Planet of Lana é como uma árvore que, depois de plantada e devidamente tratada, cresce e dá origem a um fruto agridoce, daqueles que nos deixam com um sorriso no rosto, mas ao mesmo tempo, nos tocam com os seus acontecimentos. Pode soar estranho recorrer a esta metáfora, mas é exatamente assim que me sinto após jogar a sequela da Wishfully. Trata-se de uma produtora independente que, tal como a sua obra, amadureceu e demonstra uma sensibilidade profundamente humana, capaz de construir narrativas sensíveis mesmo sem recorrer a diálogos tradicionais.
Para vos situar, Planet of Lana II: Children of the Leaf decorre algum tempo depois do primeiro jogo. A protagonista, Lana, amadureceu e assumiu o papel de irmã mais velha e protetora, outrora ocupado por Elo, cuidando agora de Anua. O jogo abre com Lana e Anua a explorarem os destroços de uma nave espacial despenhada à procura de respostas. Esta sequência funciona como uma introdução suave ao que está para vir, mas deixa desde logo claro que o mundo continua em transformação.
Após os eventos do primeiro jogo, a tribo de Lana não se limitou a destruir a tecnologia robótica; com o seu conhecimento, integrou-a no quotidiano, utilizando-a para inúmeras tarefas, como na agricultura ou mesmo para transporte. No entanto, uma outra tribo decide aproveitar os mesmos recursos extraterrestres de forma agressiva, recorrendo à tecnologia para minerar a terra e despejando resíduos tóxicos nas proximidades da aldeia de Lana.

Desde o início, o incidente que, de certa forma abre a história, é marcante e emocional. Anua aproxima-se demasiado dos detritos e acaba por ficar doente. A partir daqui, o ancião da aldeia pede a Lana que procure os ingredientes para a cura, levando-a, juntamente com Mui, o seu amigo alienígena, a embarcar numa nova aventura. É um excelente ponto de partida narrativo, a ameaça mantém-se, mas desta vez evolui de robôs invasores para um impacto ambiental devastador causado por ações conscientes. Isto torna o conflito mais pessoal e aproxima-o de uma crítica pertinente aos problemas ambientais atuais provocados pela humanidade.
A mensagem nem sempre é direta, o jogo convida-nos a olhar para além do que é visível nos seus ambientes, a interpretar cada gesto e cada nuance para compreender aquilo que procura transmitir e fazer sentir ao jogador. A própria abordagem do tema em torno das consequências resultantes da destruição ambiental do ecossistema nunca é constantemente sublinhada, mas está presente, revelando que Planet of Lana carrega consigo uma mensagem, uma bela e importante mensagem.
Quanto à jogabilidade, Lana já não é a mesma jovem vulnerável que controlámos anteriormente. Está mais rápida, ágil e confiante. Os movimentos são mais fluidos e responsivos, algo notado pela introdução da mecânica de deslize, que permite escapar ao perigo ou esconder-se de forma mais rápida enquanto corre. Continuamos a escalar e a saltar, mas agora com uma segurança que não era tão sentida no passado.
Os próprios puzzles e as mecânicas de furtividade foram aprimorados, sendo que continua a ser fundamental a cooperação para resolver os desafios e progredir. Mui regressa com um conjunto de habilidades, sendo agora capaz de desligar máquinas por um tempo e de controlar telepaticamente a fauna local. A adição de novos ambientes traz maior variedade neste campo, incluindo a possibilidade de explorar áreas subaquáticas graças a Lana e aos novos truques de Mui. Além disso, Lana pode hackear drones para abrir caminhos, o que acrescenta ainda mais diversidade à experiência.

Mesmo que aproveite as bases do seu antecessor, continua a ser uma proposta evolutiva e empolgante, onde tudo se articula de forma coesa, desde a jogabilidade até à resolução de puzzles e aos momentos mais cinematográficos. O percurso permanece linear, com grande parte dos desafios a querer observação do ambiente natural e dedução para alcançar o objetivo. Não se preocupem, continua a não ser necessário “arrancar cabelos” para ultrapassar os obstáculos, mas isso não significa que não exija concentração e lógica da nossa parte.
Planet of Lana II inclui dez hologramas que podem ser encontrados ao longo dos capítulos.
Visualmente, Planet of Lana II: Children of the Leaf comprova que os jogos independentes podem ser tão ou mais entusiasmantes do que muitas produções AAA. A sua direção artística continua a impressionar, apresentando um mundo natural rico e pormenorizado, especialmente nos ambientes subaquáticos.
A banda sonora, novamente composta por Takeshi Furukawa (Star Wars, The Last Guardian), volta a intensificar cada segundo da aventura, evocando, por vezes, o tom épico e emocional de obras como Star Wars ou até de filmes do Studio Ghibli.

Apesar de ser uma viagem relativamente curta, Planet of Lana II: Children of the Leaf é um videojogo que permanecerá gravado na minha memória durante muito tempo. Tudo o que funcionava no título anterior está aqui presente e melhorado, com uma narrativa tocante que se constrói não só através dos acontecimentos, mas também da relação entre Lana e Mui, bem como da beleza dos seus ambientes e da consciência ambiental das novas áreas e biomas.
Mais do que uma continuação, esta é uma experiência que reforça o poder dos videojogos enquanto forma de expressão emocional e artística. Uma sequela que recomendo a todos os fãs de jogos independentes e, sobretudo, a quem procura obras com a capacidade de nos sensibilizar.










