A série NieR é, muito possivelmente, um dos produtos mais bizarros na indústria dos videojogos. A obra de Yoko Taro, que partiu da série Drakengard, ficou muito aquém do que mais tarde iria alcançar. Sejamos sinceros, NieR no seu lançamento original, não conseguiu cativar.  O jogo, à vista comum, estava destinado para falhar, pois, apresentava visuais muito mais próximos do início da geração anterior; a sua personagem principal era medonha; as suas mecânicas de combate eram demasiado simples; e sofria de quedas de fotogramas graves, quer em áreas mais densas, quer nos seus campos abertos verdejantes. Contudo, o jogo também apresentava uma beleza natural muito difícil de colocar por palavras. As vidas melancólicas dos seus habitantes apresentavam um misto de trágico e belo, e a sua banda-sonora emblemática transmitia paz e serenidade. Devido a estes e muito mais valores, NieR não obteve boas vendas nem uma boa projeção no mercado, mas tornou-se num jogo de culto, e atingiu valores altos no mercado em segunda mão nestes últimos anos.

Isto porque ao viajarmos até 2017, a série NieR arrebatou o mundo com o jogo NieR Automata,  uma “sequela” do primeiro jogo onde controlámos a androide 2B, num mundo belo e decadente. NieR Automata superou todas as expetativas, mesmo as mais loucas! O jogo ultrapassou as 5 milhões de vendas em todo o mundo e rapidamente se tornou numa das séries de cabeça de cartaz da Square Enix. Foi realmente bizarro assistir a um jogo que foi um fracasso comercial, dar à luz um dos que certamente definiu uma geração.

Com essa premissa chega-nos NieR Replicant ver.1.22474487139…, uma atualização do jogo original de 2010 e que, pela primeira vez, também pode ser desfrutada no PC Steam. Vejamos se este olhar atualizado de NieR consegue replicar o sucesso estrondoso do seu antecessor, e conquistar o respeito mais que merecido de uma das aventuras mais humanas que jogamos até hoje.

O primeiro registo que os jogadores retiraram de NieR Replicant ver.1.22474487139…, é o seu requinte visual. Texturas datadas e ásperas deram lugar a ambientes mais ricos, variados e detalhados. Contudo, para os puristas, esta limpeza também destruiu alguns temas subjacentes no jogo, o que não agradou aos fãs mais fiéis ao jogo original. Em parte, concordamos com este argumento, mas também temos a noção que seria muito difícil replicar a frieza de texturas mais datadas e conseguir oferecê-las a um público atual. Neste parágrafo, a Toylogic fez um ótimo trabalho, mesclando e equilibrando o clássico com o moderno.

Facade, Lost Shrine, Seafront, Great Plains, enfim, todos os cenários e localizações foram recriados com as suas características originais intactas. Mesmo perante uma óbvia fidelidade visual muito mais requintada, todos os seus elementos característicos permanecem. Por exemplo, o posicionamento de inimigos é idêntico, o que é um fator que tanto pode ser positivo como negativo perante as expetativas de cada jogador. Outro efeito que recebeu obviamente melhorias foram as personagens, quer na sua fidelidade visual como nas animações. Além disso, muitas receberam também pequenas atualizações que as aproximaram mais de NieR Automata, tais como as gémeas Popola e Devola, ou a própria Yonah, que apresenta ligeiros traços subliminares da androide 2B. Pensamos que estes efeitos foram criados para atribuir um grau de familiaridade à série, como até ligar a mesma, isto porque NieR Automata é decorrente de um dos finais deste jogo.  Infelizmente o único registo negativo entre o clássico e o moderno encontra-se nos departamentos sonoros. Por um lado, foi uma autêntica surpresa assistir a todos os diálogos falados (mesmo por NPC’s), como na história principal. Contudo, a banda-sonora já não é a mesma. Não é que seja má, mas não é tão requintada como a original. Certos ambientes possuem aquela beleza natural difícil de descrever… isto porque as melodias de NieR Replicant ver.1.22474487139… estão mais orquestradas e não transmitem aquela simbiose calma natural e envolvente.

Felizmente a história e personagens mantiveram-se fiéis (diríamos mesmo inalteráveis) e acreditamos que apenas pequenos registos foram alterados. Admitimos que não temos a certeza se foram mesmo, ou se já existiam na versão original de NieR Replicant, devido ao facto de no ocidente apenas termos tido acesso a uma versão de NieR, que no Japão ficou conhecida como NieR Gestalt, e ao invés da nossa personagem ser um irmão, assumiu a identidade de um pai. Por si só, este foi outro fator aliciante para o ocidente pegar em NieR Replicant ver.1.22474487139…, pois pela primeira vez pudemos desfrutar da história aos olhos de um irmão. Contudo, continuamos a preferir a versão do Papá Nier, pois a sua luta desesperada para salvar a sua filha pareceu-nos mais poderosa, digna e sincera.

Embora o Papá Nier não esteja presente na história, poderemos comandá-lo no desafiante 15 Nightmares DLC. Esta colocará o homem de poucas palavras, mas de coração quente em cruéis masmorras contra shades tenebrosas e outras criaturas, mas por agora apenas foi anunciada por isso, não pode ainda ser desfrutada. O melhor pai do mundo chegará, não sabemos é quando. Uma coisa é certa, terá uma jogabilidade muito mais atual e intensa, porque a Toylogic teve o apoio da Platinum Games para desenvolver a jogabilidade e sistema de combates de NieR Replicant ver.1.22474487139…. Embora não apresente a mesma complexidade e fluidez de NieR Automata, a Toylogic ajustou a jogabilidade original e colocou-lhe um meio-termo entre a jogabilidade veloz de Automata com a do NieR de 2010. O resultado é surpreendente, embora não apresente a mesma graciosidade e espetacularidade de Automata. Os combos fluem através da mudança de armas em tempo real; existe uma nova mecânica de parry; e até mesmo o grimório Weiss pode ser implementado de uma forma mais orgânica no combate, ao invés de manter um botão premido. Alguns utilizadores reportaram que o jogo sofre de alguns problemas técnicos. No entanto, estes podem ser retificados como auxílio de Mods. Na nossa build, constituída por um processador AMD Ryzen 5950X, 32 GB e uma Placa Gráfica AMD RADEON RX 6900XT, o jogo não apresentou perdas de fluidez significativas e manteve todo o seu requinte gráfico.

Certamente que durante esta análise, muitos devem estar a questionar-se: então a história? De que se trata? Pois bem, esse elemento ficou omisso de propósito, porque a história de NieR Replicant ver.1.22474487139… não se descreve, e acima de tudo deve ser vivida por cada um individualmente. Consoante as experiências e vivências de cada um, a mesma será interpretada de formas diferentes. Apenas podemos dizer que mesma vai-nos fazer refletir o nosso lugar neste mundo, onde pertencemos, o que fazemos e quem nos é importante. Estamos perante uma das mais belas histórias contadas num videojogo, e por muito que a descrevamos, as nossas palavras não lhe farão justiça. Contudo, para assimilarmos toda a história na sua plenitude, o jogo tem de ser jogado de várias maneiras e várias vezes. O primeiro final apenas dará um vislumbre na mesma, e não será suficiente para perceberem sequer do que se trata. Será mesmo necessário assistir a todos os finais (agora com explicações), pois nem tudo é o que parece e no mundo de NieR Replicant ver.1.22474487139… muito menos. Nesta nova versão, após um dos finais mais imersivos de sempre da história dos videojogos, foi criado outro, que esconde uma bela surpresa… mas só para os mais audazes e corajosos que decidam descobrir o segredo da Kainé!

NieR Replicant ver.1.22474487139… é mais que um jogo, é uma autêntica viagem emocional repleta de momentos únicos e inesquecíveis. Estamos diante de uma das mais belas histórias algumas vezes produzidas para qualquer media, que teve a coragem de se reinventar apenas nas áreas técnicas em falta, mantendo-se fiel ao seu legado, histórias e personagens, um efeito que temíamos com o sucesso estrondoso de NieR Automata. Esperemos que desta vez o mundo conheça e fique rendido à viagem de Kainé e Emil, e o jogo receba a devida projeção de carinho e respeito que apenas ficou conhecida para quem deu uma hipótese ao Conan, o Bárbaro na capa de um jogo PlayStation 3 ou Xbox 360, uma década atrás.

Vindo de vários mundos e projetos, juntou-se à redação do Otakupt, pronto para informar todos os leitores com a sua experiência nas várias áreas da cultura alternativa. Assistiu de perto ao nascimento dos videojogos em Portugal, até à sua atualidade. Devora tudo o que seja japonês (menos a gastronomia), mas é também é adepto de grandes histórias e personagens sejam essas produzidas em qualquer parte do globo terrestre.