Resident Evil Requiem tornou-se facilmente um dos melhores jogos da Capcom. Celebrar três décadas da franquia com esta obra foi uma aposta mais que acertada, respeitando o legado que foi construído e se transformando ao longo destes anos. Dificilmente esperava encontrar um novo jogo Resident Evil que superasse os anteriores, mas para minha surpresa, conseguiram, respondendo ao mesmo tempo a questões que ficaram por responder sobre os eventos de Raccoon City.

Em Resident Evil Requiem, a história coloca-nos no comando de Grace Ashcroft, uma agente do FBI que inicia a sua jornada ao investigar um caso aparentemente simples, assim como de Leon S. Kennedy, o veterano que anda novamente metido em sarilhos à procura de uma cura para o vírus. Como já é habitual na série, aquilo que começa como uma investigação comum rapidamente se transforma numa teia sombria e complexa, que se vai adensando à medida que a narrativa avança.

A primeira investigação de Grace começa pelo Hotel onde a sua mãe morreu

A história mantém a identidade da franquia, com uma atmosfera densa, misteriosa e inquietante. As personagens estão bem construídas e conseguem deixar uma marca forte, com especial destaque para o antagonista Victor Gideon e para Grace. Esta última acaba por ser a mais interessante, sobretudo pela forma como evolui, o seu amadurecimento perante as adversidades é notório e dá um peso emocional adicional à experiência.

Fiel às raízes da série, o jogo não se limita às cutscenes para contar a sua história. Ao longo dos ambientes, encontramos diversos ficheiros e documentos que aprofundam o lore e alimentam a nossa curiosidade, revelando gradualmente mais detalhes sobre os acontecimentos e o universo que o envolve.

Diante da jogabilidade, a Capcom decidiu dar-nos o melhor de dois mundos. Com Grace, sentimos o regresso ao ADN clássico da série, exploração cuidada, ambientes interligados com atalhos, recursos limitados e uma constante sensação de vulnerabilidade psicológica. Embora consiga manusear armas brancas e de fogo para se proteger, é evidente a sua inexperiência no terreno, o que nos leva a privilegiar a evasão e a gestão inteligente dos recursos, enquanto procuramos os itens chaves para resolver os puzzles.

Perspectiva de Grace – Momentos de cortar a respiração

Por outro lado, Leon representa a vertente mais orientada para a ação ao estilo dos filmes de Hollywood. Desde o início, transmite a sensação de controlo e competência, sendo capaz de enfrentar ameaças com um arsenal variado e técnicas de combate eficazes. As suas secções são mais lineares e intensas, focadas normalmente no confronto direto, deixando os puzzles em segundo plano.

Um dos pontos mais bem conseguidos do jogo é a forma como alterna entre estas duas abordagens. As transições entre Grace e Leon são naturais e bem integradas na narrativa, evitando ruturas bruscas ao ritmo do jogo. Esta dualidade reforça a identidade da série, tendo de um lado o terror de sobrevivência e do outro a ação mais direta e explosiva.

Ao longo do jogo, tanto Grace como Leon têm acesso a sistemas de criação de itens: Grace recorre ao núcleo de sangue, enquanto Leon utiliza a combinação de diferentes recursos.

Outro aspeto digno de realçar é a forma como o jogo recupera elementos clássicos do universo Resident Evil, estabelecendo ligações inteligentes a títulos anteriores com referências que os fãs certamente vão apreciar. Num todo, a experiência mantém-se sempre envolvente e dinâmica, sem momentos de monotonia, mesmo fora dos pontos-chave da história, há sempre algo a descobrir, resolver ou a enfrentar.

Os próprios zombies apresentam uma abordagem mais perturbadora e realista. Em várias situações, continuam a conservar fragmentos das suas memórias enquanto estavam vivos, com rotinas subtis refletidas nos seus movimentos e sons. Neste caso, a produtora japonesa acertou em cheio, obrigando-nos a adoptar uma postura estratégica, garantindo que não nos deixam confortáveis mesmo quando estamos bem armados ou, no caso de Leon, quando estamos a distribuir pontapés e machadadas.

Leon assume-se como a força bruta da missão.

Os modos de dificuldade disponíveis desde o início são também uma adição bem pensada. O modo Padrão Clássico recupera as icónicas Ink Ribbons, limitando os pontos de gravação e tornando cada decisão mais ponderada. Já no modo Padrão Moderno, a presença de gravação automática oferece uma experiência mais acessível e permissiva. Uma dualidade que permite adaptar o jogo tanto a veteranos como a novos jogadores, respeitando diferentes estilos de abordagem.

Ainda assim, gostaria de ter encontrado puzzles à moda antiga que puxasse mais pelo nosso raciocínio. Na prática, muitos dos desafios passam apenas por encontrar objetos para desbloquear portas, o que pode tornar-se repetitivo ao longo do tempo. Ainda assim, o excelente design dos níveis ajuda a disfarçar esta ausência, embora fique a sensação de que havia espaço para ir um pouco mais longe.

No fim, Resident Evil Requiem é uma incrível e imperdível carta de amor aos fãs da série, conseguindo satisfazer o sentimento nostálgico proveniente de 1996 assim como para quem prefere a ação direta dos capítulos mais modernos.

Detalhes

Sem grandes surpresas, Resident Evil Requiem está impecável e respira qualidade por todos os lados. Visualmente, é um espanto ver como a Capcom conseguiu levar o seu motor RE Engine ainda mais longe, superando o que já tínhamos visto nos remakes e em Resident Evil 7 e Resident Evil Village. Desde o detalhe minucioso da construção dos cenários e das personagens até à iluminação, passando pelos efeitos das armas e o realismo do sangue espalhado pelas paredes e chão, tudo foi feito com um cuidado incrível. A direção artística também merece um aplauso, os cenários são super realistas e os zombies assim como as mutações estão tão grotescos que chegam a dar agonia. Na PlayStation 5, o jogo corre muito bem, sem nenhum problema de performance a apontar e mantendo-se, aparentemente, sempre em 60fps.

No que toca ao som, voltaram a criar um ambiente sufocante. Quer sejam as músicas de fundo ou o simples som dos grunhidos sinistros dos zombies a ecoar pelos corredores, o áudio faz a sua parte do trabalho de nos manter atentos e assustados. O trabalho de vozes é igualmente fundamental e Angela Sant’Albano faz um trabalho fantástico a dar vida à Grace, conseguindo passar toda a tensão da personagem de forma muito convincente. Já Nick Apostolides, que regressa como Leon, que continua muito bem, as suas piadas secas durante os combates trazem aquele toque de leveza que já é a marca registrada do herói.

Há pormenores interessantes que acrescentam credibilidade aos acontecimentos, como o facto de Grace estar constantemente a tremer ao empunhar e recarregar a arma, acompanhada por uma respiração ofegante que reforça a sua vulnerabilidade.

Se ainda não jogaste Resident Evil Requiem, sinceramente não sei do que estás à espera! Da minha parte, foi impossível largar o comando até chegar ao fim. Foi uma daquelas experiências marcantes que nos deixam logo com saudades e a pedir por mais. Foi brutal acompanhar todos os mistérios e voltar a controlar o Leon no seu auge mas a grande surpresa foi mesmo Grace. Ela tornou-se facilmente numa das minhas protagonistas favoritas de toda a série, aquele contraste entre parecer inofensiva e acabar por mostrar uma coragem incrível, conquistou-me por completo.

Tudo no jogo funciona na perfeição, a exploração, a gestão de recursos que nos faz pensar e o combate. Nota-se que a equipa foi buscar diretamente à fonte dos clássicos que, ainda hoje, são as grandes referências do terror de sobrevivência. Um grande obrigado à Capcom por este presente. Agora, fico à espera do tão prometido remake de Code Veronica e, claro, do próximo capítulo de Resident Evil. Para já, Resident Evil Requiem é sem dúvida um clássico instantâneo obrigatório!

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