Graças ao excelente motor gráfico, “RE Engine”, a CAPCOM, depois da produção do sétimo capítulo da série Resident Evil, continuou a demonstrar a sua qualidade transportando a série para outro marco sem abandonar o aspecto que sempre a definiu dentro do género terror de sobrevivência. Ainda que esta mudança possa ter causado um certo dissabor aos fãs mais puristas da série, esta acabou por conquistar um novo público que ansiava até hoje por um novo episódio da franquia. Como resultado, depois de termos oportunidade de revisitar em 2019/2020 a apocalíptica cidade de Raccoon City nos Remakes de Resident Evil 2 e Resident Evil 3, a produtora e editora japonesa retorna quatro anos mais tarde com a sequência direta de Resident Evil 7: Biohazard, Resident Evil: Village, mais uma vez temos como protagonista Ethan Winters, usando a mesma perspectiva em primeira pessoa nos moldes de Resident Evil 4 com uma combinação interessante para ampliar a ação e a exploração neste seu mais recente capítulo.

A narrativa ocorre três anos após o incidente de Dulvey em Louisiana no RE7. Ethan e a esposa Mia decidem mudar-se para a Europa para criar Rose, o novo membro da família Winters, na esperança de conseguirem viver uma vida normal, mas inesperadamente, o pesadelo retorna quando o icónico Chris Redfield reaparece para raptar a bebe sem explicar o motivo. Logo após este evento, Ethan acaba por enfrentar uma vila com ambiente rural aparentemente hostil algures na Europa.

Shadow Village, o nome do conto narrado durante a abertura inicial pela voz de Mia Winters, é de certo modo uma descrição do que vamos descobrir em Village. Ao contrário do seu precedente, aqui a história é alimentada por um mundo mais fantasioso, onde estamos destinados a encarar personagens e criaturas que vivem nas sombras, e a percorrer vários locais que pelo seu ambiente frio aparentam ter sido retirados do romance gótico de Drácula de Bram Stoker ou até mesmo do controverso filme Blair Witch Project. Logo no início, percebemos como será difícil a nossa jornada, enfrentando o desconhecido ao sermos cercados por um grupo de licantropos. Perante isto, para o protagonista entender o que aconteceu com a sua filha, vamos necessitar de encarar acontecimentos perigosos que serão controlados por quatro poderosas hierarquias governadas por um ser que se dá a conhecer pelo nome de Mother Miranda.

Um dos destaques de Resident Evil Village está precisamente ligado aos vilões deste capítulo, principalmente à dimensão e carisma de cada um deles. Heisenberg e a nobre e gigantesca Lady Alcina Dimitrescu e as suas três filhas “As vampiras de Bram Stoker” são todos um bom exemplo disso. Para além de terem conquistado o público com a sua aparência, no primeiro cenário, dentro do Castelo Dimitrescu, que ficou conhecido pelo seu bom vinho, toda a vez que as vampiras e a sua mãe nos tentam caçar, sentimos na “pele” o terror e agonia que o nosso protagonista vivencia, sobretudo no tempo em que encaramos de frente as garras da Lady Dimitrescu, percebendo as diferenças de poder. Em certas situações, mesmo que sejam por breves momentos em contextos como este, fugir dessas criaturas e experienciar alucinações por longos corredores armadilhados sem armas, mostra o quanto a Capcom aprofundou o terror psicológico tão carismático de Resident Evil.

Enquanto não somos perseguidos, em algumas ocasiões vamos ainda interagir com os poucos sobreviventes da vila. Estes aldeões supersticiosos acrescentam história ao mundo do jogo e juntamente com os documentos que vamos descobrindo, vão ajudar o jogador a conhecer os segredos daquele local e o seu folclore.

O estúdio apesar de não ter aparecido com o desejado remake de Resident Evil 4, decidiu aplicar os seus moldes para idealizar a ação e exploração de Village sem ignorar o ADN de Resident Evil 7. As semelhanças são visíveis quando temos um mapa mais amplo com grandes áreas abertas comparativamente ao anterior, para além da adição de mais munições e de um maior número de inimigos em campo. Esta mudança também fez com que a aldeia, onde vamos passar parte do nosso tempo, funcione como ponto de ligação entre as múltiplas localizações com ambientes diferentes mas igualmente horripilantes ligados aos Lordes de cada “casa”.

É aqui que, para além do castelo Dimitrescu, vamos explorar o vale enevoado da Beneviento, uma mina infetada por um fungo venenoso, um reservatório perto de uma vila de pescadores que pertence à família Moreau e outros cenários que vão de calabouços a mansões assombradas por bonecas amaldiçoadas. Como resultado, com o desenvolvimento da narrativa, esta liberdade adaptada à exploração, vai fazer os jogadores percorrer repetidas vezes o mesmo caminho para desbloquear outras portas, conseguir tesouros e descobrir segredos que estavam inacessíveis em algumas fases do jogo.

Como marca da série, temos também em cada cenário múltiplos quebra-cabeças para decifrar e itens-chave por encontrar (como são designados em RE8) que vão ajudar a desbloquear novas áreas conforme avançamos. Estes quebra-cabeças apesar de serem criativos não puxam exageradamente pela dificuldade, deixando de lado a sua complexidade comparada aos clássicos anteriores, pensados possivelmente para os novatos da série.

No que toca às mecânicas de combate, para lidarmos com os humanóides que se denominam de vampiros, lobisomens ou até uma espécie de mortos-vivos que se podem esquivar rapidamente, temos acesso a um arsenal bélico que engloba a princípio uma pistola semi-automática e uma caçadeira. Ainda que no início nos possamos sentir em perigo, essa sensação de vulnerabilidade vai-se alterando à medida que vamos adquirindo armamento mais eficaz. Podemos também executar ataques corpo a corpo ou usar armas brancas, para além de bloquear ataques.

Certamente a inteligência artificial dos humanoides “comuns” é um outro ponto que está muito bem estruturado. As criaturas quando sentem o cheiro do nosso sangue conseguem perseguir-nos, da mesma forma, os nossos passos chamam a atenção dos lycans que se comportam em matilha e ficam de sentinela no telhado à espera da nossa presença.

É com a assistência do Duque, o mercador de semblante duvidoso que aparece em locais inusitados, que vamos poder atualizar a capacidade do inventário, aprimorar as nossas armas e vender artigos que são deixados pelos inimigos para ganhar Lei (a moeda do jogo inspirado no Leu romeno) que servirá para comprar itens de cura, munições, receitas de fabrico ou até outros acessórios que ampliam o status do nosso arsenal. Dentro do campo de melhorias, podemos numa aba à parte, cozinhar pratos com os ingredientes deixados pelos animais que podem ser avistados nas várias áreas da vila. Cada um dos pratos disponíveis, permite o aumento da velocidade dos movimentos do personagem, da energia, ou maior resistência aos ataques. O retorno do mercador é uma das adições que terá maior impacto na dificuldade, apesar de precisarmos da moeda do jogo para termos acesso ao seu conteúdo com stock limitado, ao longo do progresso vamos conseguir manter o nosso protagonista preparado para os contratempos que tendem a surgir.

Os ambientes concebidos para Resident Evil Village são tão belos quanto assustadores. Percebemos isso sobretudo quando estamos a explorar as áreas exteriores da vila que alojam os melhores cenários do jogo. Vale como exemplo o castelo Dimistrescu com todas as suas ornamentações clássicas que remontam ao estilo Louis XVI. É notável como a Capcom usa a iluminação no jogo de modo a criar a ambiência ideal de suspense sob esta temática. A qualidade gráfica mantém-se embora algumas das texturas pudessem estar mais bem cuidadas, nomeadamente as que se encontram nos elementos da natureza ao redor da vila. Todos estes pormenores têm de fundo um panorama sonoro que também apoia a atmosfera de modo exímio, salientando também as excelentes interpretações vocais em inglês.

Em Resident Evil Village foi alcançado o equilíbrio. Todos os instantes de medo e sobressalto têm também divertimento à mistura. A transição de cenários comparados à mansão abandonada da família Baker foi uma mais-valia para a dimensão do novo mapa situado na vila macabra da Roménia, exibindo diferentes elementos que melhoram a exploração relativamente ao antecessor. Apesar de ter sido conquistado pelas personalidades e o impacto sobrenatural dos antagonistas, as mudanças atuais na jogabilidade, entregam um Ethan mais seguro e vigoroso, o que é preferível a um Ethan mais frágil e alarmado. Por fim, sem grandes dúvidas, o oitavo capítulo de RE foi a melhor prenda do 25º aniversário da saga que a Capcom poderia ter oferecido aos jogadores da oitava e nona geração de consolas. Se és fã de sensações que provocam um misto de emoções densas e assombrosas, este é um jogo que recomendo vivamente.

Resident Evil: Village já está disponível para a PlayStation 4PlayStation 5Xbox OneXbox Series e PC via Steam.

Interessado em videojogos com o gosto acentuado para JRPG, está presente na equipa do OtakuPT desde 2013 com propósito de acompanhar e vos informar acerca do que melhor se faz na área do entretenimento gamer.