My Hero Academia despediu-se em 2025 com um dos arcos mais aclamados de toda a série, algo facilmente comprovado pelas elevadas pontuações atribuídas pelos fãs. No entanto, existia ainda um universo por encerrar, o dos videojogos. É precisamente nesse contexto que surge My Hero Academia: All’s Justice, com a ambição de colocar um ponto final nas adaptações interativas da obra.

Não se deixem enganar pelo título. Este é, na verdade, o terceiro jogo da série My Hero One’s Justice que adapta o arco final, o mais dramático e emocional do anime e do mangá. Tinha, por isso, tudo para ser o culminar perfeito, focado em batalhas decisivas, momentos épicos e despedidas memoráveis. Infelizmente, apesar das suas qualidades evidentes, My Hero Academia: All’s Justice não consegue encerrar a saga com um derradeiro “Smash”, devido a algumas fragilidades inesperadas para um jogo deste género.

O Modo História centra-se nos momentos finais da Guerra Final entre heróis profissionais e vilões e inicia-se com o confronto entre Deku e Shigaraki, que simboliza o culminar da viagem de Izuku como herói. À semelhança do que acontece no anime, todos os principais intervenientes têm oportunidade de brilhar, com especial destaque para Bakugo no ataque conjunto contra All for One, um momento decisivo que acaba por definir o destino da Turma 1-A. Os episódios mais marcantes ganham vida através de pequenas sequências criadas com o motor do jogo, que garantem fluidez narrativa e fidelidade estética, embora sejam, por vezes, intercaladas com imagens estáticas. Mesmo assim, as vozes originais em japonês reforçam o dramatismo e recriam com sucesso a sensação de estarmos a assistir a episódios épicos da série, sobretudo nos momentos-chave da aventura.

Os momentos mais marcantes da aventura são apresentados com cutscenes com o motor do jogo da mais alta qualidade

Apesar da grande fidelidade à obra original, My Hero Academia: All’s Justice introduz algumas liberdades narrativas estratégicas, tais como a possibilidade de acompanhar determinados eventos do ponto de vista dos vilões, ajustes pontuais em combates específicos ou até a exclusão intencional de algumas personagens para futuros conteúdos adicionais. Exemplos disso incluem situações em que Deku é enviado por engano para a ilha Okuto ou alterações no confronto entre Bakugo e All for One, aqui apresentados de forma diferente. Embora estas mudanças possam causar alguma estranheza aos fãs mais puristas, não comprometem a narrativa central e acabam por oferecer novas interpretações e desafios que enriquecem a experiência. O jogo inclui ainda as Batalhas de Arquivo, que permitem reviver confrontos icónicos da série, e o Diário do Herói, que apresenta momentos inéditos da Turma 1-A que aprofundam a caracterização de várias personagens secundárias e acrescentam replay value ao conjunto.

A gameplay mantém a fórmula clássica de três contra três, herdada da duologia My Hero One’s Justice, mas introduz melhorias relevantes. Os controlos são mais intuitivos e permitem executar combos básicos, ataques especiais, técnicas à distância, saltos, corrida e bloqueio. Os ataques Plus Ultra e a barra Rising ativam transformações temporárias que potenciam os golpes e criam oportunidades estratégicas. Em comparação com os jogos anteriores, My Hero Academia: All’s Justice apresenta arenas mais dinâmicas e um sistema de Team-Up mais robusto que permite uma melhor coordenação entre personagens e maior liberdade tática. Infelizmente nem tudo foram melhorias, correr em paredes e um cenário destrutivo foram inexplicavelmente deixadas de fora neste episódio.

Apesar da sua acessibilidade inicial, os combates exigem planeamento, sobretudo nos capítulos finais da história e nas missões de Team-Up, onde a dificuldade atinge picos absurdos. A escolha das personagens, a gestão do tempo de ataque e o uso eficaz das habilidades Plus Ultra tornam-se determinantes para superar os maiores confrontos. Infelizmente, algumas batalhas sofrem de um equilíbrio mal ajustado. Por exemplo o duelo definitivo entre “Armored All Might” e All For One, que deveria ser um dos pontos altos do jogo, mas acaba por se tornar frustrante devido a uma dificuldade excessiva. O mesmo acontece no confronto entre Bakugo e All for One, onde o desafio atinge níveis ainda mais desproporcionais. Um patch de balanceamento é claramente necessário devido ao apelo casual do jogo, porque acredito que muitos jogadores poderão abandonar o jogo nestes momentos ou, em desespero, descarregar a frustração no comando mais próximo.

Até assistirem ao last stand dos heróis japoneses vão ter “sofrer” um pouquinho

Ainda assim, a verticalidade dos cenários e a amplitude das áreas de combate contribuem para um dinamismo constante, enquanto os ataques especiais acrescentam espetáculo visual sem comprometer a clareza das batalhas. Com um elenco vasto de personagens jogáveis, cada com o seu próprio estilo apesar de jogarem da mesma forma, o jogo consegue equilibrar acessibilidade para novos jogadores com profundidade estratégica para veteranos e distingue-se de muitos outros anime arena fighters. É apenas uma pena que os picos de dificuldade comprometam parcialmente esta conquista.

Para aliviar alguma da frustração acumulada, a cidade central funciona como uma hub para todas as atividades, que incluem exploração livre, missões secundárias, confrontos do Modo Team-Up e interação com NPCs em restaurantes, lojas e outros locais. Embora não seja um mundo aberto completo, oferece imersão e contexto narrativo para a história principal. Em comparação com os jogos anteriores, esta cidade é maior, mais detalhada e melhor integrada no núcleo do jogo, embora continue a funcionar sobretudo como complemento à experiência de combate. A duração do jogo depende do ritmo de cada jogador, mas ultrapassa facilmente as trinta horas para quem explora todas as atividades secundárias, procura colecionáveis e conclui missões opcionais. Trata-se de uma experiência suficientemente longa para satisfazer os fãs mais dedicados e mantém-se acessível para quem prefere concentrar-se apenas na narrativa principal.

A nível técnico, os gráficos situam-se mais próximos da geração anterior de consolas do que da atual e cumprem adequadamente a sua função. São detalhados, mas raramente impressionam. Os combates e as sequências cinemáticas apresentam melhorias claras em fluidez e qualidade, enquanto as vozes originais reforçam a autenticidade da adaptação. A banda sonora é intensa e acompanha eficazmente o ritmo das batalhas e dos momentos narrativos para garantir um bom envolvimento emocional. Em relação aos jogos anteriores, as principais evoluções residem na fidelidade das animações e na integração das habilidades Plus Ultra, embora, na minha opinião, o cômputo visual continue modesto para um jogo baseado num IP desta dimensão.

Joguei My Hero Academia: All’s Justice no PC (Steam) e, de forma resumida, foi uma experiência satisfatória, embora com algumas ressalvas. De imediato notei que as opções gráficas são bastante limitadas, mesmo para um arena fighter. Não existem ferramentas de supersampling, nomeadamente a NVIDIA DLSS, AMD FSR, ou Intel XeSS, possivelmente devido ao jogo estar bloqueado a 60 FPS. No entanto, para quem joga no PC, seria desejável poder usufruir de taxas de fotogramas mais elevadas. Embora 60 FPS possam ser aceitáveis nas consolas, no PC essa limitação já não se justifica, sobretudo num jogo que não exige grande poder gráfico. Infelizmente não pude testar os modos online porque não existiram jogadores a participar mesmo há espera por largos minutos em várias ocasiões, mas tudo aponta que não têm recurso a código de rede rollback.

Apenas 60 FPS em 2026 num Arena Fighter no PC é inaceitável

É certo que as personagens e os vários ataques chamativos estão excelentemente animados, mas, fora disto, o restante cenário parece sem vida. A liberdade oferecida pelo mundo virtual das Missões em Equipa é um ponto positivo, embora não se destaque pelo seu apelo visual, mas sim pelo que oferece. Os edifícios são estruturais e pouco detalhados, e os mapas são maioritariamente povoados por vilões NPCs estáticos, identificados como “Suspeito X”, o que contribui para uma sensação geral de falta de dinamismo e pode atribuir monotonia para quem procura mais.

My Hero Academia: All’s Justice é um produto feito à medida dos desejos e da dimensão da sua fanbase. Reconheço que sou apenas um fã casual da obra e, ainda assim, tiro o chapéu ao cuidado que a Byking demonstrou nos momentos-chave do arco final de My Hero Academia. Contudo, uma dificuldade desnecessária e um aspeto visual algo datado impedem o jogo de alcançar o seu verdadeiro Plus Ultra!. Acredito, no entanto, que este não representa o fim definitivo dos super-heróis japoneses.

Com a transmissão de My Hero Academia: Vigilantes, que inevitavelmente deverá receber conteúdos adicionais, e com uma espinha dorsal já bastante sólida, é expectável que este jogo venha a receber atualizações no futuro. Essas melhorias poderão ajudar a unir e a satisfazer ainda mais os fãs da série, pois é precisamente aí que reside o verdadeiro valor de My Hero Academia: All’s Justice.

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