Pela primeira vez na série Pokémon podemos desfrutar de um mundo totalmente aberto e livre para explorar. Esta opção de ampliar o mundo Pokémon começou a ganhar forma na Wild Area de Sword e Shield assim como no recente spin-off Pokémon Legends: Arceus que ainda assim conseguiu manter os seus limites. Pokémon Scarlet e Pokémon Violet acontece na região de Paldea, uma ilha coberta por um vasto ecossistema inspirado em culturas da Península Ibérica. É através de Koraidon ou Miraidon (os Pokémon lendários desta 9º geração) que navegamos pelos cenários do jogo com mais facilidade. Claro que, para isso precisamos de desbloquear as suas habilidades consoante o progresso da narrativa, que vão desde escalar montanhas, a nadar em rios e até voar.

A mudança para o mundo aberto entrega uma região cheia de paisagens por explorar. De cidades a vilas, passando por florestas e desertos, podemos encontrar de tudo um pouco. Nestas áreas existe uma boa variedade de Pokémon a andar livremente pelo ambiente, existindo um ótimo equilíbrio entre a nova geração e as gerações anteriores que de certeza agradará aos fãs da franquia. Além disso, temos de volta os treinadores e a presença de Tera Raid Battles para nos desafiar.

Desde o princípio do jogo que será normal cruzarmo-nos com desafios de nível superior ao nosso graças à liberdade que temos para explorar, resultando em lutas contra Pokémon selvagens, treinadores, entre outros. Este aspeto é aqui implementado de maneira inteligente com este novo formato, refletindo assim o grau de dificuldade do jogo que pode ser diferente de jogador para jogador. Embora tenha sentido a falta do ajuste automático do nível em situações importantes como em combates de ginásio que foram levados à derrota sem muito esforço.

Visto que passamos boa parte do jogo a explorar, deparamo-nos com uma enorme ausência de vida e detalhes que persistem em todos os cenários, uma particularidade que se torna bastante evidente devido à amplitude do mundo. Já no interior das cidades, apesar de haver negócios locais onde podemos comprar uma variedade de itens significantes, parte dos edifícios servem somente para embelezar o cenário, podendo ainda acrescentar a isso a existência de NPC’s sem qualquer tipo de encanto, criados apenas para preencher um espaço vazio e com conversas desinteressantes que em nada somam na nossa aventura.

Quanto ao combate, a Game Freak em Pokémon Scarlet e Pokémon Violet retorna com sistema tradicional de turnos já conhecido pelo público. Ainda que este seja funcional, abandonar o que foi feito em Pokémon Legend Arceus, que tornou as batalhas entre Pokémon mais emocionantes, foi uma má decisão. Afinal de contas, está em causa a sua execução, começando pela pouca fluidez dos movimentos, assim como o defeituoso posicionamento dos ângulos da câmara que fazem com que não nos apercebamos do que está a acontecer.

Ainda assim, foram transportado elementos de Pokémon Legends: Arceus que aliviam alguns dos problemas apresentados. Nomeadamente, a mecânica Let´s Go que permite que um dos nossos Pokémon caminhe ao nosso lado e lute automaticamente contra outros Pokémon selvagens reduzindo assim parte dos confrontos diretos.

A melhor parte do combate é o fenómeno Terastal, a nova habilidade introduzida no jogo, na qual os Pokémon se transformam temporariamente e que faz com que intensifiquem o seu poder de ataque ou mudem o tipo original para o seu tipo Tera. Esta habilidade acrescenta uma nova complexidade às lutas, fazendo com que tenhamos a possibilidade de mudar o rumo de acordo com as situações. Em outras palavras, a qualquer momento da batalha o nosso Pokémon fraco num determinado tipo, seja ele fogo, fada ou outro, pode alterar a sua resistência e fraqueza, e dessa maneira surpreender o adversário, apresentando múltiplas possibilidades de ataque.

No que diz respeito ao tempo livre junto dos nossos companheiros de bolso, foi introduzido o recurso Piquenique. Durante um piquenique fortalecemos laços com os Pokémon ao brincar e limpar cada um deles, para além da possibilidade de preparar sanduíches na forma de um mini-jogo. Para isso, utilizaremos ingredientes que são conseguidos em Paldea e receitas que são recebidas ao longo do jogo. As sanduíches são um recurso crucial para ativar uma série de efeitos que serão úteis para a aventura, como encontrar um determinado tipo de Pokémon, aumentar o poder do tipo de Pokémon, a probabilidade de gerar ovos, encontrar Pokémon Shiny, etc. Para quem quiser embelezar alguns aspectos, não foi esquecida a customização. Nas lojas de Paldea é possível comprar inúmeros itens para personalizar a área de piquenique e torná-la assim mais apelativa aos nossos olhos.

Depois de escolhermos entre Sprigatito, Quaxly e Fuecoco, os novos Pokémon iniciais e de assumirmos o papel de um estudante da Academia Naranja (Scarlet) ou Uva (Violet), teremos de percorrer três caminhos distinguidos pelos tramas e desafios que podemos enfrentar em qualquer ordem. A última coisa que esperava era que Pokémon Scarlet e Pokémon Violet conseguissem surpreender com a sua história. Apesar de termos o retorno dos tradicionais líderes de ginásios que levam ao caminho da liga dos campeões, aqui apresentado pelo nome Victory Road, o destaque está nas duas novas histórias que acrescentam um lado emotivo que fazia falta à série de jogos Pokémon.

Começo pelo The Legendary Path, que a pedido da personagem Arven, nos leva a vários locais de Paldea com o propósito de derrotar cinco Pokémon gigantes conhecidos como Pokémon Titans para conseguirmos coletar as ervas místicas. Já Stardust Way, inspirado no conceito de Team Rocket ou Team Skull, seguimos um grupo de jovens arruaceiros (os Team Star) que se refugiam em bases espalhadas pela região, cujo líder, vinculado a um tipo de Pokémon, deve ser derrotado.

Os mesmos são elaborados por uma série de fases diferentes. Naturalmente que todos eles, no fim, nos levam a medir forças com os nossos adversários mas a variedade de desafios que vão acontecendo, embora sejam simples e nem sempre empolgantes, garantem que a aventura se desenrole com equilíbrio e sem cair na monotonia.

No meu ponto de vista, o grande feito é concretizado a partir do desenvolvimento da narrativa num todo que se debruça em temas relevantes como o bullying, que para um público jovem é sempre importante de salientar. Isto demonstra que os videojogos cada vez mais se interessam por enfatizar problemas que afetam a sociedade em geral. No que respeita aos personagens, também apresentam uma maior atenção, aliás, por vezes as suas histórias acabam por se sobrepor à do nosso protagonista.

Por fim, falamos do propósito da Academia. Embora não seja necessário participar nas aulas, é fulcral a comparência para os treinadores que se aventuram pela primeira vez na série Pokémon. No final de contas, estas disciplinas que o corpo docente da academia leciona são uma ótima oportunidade para reunir conhecimento valioso sobre as mecânicas do jogo e descobrir mais sobre as tradições da região de Paldea. Ainda podemos realizar exames, que de forma semelhante aos jogos da Atlus (Persona), se passarmos, para além de desbloquearmos novas conversas, também recebemos boas recompensas.

Não há dúvida que a grande fraqueza de Pokémon Scarlet e Pokémon Violet está no seu aspecto gráfico. Custa acreditar que depois do que fizeram com Pokémon Legends Arceus, entreguem um jogo visualmente desajustado e lotado de problemas na sua performance que na maioria dos casos perturba a jogabilidade. Fora a aparência criativa dos personagens e da maioria dos Pokémon, estamos perante um dos títulos mais fracos da série que não tira proveito da consola da Nintendo se formos a comparar a outros títulos recentemente lançados. Desde logo notamos a falta de definição nos gráficos, nomeadamente nos contornos, iluminação dispersa, texturas desapropriadas, que resultam num jogo que mais parece ter vindo de uma geração passada. Mesmo após as atualizações, continuamos a encontrar os mesmos, o que nos leva a pensar se o estúdio não se deixou acomodar pelo sucesso de vendas da série Pokémon e do seu número de fãs.

Contudo, a banda sonora consegue impressionar. Tudo devido à sua variedade de melodias e cativante composição. Somos sempre surpreendidos a cada faixa de acordo com a situação, onde saliento as que são utilizadas em combate. Infelizmente, continua a haver ausência de vozes nos personagens. A presença das mesmas em cenas relevantes contribuíam para transmitir emoções e profundidade aos momentos.

Pokémon Scarlet e Pokémon Violet conseguem ser jogos ambiciosos, apresentando pela primeira vez um mundo aberto, acompanhado de uma história bem constituída por várias narrativas que nos preenchem com ensinamentos. Ainda consegue trazer ao de cima a essência dos primeiros títulos da série tanto pela diversão ao explorar, no combate e na captura dos Pokémon. Contudo, a experiência de jogo poderia ter sido muito diferente se houvesse mais cuidado por parte dos estúdios em termos gráficos e de performance. Pokémon Scarlet e Pokémon Violet acabam por oferecer parte do que os fãs desejavam, mas desapontam pela quantidade de erros apresentados e pelo desleixo técnico. Já está na altura de honrarem o público da maneira como merecem.

Pokémon Scarlet e Pokémon Violet já estão disponíveis exclusivamente para a consola Nintendo Switch.

Pros:

  • Introdução do primeiro mundo aberto da série
  • Pokémon a andar livremente nos cenários
  • Histórias Path of Legends e Starfall Street portados de ensinamento
  • Diversidade de Pokémon
  • Fenómeno Terastal
  • Alguns personagens carismáticos e importantes para narrativa

Cons:

  • Minijogos fáceis
  • Visualmente debilitado com problemas sérios a nível técnico
  • Mundo demasiado sem vida
  • Muitas vezes a câmara atrapalha no combate
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Bruno Cavaco
Bruno Cavaco
16 , Janeiro , 2023 14:24

Análise mais que bem vinda e bastante boa no geral.
Visualmente uma grande decepção, no mínimo esperava algo ao nível do Arceus, parece que ainda dedicaram menos tempo às texturas e animação dos Pokémon.
Agora a parte da história é algo que não estava à espera, aumenta muito o meu interesse.
Vi alguns vídeos e não posso acreditar nalgumas cenas, como estão animadas e no entanto não há voz que saia de lá.
Algo que não aprecio é introduzirem novas mecânicas e tirarem antigas. Agora é o Terastal, que muda tipos de Pokémon, certo? Não há nada de megaevolução, os megaataques, etc.
Obrigado por fazerem review, sempre bom termos mais umas quantas em português.