Pode dizer-se que Monster Hunter é uma das franquias de maior sucesso da Capcom, conhecida pelo seu conceito de caça a criaturas colossais e pelo seu tema de preservação e equilíbrio ecológico. Desta longa linhagem nasceu Monster Hunter Stories, um spin-off que conquistou o seu próprio espaço entre os fãs de RPGs ao apresentar-se com uma estética estilo anime e um foco acentuado na narrativa. Anos após a sua segunda iteração, foi lançado recentemente Monster Hunter Stories 3: Twisted Reflection, que se revela o capítulo mais ambicioso e maduro desta subsérie.

Desde os primeiros momentos Monster Hunter Stories 3 afirma-se pelo seu tom político e mais dramático. Dois países, Azuria e Vermeil, vivem sob a sombra da destruição devido a uma premonição. Tudo indica que a guerra que assolou estes reinos há 200 anos está prestes a regressar. Para aumentar o clima de incerteza, surgem estranhos fenómenos vinculados a uma transformação que envolve as criaturas com cristais, colocando várias espécies em risco de extinção.

O enredo sustenta-se de forma eficaz ao fazer-nos sentir a urgência da ameaça que paira sobre os reinos. As respostas que procuramos vão sendo reveladas gradualmente, desde os motivos da cristalização até ao segredo dos gémeos Rathalos, mantendo-nos sempre curiosos com os próximos acontecimentos.

Desde a infância, o protagonista desenvolve uma ligação muito forte com o seu companheiro Rathalos.

Desde o início, o jogo permite personalizar o nosso príncipe ou princesa e embarcar ao lado de um elenco carismático na descoberta da origem desta calamidade e, inevitavelmente, de uma forma de a travar. Esta odisseia leva-nos a navegar por varias regiões deste mundo, oferecendo liberdade de exploração em áreas semi-abertas e com maior verticalidade que se encaixam naturalmente na proposta deste spin-off.

O design destas regiões é denso no que toca a conteúdos. Cada região têm as suas próprias missões secundárias e espécies nativas, contando ainda com companheiros que nos propõem diversos objetivos e com NPCs espalhados pelo mundo que oferecem as tradicionais fetch quests que recompensam a exploração. A isto junta-se a presença de inúmeros ninhos onde podemos entrar para obter ovos, uma mecânica herdada dos jogos anteriores que, mais uma vez, assume um papel central nesta experiência que se torna verdadeiramente viciante de aprofundar.

A recolha e eclosão dos ovos que capturamos destes ninhos permite expandir o nosso grupo de monstros. Ao todo, podemos transportar até seis criaturas, sendo cada espécie útil para a exploração. À semelhança do nosso Monstie principal, Rathalos, que permite planar pelos céus, Tobi-Kadachi possibilita a escalada de montanhas, enquanto o anfíbio Royal Ludroth permite nadar. A possibilidade de montarmos monstros enquanto exploramos os mapas fora das cidades revela-se particularmente vantajosa, dando azo a ações como ataques à distância para iniciar combates com vantagem ou rugidos que afastam as criaturas que dispensamos lutar.

Cada ovo pode surpreender-nos.

Outra adição que gostei ligada à caça aos ovos é a restauração do habitat. Com foco nas espécies em risco, podemos contribuir para a preservação ao repovoar as regiões, libertando monstros em habitats específicos. Para além de permitir combinações inesperadas que podem gerar variantes mais poderosas, esta mecânica facilita bastante a obtenção de recursos para forjar armas ou armaduras, ao permitir povoar o mapa com as criaturas que largam os itens de que necessitamos. Na minha experiência, este é um processo que pode tornar-se cansativo, mas que vale totalmente a pena, pois no final somos recompensados com equipamentos melhores e trajes novos que vão encantar qualquer jogador que aprecie um bom outfit.

Às novidades junta-se também a presença dos monstros invasores, criaturas que afetam o habitat onde se encontram e que devemos derrotar para restaurar o equilíbrio. Normalmente, são confrontos mais intensos, que pedem primeiro a recolha de pistas sobre a espécie em questão, que ajudam o nosso companheiro Felino a fornecer conselhos vitais sobre o comportamento e fraquezas do nosso oponente durante o combate.

A estrutura do combate continua a ser por turnos e segue o conceito dos títulos anteriores, baseando-se na dinâmica de pedra-papel-tesoura. Apesar de parecer simples à primeira vista, o sistema nem sempre é previsível, resultando muitas vezes num processo de tentativa e erro onde a sorte parece sobrepor-se à estratégia. Por isso, é preciso investir tempo no grind e na criação e melhoria das armaduras e armas para superar o nível dos inimigos, já que certas lutas contra monstros cristalizados e invasores tendem apresentar picos de dificuldade que o conhecimento sobre as suas fraquezas, por si só, não consegue compensar.

Monster Hunter Stories 3: Twisted Reflection têm o sistema de combate mais elaborado desta série. Cada monstro possui partes distintas que podemos atacar, cabeça, estômago, patas, por exemplo, e ao destruirmos essas partes conseguimos cancelar as suas ações ou atordoá-los, tornando os nossos ataques mais eficazes. É também fundamental estar atentos ao indicador de vínculo, que, ao ser preenchido, nos deixa montar o nosso Monstie e desencadear ataques especiais acompanhados por cinemáticas impressionantes, dignas de uma cena de Demon Slayer ou Dragon Ball Z.

Os combates oferecem um bom nível de desafio, levando-nos, por vezes, a usar todas as ferramentas que temos para vencer.

Ainda dentro do combate, os inimigos podem a qualquer momento mudar o seu comportamento e tipos de ataque, exigindo cautela redobrada da nossa parte já que se tornam ainda mais implacáveis. O truque está em esvaziar os seus indicadores de alma, facilitando as nossas esquivas às suas investidas e permitindo ataques combinados com os nossos companheiros após os deixarmos imóveis.

A Capcom supera-se ao criar um sistema de combate ainda mais robusto e ritmado do que os anteriores, destacando-se principalmente pela interação com os aliados e os seus respectivos Monsties, o que nos dá oportunidade de explorar uma boa variedade de abordagens e adaptar o nosso estilo de luta conforme o inimigo que enfrentamos.

Quanto aos gráficos, o estilo de animação em cel-shading foi implementado de forma excecional. Apesar de algumas texturas nem sempre estarem perfeitas e de a iluminação se revelar exagerada em certos ambientes, a produtora japonesa conseguiu elevar a identidade visual da série dentro do género anime, criando um resultado apelativo, vibrante e com personalidade. As personagens com as suas armaduras são arrojadas e, como seria de esperar, tanto os monstros como os diversos biomas beneficiam desta riqueza e sofisticação.

As animações são um dos pontos fortes deste jogo.

As cinemáticas representam o verdadeiro clímax do jogo, especialmente durante os confrontos. A forma como as habilidades são retratadas nestas animações é extraordinária, transformando por completo a dinâmica dos combates e conferindo-lhes uma espetacularidade que nos mantém constantemente energizados durante estes momentos.

A componente sonora complementa a grandiosidade da aventura e a caça aos Monsties. Cada melodia adapta-se ao ambiente que exploramos, alternando entre temas serenos durante os acontecimentos mais emotivos e temas mais intensos e energéticos quando estamos a combater. Como seria de esperar, o voice acting em japonês é o mais indicado e revela-se bastante competente, reforçando a imersão e a emoção da narrativa.

2026 está a ser um ano relevante para a Capcom. Tal como Resident Evil: Requiem mostrou ser o caminho certo para a sua série, Monster Hunter Stories 3: Twisted Reflection consegue, novamente, reafirmar o mesmo nível de qualidade e ambição. Trata-se de uma experiência mais adulta e sombria que os títulos anteriores, com uma narrativa envolvente e um sistema de combate que eleva todos os seus aspetos a um novo nível. Estas melhorias refletem-se também na exploração do mundo, agora mais amplo, detalhado e repleto de conteúdo para descobrir. Posso garantir-vos, se forem fãs de RPGs por turnos irão apreciar esta aventura tanto quanto eu.

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