha ainda mais animo no multijogador, onde as partidas em duplas elevam a tensão e a competitividade a patamares que a CPU raramente consegue alcançar. Embora seja um título com uma oferta de conteúdo sólida, há margem para crescer. Futuras atualizações que tragam campos mais dinâmicos ou modos ainda mais disruptivos seriam o “ás” necessário para garantir a longevidade do jogo a longo prazo, que pudessem tornar a experiência mais apelativa e aumentar a permanência contínua dos jogadores em jogo.

Visualmente, Mario Tennis Fever é um verdadeiro deleite, apresentando um brilho especial nas sequências do Modo História. É aí que se nota um cuidado redobrado na encenação e nos enquadramentos cinematográficos. Os modelos das personagens foram trabalhados ao nível dos filmes atuais da série Super Mario Bros. produzidos pela Illumination Entertainment, são expressivos, detalhados e ostentam animações fluidas que reforçam a identidade vibrante e caricatural do universo Super Mario. A somar a isto, os efeitos visuais das novas Fever Rackets são impressionantes. Ver os campos envoltos em chamas, pisos subitamente cobertos de gelo ou lama a espalhar-se pela superfície transformar cada encontro num autêntico espetáculo visual.
A componente sonora não fica atrás e caminha de mãos dadas com a jogabilidade. A sonoplastia está sempre presente, o som das raquetes, o impacto distinto da bola consoante a superfície e os ruídos característicos dos movimentos das personagens conferem um ritmo e uma intensidade que nos transportam para as partidas. A banda sonora cumpre igualmente o seu papel, oferecendo temas animados que mantêm a adrenalina em cima durante todas as partidas.
O jogo, além de incluir legendas em português do Brasil, apresenta também a Flor Tagarela totalmente dobrada em vários idiomas, um detalhe que merece destaque pelo seu contributo para a acessibilidade.
Para concluir, Mario Tennis Fever não se assume como uma revolução na série, nem procura reinventar uma fórmula. A base mantém-se fiel ao que já conhecíamos, enriquecida por adições certeiras como as Fever Rackets, que injetam espetacularidade e uma nova camada estratégica a cada partida. No entanto, o facto de não ser revolucionário não o torna um título menor. Pelo contrário, a jogabilidade é apelativa, acessível e suficientemente robusta para garantir uma vertente competitiva séria.
Com modos de jogo diversificados, um serviço online estável e o multijogador local a assumir-se, como sempre, como o seu maior trunfo, este é o título ideal para partidas rápidas e sessões descontraídas em família ou com amigos. No fundo, Mario Tennis Fever reafirma o que a Nintendo faz melhor do que ninguém: criar experiências imediatas, divertidas e desenhadas para serem partilhadas.











