R-Type Final 2 – Análise

R-Type foi uma das séries que mais influenciou os videojogos. O shoot em’ up de 1987, foi de tal forma intenso que ainda hoje assistimos os seus efeitos. Desde a sua criação que centenas de outros títulos lendários como Gradius, Zero Wing, ou jogos deste género adotarem uma estética horizontal ao invés da clássica vertical para replicarem o seu sucesso. No entanto, e por muito, muito bons que fossem, a meados dos anos 90 estes jogos começaram a receber cada vez menos lançamentos, e o início deste milénio praticamente desapareceram. Foram precisas quase três décadas para a sequela de R-Type Final receber o seu financiamento. Isto porque em 2019, sem aviso, a Granzella Inc., uma empresa constituída por ex-membros da Nazca, da Irem Corporation (a criadora dos jogos R-Type originais) e Kazuma Kujo, o criador de Metal Slug, R-Type Delta e o R-Type Final original, unirem esforços e lançaram uma campanha no Kickstarter. Esta, como não podia deixar de ser, foi um enorme sucesso, angariando mais de um milhão de dólares, e além de desbravar caminho para galáxias em várias consolas, também recebeu uma versão para a PC Steam editada pela NIS America, e será precisamente essa que vamos analisar neste espaço.

R-Type Final 2 volta a colocar a humanidade na luta contra o Império Bydo. Na verdade, esta raça extraterrestre foi concebida pelo homem para ser usada em armas biológicas, no entanto, conseguiu evadir-se, espalhar-se pelo espaço e evoluir para atacar os seus criadores, mergulhando a terra em conflitos constantes. Para contra-atacar, a humanidade estabeleceu uma força de intervenção espacial dedicada a exterminar e analisar estas ameaças. Após escolhermos um nome, sexo, e data de nascimento do nosso piloto, partimos para mais uma missão. Rapidamente um misto de nostalgia invadirá os corações de quem acompanhou ou simplesmente jogou esta série ao longo dos anos. Isto porque não só a sua fase inicial, está recheada de momentos reminiscentes da série como as restantes também. A primeira missão abre com o ataque a uma base Bydo, onde no final e, como não podia deixar de ser, enfrentamos outra encarnação do Dobkeratops, a criatura mais icónica da série. Após o triunfo, somos levados a um laboratório, depois enfrentaremos uma autêntica fortaleza -em tamanho e em número- e no rescaldo da destruição desta viajaremos para um armazém repleto de células que se fundem com máquinas. Para os mais desatentos, esta é a mesma sequência do R-Type original, apenas nos restantes níveis temos um misto de elementos das outras séries, ou seja, um nível aquático, uma caverna repleta de espermatozoides gigantes e um nível entre as dimensões. Não é que estes sejam maus registos, pelo contrário, os fãs da série vão sentir-se em casa, pois além das fases, resgatarem momentos, e inimigos dos anteriores jogos da série. R-Type Final 2 volta a apostar e celebrar todos os elementos que condicionaram a mesma para um sucesso intemporal.

Se existe outro registo que também não mudou foi a sua dificuldade. O jogo continua a ser brutal, chegando mesmo a níveis de crueldade, pois não poupará esforços para inundar os jogadores num mar de balas, obstáculos e inimigos. R-Type pode também ser comparado a um enorme puzzle, isto porque o seu fantástico level design, obriga os jogadores a posicionarem a sua nave enquanto desbravam caminho num bar de balas e destroem hordas de inimigos e interiorizam conhecimentos. Adicionalmente a galardoada mecânica e recorrente mecânica “force” regressa. Assim que destruirmos uma unidade POW adquirimos um power-up que além de melhorar o arsenal da nossa nave, também atua como escudo. Este pode ser emparelhado na frente ou dianteira do nosso veículo espacial, e com base neste registo os jogadores podem recorrer a novas táticas para destruírem hordas de inimigos ou simplesmente atuar como proteção dianteira enquanto erradicam as ameaças à sua frente. Na nossa ótica a mecânica force, e o seu level design são os elementos-chave que separam e destacam R-Type de qualquer outro Shmup de scrolling horizontal.

R-Type Final 2 é um produto que pode gerar alguma confusão para alguns, na só pela inclusão no mercado como os valores que evoca. Para responder a essa dúvida será necessário preciso conhecer a sua herança e os propósitos originais, isto porque em 1987, a causa-efeito das arcadas era sugar dinheiro a todas as pobres crianças e jovens adultos. Contudo, com o passar do tempo estes gradualmente começam a melhorar, e é neste sentimento que R-Type e os Shmups no geral, diferem de quaisquer outros géneros. O sentimento de elação é único, após passarmos horas e horas a treinar numa sequência para depois de inúmeras tentativas finalmente desbravarmos caminho, é tão ou mais gratificante do que uma boa refeição, pois foi algo que batalhamos com muita determinação, e essa determinação foi materializada e recompensada. Encorajamos aos nossos pilotos a tentar várias táticas, sem terem o receio de errar, acreditem que conquistar um milímetro de uma sequência complicadíssima pode ser considerada uma grande vitória. Felizmente o jogo oferece diversas dificuldades, desde “Practice” ao hercúleo “R-Typer”.

Não se deixem enganar, ou até seduzir pela dificuldade mais baixa, pois o seu nome remete para uma viagem calma, e de relaxamento. Longe disso, a sua dificuldade continua a ser um desafio para qualquer iniciante ou até intermediário deste género. O jogo continua a apostar em todas as suas vertentes diabólicas e podem crer que verão imensas vezes a palavra “Game Over” estampada no ecrã. Porém, além da atribuição vários créditos quando é iniciada uma nova partida, o jogo também evolui connosco. Se a nossa prestação melhora, o jogo coloca menos obstáculos, se com o tempo as nossas expedições atingem melhores resultados, o jogo colocará mais ameaças para conquistar. Como não fosse bastante os créditos também refletirão estes efeitos partindo de uns míseros quatro créditos a infinitos. Esta “viagem” é indubitavelmente a causa-efeito de R-Type Final 2, e porque ocasionalmente voltamos a explorar um género intensamente cruel e que exige imensa dedicação, pois um Shmup ensina-nos a alcançar objetivos e lutar pelo que gostamos e acreditamos.

Adicionalmente, R-Type Final 2 -embora seja um jogo curto- oferece um grau de replayability tão vasto que pode ser equiparável ao próprio ambiente espacial que se baseia. Ao nosso dispor podemos adquirir 99 naves, que podem ser modificadas com cores e decalques. Desde a lendária R-9, passando por naves das outras séries como a Arrow Head, até naves Bydo. Os jogadores poderão desbloquear estes veículos espaciais, amealhando materiais que recebemos no final de cada missão. Missões em dificuldades mais elevadas também abrem caminho para novas áreas, e oferecem melhores recompensas, o que incentiva os jogadores evoluírem com os seus progressos. No universo de R-Type Final 2; e consoante o seu próprio estilo de jogo, R-Type Final 2 dá a possibilidade da escolha de uma nave que se enquadre às suas medidas. Enquanto a R-9 é uma encarnação da nave da primeira expedição ao Império Bydo e oferece um estilo de jogo equilibrado, a R9A Delta, é mais veloz, dispõe de um renovado canhão de partículas, mas possui menos cadência de tiro. Ou seja, a simples escolha de uma nave transporta imediatamente os jogadores para um shmup diferente. Além de adquirir novas naves, os jogadores também podem comprar novos decalques, fotografar as suas naves, explorar um museu de história do jogo, e até modificar a imagem ou o título do jogo se desejarem.

Um dos efeitos que infelizmente se perdeu, foi a sua banda-sonora perturbadora. As aterradoras melodias dos jogos originais deram lugar a faixas de trance que certamente evocam o tema de espaço. Porém, o mistério, o explorar o desconhecido e enfrentar criaturas que desafiam os maiores pesadelos de cada um de nós, não são transmitidas como anteriormente por este elemento. Para um jogo deste género, os visuais surpreendem. Todos os cenários estão carregados de detalhes e carisma que os separam imediatamente uns dos outros, e o jogo abre com uma sequência digna de jogo de alto orçamento que sinceramente não esperávamos. Quanto a opções gráficas além da escolha de resolução, só podemos selecionar a taxa de fotogramas, as habituais opções gráficas como sombras, ou antialisamento de pixeis não estão presentes. Este fator não nos surpreende, pois R-Type Final 2 mesmo sendo um jogo dotado de um requinte visual bem interessante não fará qualquer PC suar enquanto renderiza dezenas de projéteis na nossa direção.

Podemos constatar que a campanha para o desenvolvimento de R-Type Final 2, foi um grande sucesso, pois o jogo materializou-se nos desejos e manifestos de todos os fãs ansiosos por voltar a enfrentar novamente o Império Bydo. Além de horas e horas do mais puro desafio, e um tempo de vida quase ilimitado, o jogo também oferece ferramentas para os iniciantes deste género se sentirem em casa. Créditos ilimitados, a possibilidade de treinar níveis através do “Score Attack”, e um sistema que evolui consoante a nossa prestação são ferramentas vitais para abrir novos jogadores a um género intimidante e implacável. Retirando uma página do assustador Império Bydo, o jogo evoluirá connosco, e nós também, isto claro se não nos deixarmos abater, e treinar até mais não para atingir mais um pouco daquele corredor aparentemente intransponível.

Vindo de vários mundos e projetos, juntou-se à redação do Otakupt em 2020, pronto para informar todos os leitores com a sua experiência nas várias áreas da cultura alternativa. Assistiu de perto ao nascimento dos videojogos em Portugal até à sua atualidade, devora tudo o que seja japonês (menos a gastronomia), mas é também adepto de grandes histórias e personagens sejam essas produzidas em qualquer parte do globo terrestre.