Scott Pilgrim, a obra criada pelo Bryan Lee O’Malley é um verdadeiro clássico da cultura geek. Mesmo antes da adaptação cinematográfica protagonizada por Michael Cera, a história e o estilo de desenho inspirado em anime já tinham conquistado fãs em todo o mundo. Esta propriedade intelectual também teve sucesso noutros meios que incluíram os videojogos, nomeadamente Scott Pilgrim vs. The World: The Game, que surgiu numa era bastante peculiar para este tipo de jogos.

Scott Pilgrim vs. The World: The Game foi lançado em 2010 para PlayStation 3 e Xbox 360 como complemento ao filme com o mesmo nome. O curioso é que surgiu numa altura em que o género beat ’em up parecia praticamente morto e enterrado. Pode ser um pouco esticar a corda, mas é legítimo perguntar se Scott Pilgrim vs. The World: The Game não terá ajudado a demonstrar que ainda existia interesse por este tipo de jogos. É possível que o seu sucesso tenha contribuído, pelo menos em parte, para a ressurreição do género e abriu caminho para jogos posteriores, tais como Streets of Rage 4 e Teenage Mutant Ninja Turtles: Shredder’s Revenge. O facto é que, após a adaptação da obra de Bryan Lee O’Malley para videojogo, não demoraram a surgir novos projetos dentro do género, o que sugere que existe, pelo menos, algum fundo de verdade nesta ideia.

Sem divagar demasiado chegamos à era onde Scott Pilgrim EX chega a um mercado consolidado no género, mas ao invés da Ubisoft ao leme, temos uma produção pela Tribute Games, que recentemente lançou o incrível Marvel Cosmic Invasion. A história de Scott Pilgrim EX desenrola-se ao longo de 12 pequenas missões. Nestas, o nosso principal objetivo é reencontrar os membros da banda, que se encontram espalhados pelo espaço-tempo. Para isso, teremos de encontrar instrumentos, aprender riffs e abrir falhas dimensionais que nos permitem aceder a novos locais de forma a localizar os nossos amigos.

A aventura começa com a escolha da personagem. Ao contrário do anterior existem sete personagens jogáveis, muitas antigas antagonistas, onde eram os “Exes” de Ramona Flowers. Como seria de esperar, cada possui o seu próprio estilo de jogo, embora as técnicas base sejam essencialmente semelhantes. Após a escolha, seguimos para a cave da nossa casa, onde um pequeno tutorial nos espera e ensina as bases do combate e os diferentes combos base disponíveis. Quando este termina, é altura de começar a procurar a banda de Scott pelas ruas de Toronto.

O jogo está carregado de referencias, por exemplo aqui encontramos a caricatura de Toby Fox, o criador de UnderTale/Deltarune

No geral, a história não é particularmente extraordinária, nem sequer o tenta ser. Serve sobretudo como pretexto para levar os heróis de um lugar para outro. Ainda assim, a manipulação do tempo cria momentos divertidos, tais como viajar até à pré-história para lutar contra um dinossauro gigante. Não me interpretem mal, o jogo está bem escrito e os diálogos com personagens conhecidas, ou menos conhecidas, dos comics e da série garantem frequentemente momentos bem-divertidos, especialmente quando enfrentamos as facções dos Veganos, Robôs e Demónios.

Tal como em Scott Pilgrim vs. The World: The Game, também aqui embarcamos numa aventura de ação em 2D enquanto enfrentamos ondas de inimigos com todo o tipo de ataques. Aprender e experimentar os diferentes conjuntos de movimentos é extremamente divertido, pois cada personagem joga de forma distinta. Scott funciona como um lutador equilibrado, Lucas aposta em golpes inspirados no pro-wrestling, como um skate, e Roxie em técnicas de ninjutsu.

Tal como no seu antecessor, os cenários também desempenham um papel importante nos combates. Muitas arenas estão repletas de objetos que podem ser utilizados quer pelos jogadores como também pelos inimigos para causar dano adicional. Estes itens vão desde armas simples, tais como tacos de baseball e barras de aço, cetros mágicos devastadores e até bombas.

A variedade nas batalhas é grande, embora a ação no ecrã se torne por vezes bastante caótica. Até quatro jogadores podem participar em simultâneo, seja em modo local ou online, enquanto objetos explodem, efeitos especiais enchem o ecrã e frequentemente enfrentamos uma dúzia de inimigos ao mesmo tempo, por vezes acompanhados por um boss. Estes bosses são particularmente divertidos, tanto a nível visual como mecânico e exigem reflexos rápidos e alguma estratégia para aprender os seus padrões de ataque.

Em Scott Pilgrim EX não se trata apenas de lutar. O jogo inclui também elementos de progressão ao estilo RPG, que recordam clássicos como Guardian Heroes, o lendário título da Treasure para a SEGA Saturn. Tal como nesse clássico, ao derrotarmos inimigos ganhamos pontos de experiência, que aumentam atributos como HP, Agilidade e Força. Ao derrotar bosses recebemos ainda bónus permanentes adicionais. O dinheiro recolhido durante o jogo pode ser usado para comprar objetos que aumentam diferentes estatísticas. Cada personagem possui vários espaços para equipamento, capazes de conceder melhorias passivas ou alterar certas ações, como movimentos especiais. Com sete personagens jogáveis e uma grande variedade de equipamentos, existem boas razões para voltar ao jogo, mesmo que a campanha principal possa ser concluída em poucas horas.

A inspiração dos Robot Masters de Megaman é notória no design destes robôs

Ao contrário de muitos beat ’em up, Scott Pilgrim EX não nos obriga a completar níveis de forma totalmente linear. Somos livres de explorar cada zona, derrotar inimigos, recolher moedas e visitar lojas. O dinheiro acumulado também pode ser usado para comprar comida e recuperar vitalidade antes da próxima missão. Existem ainda acessórios que aumentam certas estatísticas, tais como insígnias que concedem bónus adicionais. Cada personagem pode equipar quatro acessórios e duas insígnias. Por fim, é possível selecionar um aliado a partir de uma lista que cresce ao longo da aventura. Este aliado pode ser invocado em combate e oferece vantagens adicionais, como invencibilidade temporária.

Como seria de esperar de um jogo de Scott Pilgrim, a música é excelente. Tal como no primeiro jogo, a banda Anamanaguchi regressa com chiptunes de 8-bit. Este elemento encaixa de forma orgânica com o restante conjunto do jogo, já que a aventura de Scott Pilgrim sempre teve uma forte inspiração em clássicos, tais como Double Dragon e River City. A estética em pixel art complementa na perfeição a sonoplastia para criar uma identidade visual e sonora bastante coesa.

Sejam personagens conhecidas ou novas, as animações de combate ou os cenários dentro e fora de Toronto, todos apresentam um aspeto EXcelente. Existem inúmeros pequenos detalhes espalhados pelos cenários e um sem-fim de referências ao universo geek, por exemplo, um dos bosses é inspirado num vilão clássico de Digimon.

Sem surpresa, Scott Pilgrim EX corre sem dificuldade em praticamente qualquer sistema moderno ou mesmo já com uns bons anos em cima. O jogo apresenta requisitos técnicos bastante modestos e um desempenho extremamente estável o que se traduz numa taxa de fotogramas consistente. Por isso Scott Pilgrim EX é um companheiro ideal para a Steam Deck, onde a sua natureza portátil e sessões de jogo curtas encaixam perfeitamente e transformam longos períodos de espera, tais como numa sala de espera do médico, em momentos bem mais divertidos.

Ao nível das opções, o título oferece um conjunto relativamente simples, mas suficiente para ajustar a experiência. É possível alterar definições básicas de apresentação e som, bem como aplicar filtros visuais que recriam diferentes estilos gráficos. Para os puristas do retro, destaca-se a inclusão de um filtro que emula o aspeto dos antigos ecrãs CRT e reproduz elementos, tais como scanlines e ligeira curvatura da imagem, o que ajuda a reforçar a estética inspirada nos jogos arcade clássicos.

Os fãs brasileiros têm motivos para celebrar porque a Tribute Games ouviu os pedidos da comunidade e incluiu suporte para vários idiomas ao longo de toda a aventura, onde consta o português do Brasil. No entanto, como acontece frequentemente neste tipo de adaptações, algumas referências clássicas e jogos de palavras acabam por perder parte do seu impacto na tradução, como é o caso da deliciosa referencia de Castlevanvia Symphony of the Night que podem ver em cima.

Scott Pilgrim EX é um jogo que não procura reinventar o género, e nem precisa. Estamos perante uma aventura EXcelente que honra quer o material original como um género que esteve durante anos em declínio e que agora regressa em força. Uma aventura EXcepcional, que merece um lugar na biblioteca de qualquer fã, especialmente se tiverem um sistema portátil e muitos amigos para jogar online ou localmente enquanto percorrem sem parar neste Streets of Toronto a distribuir pancadaria ao som de chiptunes. 

Bruno Reis
Vindo de vários mundos e projetos, juntou-se à redação do Otakupt em 2020, pronto para informar todos os leitores com a sua experiência nas várias áreas da cultura alternativa. Assistiu de perto ao nascimento dos videojogos em Portugal até à sua atualidade, devora tudo o que seja japonês (menos a gastronomia), mas é também adepto de grandes histórias e personagens sejam essas produzidas em qualquer parte do globo terrestre.
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