Sigo a série Nioh da Team Ninja e da Koei Tecmo desde o seu primeiro lançamento e, desde então, tem sido uma experiência que sempre me cativou. Foi através deste jogo que comecei a apreciar ainda mais o género de ação RPG com nuances Soulslike, carregado de desafios, combates meticulosos e uma atmosfera intensa que nos prende do início ao fim.

Ao longo dos anos, a série evoluiu de forma notável. Nioh 2 trouxe mecânicas novas, maior profundidade estratégica e a possibilidade de personalizar o combate através dos poderes Yokai, expandindo aquilo que já tínhamos visto no primeiro jogo. Cada título conseguiu refinar e melhorar a experiência, mantendo o desafio que caracteriza a série e aprofundando a ligação do jogador à história e ao mundo em que se insere.

Em Nioh 3 criamos a nossa própria personagem, com uma personalização bastante completa, desde cabelo, olhos e corpo até às cores, maquilhagem e outros pormenores.

Com o lançamento de Nioh 3, a 6 de Fevereiro, os fãs vão poder mergulhar novamente neste universo. O novo jogo promete continuar a tradição da série, ao mesmo tempo que introduz novidades capazes de refrescar a experiência e desafiar até os jogadores mais veteranos.

O inicio da invasão dos Yokai

Em Nioh 3, a história começa em 1622, na cidade de Edo, e coloca-nos na pele de Tokugawa Takechiyo, um jovem prestes a assumir o papel de xogum. Desde o início, sente-se a sua insegurança, tanto no domínio da espada como na postura exigida pela posição que irá ocupar. Antes mesmo da cerimónia, o caos instala-se quando os yokai invadem o castelo e o dojo, mergulhando Edo na violência e obrigando-nos a fugir. Figuras históricas como Yagyu Munenori e Hattori Hanzo tentam conter a ameaça, enquanto o envolvimento de Kunimatsu, irmão do protagonista, levanta dúvidas sobre a origem da invasão e sobre quem está por detrás da libertação das criaturas sobrenaturais.

A narrativa leva-nos então inesperadamente para o passado, onde investigamos quem libertou os yokai e quais eventos conduziram ao colapso de Edo. Mais uma vez, a série brilha ao combinar acontecimentos históricos com ficção sombria. Nesta sequela, essa fusão continua a criar uma atmosfera única, mantendo o mundo fascinante de se explorar, embora a história funcione mais como suporte para a ação do que como um enredo complexo.

Tal como nos jogos anteriores, encontramos figuras históricas importantes da era Sengoku, como Takeda Shingen ou o primeiro xogum do período Kamakura, Minamoto no Yoritomo, explorando-os de forma eficaz para enriquecer a narrativa. Uma das particularidades que sempre apreciei em Nioh, reside nas pequenas histórias e missões secundarias que o jogo vai contando. As memórias deixadas por pessoas encontradas mortas em vilas devastadas, ajudam a dar peso aos acontecimentos, evidenciando o caos e a destruição causados pelos Yokai. Se virmos isto de outra perspectiva, estes fragmentos narrativos funcionam como uma metáfora eficaz das tragédias associadas aos períodos de guerra, ilustrando o impacto humano antes e depois dos conflitos retratados na experiência.

As missões secundárias revelam-se um excelente acrescento à narrativa

A grande alteração estrutural manifesta-se na exploração. O abandono parcial da progressão baseada unicamente em missões dá lugar a mapas abertos divididos em regiões, que representam diferentes eras históricas.

Cada mapa é povoado por atividades opcionais e pontos de interesse, como santuários, termas, bases inimigas, Kodamas, Chijikos, missões e muito mais. Esta estrutura incentiva-nos a não ficar limitados às missões principais, oferecendo constantemente algo novo para descobrir e recompensando a curiosidade explorativa.

Entre missões secundárias e tarefas opcionais, nota-se claramente uma inspiração em títulos como Assassin’s Creed, mas com menos tarefas redundantes de certa forma. Ao contrário da série da Ubisoft, nunca me senti sobrecarregado com afazeres que não acrescentam valor algum. Cada desafio é importante, seja para ganhar Amrita, evoluir o nível do personagem, descobrir equipamentos mais eficazes, desbloquear novas habilidades ou aceder a pontos de samurai ou ninja que aumentam a aptidão nas áreas e das armas.

Nestes mundos surgem também os Crucible, reinos místicos e infernais presentes em todos os períodos temporais. Nos Crucible, os Yokai aparecem fortalecidos e com habilidades únicas, exigindo estratégia e máxima atenção para derrotar as criaturas até chegarmos ao boss principal para purificar a área. Nestes locais há uma camada extra de desafio, podendo infligir efeitos negativos ao nosso personagem, como a redução da barra de vida ou da velocidade de recuperação do Ki dependendo do período histórico onde nos encontramos. Ainda assim, é nestes cenários que se encontram algumas das melhores armas, muitas com novas artes desbloqueáveis ao alcançar o nível máximo de familiaridade em combate.

O interior do Crucible principal

Além disso, existem os Crucible menores e ainda as bases inimigas. Os Crucible menores funcionam como mini arenas, com ondas de inimigos que testam as capacidades de combate, enquanto as Bases Inimigas são áreas com um número fixo de adversários, indicado por um contador no canto superior esquerdo do ecrã. Apesar de desafiadores, não se tornam demorados nem injustos, o que pode agradar a jogadores que preferem um desafio menos masoquista.

A estrutura do mundo aberto de Nioh 3 apresenta-se muito bem desenhada, de modo a não termos os típicos tropeços no ritmo, algo que nem sempre acontece noutros jogos. A Koei Tecmo implementou recursos e mecânicas que acrescentam valor ao level design, garantindo sempre algo para fazer e tornando a exploração verdadeiramente apelativa. Jogadores que apreciam descobrir segredos, testar habilidades e ser recompensados pelo esforço encontrarão aqui uma experiência sólida e bastante satisfatória.

Apesar da importância que o nosso personagem tem para a narrativa, somos nós que o criamos e personalizamos, desde o cabelo, o corpo e os olhos até a outros pormenores.

Quem jogou os jogos anteriores sentir-se-á imediatamente em casa no que toca ao combate. Tudo é familiar, desde os movimentos às posturas de ataque, passando pelas diferentes armas que podemos empunhar. No entanto, Nioh 3 introduz dois estilos distintos, o samurai e ninja, que funcionam como formas de combate separadas, entre as quais é possível alternar de maneira fluida e instantânea. Embora ambos partilhem a mesma mecânica central, diferenciam-se de forma significativa nos detalhes. Por exemplo, cada estilo utiliza conjuntos de equipamento exclusivos: o samurai permite o uso de katana, odachi e lança, enquanto o ninja recorre a kusarigama, talons, garras e outras armas específicas. Armaduras e acessórios também variam entre os dois estilos, sendo que a única sobreposição consistente ocorre nas armas de longo alcance. A possibilidade de alternar rapidamente entre estilos permite, por exemplo, equipar um rifle e um arco simultaneamente, oferecendo maior flexibilidade de combate sem necessidade de alterações constantes no menu.

Os inimigos principais podem revelar-se um verdadeiro desafio

Um aspecto fundamental é que técnicas de Ki Pulse e mudanças de postura estão disponíveis unicamente no estilo samurai. Durante o meu tempo de jogo, usei ambas as mecânicas de forma intensa. Isto deve-se à existência de técnicas marciais que provocam automaticamente mudanças na postura durante certos combos. Além disso, alguns inimigos requerem posturas específicas para serem mais facilmente derrotados, tornando a alternância entre média, alta e baixa postura uma parte essencial da estratégia em combate.

O estilo ninja, por outro lado, não dispõe destas técnicas, o que à primeira vista parece uma limitação face ao samurai. Contudo, percebe-se que existe um equilíbrio entre os estilos, permitindo adaptar a experiência ao estilo de cada um. O estilo Ninja destaca-se pela recuperação de Ki mais rápida, mobilidade superior, uma esquiva especializada diferente da esquiva normal e o uso de ninjutsus. Embora não seja tão eficaz em domínios Yokai como o estilo Samurai, compensa a sua limitação com maior agilidade e capacidade de infligir dano constante, sendo especialmente útil em confrontos com inimigos menos velozes ou quando se pretende carregar rapidamente a barra de energia da habilidade ligada ao espírito guardião.

Indo ao encontro dos espíritos guardiões, cada um possui habilidades e efeitos especiais diferentes. Analisar cuidadosamente o cenário antes do combate é essencial, pois cada espírito tem particularidades elementares que podem fazer a diferença contra determinadas criaturas. Durante o combate, é ainda possível invocar todo o poder do espírito guardião, no entanto, notei que estas invocações não apresentam a mesma brutalidade de Nioh 2. Desta vez, exigem mais estratégia no seu uso, sendo mais eficazes nos momentos críticos, como contra os grandes bosses ou quando o jogador fica rodeado de inimigos.

O combate ganha ainda mais profundidade com a ativação de habilidades passivas, que podem ser geridas através do menu de Gestão de Habilidades. Estas habilidades oferecem várias vantagens significativas, como o aumento de quantidade de Amrita ao derrotar os Yokai, recuperar vida quando causamos dano pelas costas ou outros efeitos que influenciam diretamente o desempenho das lutas.

Crucibles menores

As Soul Cores estão de volta nesta sequela, sendo mais uma vez obtidas ao derrotar os Yokai. Em Nioh 3, os núcleos devem ser equipados nas posições de Yin e Yang e funcionam como selos de invocação, recarregando-se automaticamente ao rezar nos santuários. São extremamente úteis, para além de podermos invocar em forma física a habilidade das criaturas, permitem ainda aceder às magias Onmyo, podendo por exemplo lançar bolas de fogo e em alguns casos tornar-nos vulneráveis a certos elementos durante um tempo.

Continuamos a usufruir de um combate viciante e emocionante como nos dois jogos anteriores. As lutas são intensas e exigentes, e por vezes lembram mesmo Ninja Gaiden, com ataques rápidos, precisos e cheios de ação. Poder alternar em tempo real entre os estilos Samurai e Ninja, torna cada combate mais dinâmico e divertido. Dá para experimentar diferentes formas de atacar e reagir, adaptando o estilo à situação ou ao inimigo, mantendo cada luta ativa e dinâmica.

Tecnicamente, Nioh 3 acaba por ser divisório. Em áreas mais fechadas, como vilas, castelos ou cavernas, o jogo revela uma excelente qualidade visual. Os cenários são pormenorizados, desde a decoração dos interiores até aos elementos ambientais, e é nestes momentos que a vertente artística realmente se destaca, reforçando a atmosfera e dando ânimo ao mundo.

A postura certa faz toda a diferença para vencer os confrontos

No entanto, nas áreas abertas nota-se que o jogo nem sempre consegue manter o mesmo nível de sofisticação. Algumas texturas demoram a carregar, assim como certos elementos aparecem com atraso e os movimentos do nosso protagonista podem parecer pouco fluidos, especialmente ao atravessar regiões mais vastas. Dá a sensação de que o hardware da PlayStation 5 não está a ser utilizado em pleno e a imersão visual perde assim algum impacto. Ainda com estas limitações, o nível artístico continua consistente. As criaturas Yokai e os grandes bosses impressionam pela qualidade dos modelos, animações e variedade, mantendo o impacto visual que sempre caracterizou a série.

O primeiro Nioh foi lançado a 7 de fevereiro de 2017 e Nioh 2 chegou em 13 de março de 2020.

Curiosamente, o jogo nem sempre mantém os 60 fps prometidos. As oscilações são mais perceptíveis durante os combates intensos, quando múltiplos inimigos e efeitos visuais estão em cena, o que pode comprometer ligeiramente a fluidez da ação.

A sua componente sonora continua a preservar a excelente qualidade da série. A banda sonora consegue reforçar de forma astuta a atmosfera do jogo, alternando entre melodias tensas que intensificam a adrenalina durante os combates e temas mais subtis que enfatizam a sensação de fantasia durante a exploração. Cada combate sente-se ainda mais intenso graças à música, que ajuda a criar momentos verdadeiramente épicos contra os inimigos. As vozes japonesas são excepcionalmente bem interpretadas, transmitindo de forma convincente a personalidade de cada personagem histórica presente no jogo.

Não restam dúvidas que Nioh 3 representa uma evolução sólida da série, preservando o combate técnico e exigente que a caracteriza, agora enriquecido por estilos Samurai e Ninja e por uma exploração em mundo aberto bem estruturada. A atmosfera sombria, aliada à fusão entre história e mitologia japonesa, bem como a variedade de sistemas, garantem uma experiência tão intensa e envolvente quanto nos títulos anteriores. Mesmo que a narrativa continue a não ser particularmente complexa, o jogo volta a destacar-se naquilo que faz melhor: a ação.

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