O jogo Shin Megami Tensei V acaba de chegar à Nintendo Switch! Desenvolvido pela japonesa Atlus, o jogo mergulha o jogador numa temática pós-apocalíptica no qual entidades superiores e o que resta da humanidade coexistem numa realidade que nos faz querer vestir o papel do herói com o desejo de evitar o fim do mundo.

Sabiam que para os fãs, Shin Megami Tensei é designado também como MegaTen

Mesmo que seja um tema com o qual os veteranos de Shin Megami Tensei se possam sentir familiarizados, esta ideologia tem sido abordada desde o surgimento deste JRPG, elaborando habilmente um extenso e promissor universo que partilha das mesmas fantasias, conceitos mitológicos e filosóficos até então. Com o evoluir da mentalidade dos jogadores, foi justamente com as conquistas de um dos “filhos” da série Spin off, Persona, que Shin Megami Tensei obteve um lugar no coração dos Europeus, sendo sobretudo reconhecido pela sua dificuldade extrema que tem proporcionado aos jogadores uma experiência distinta dos moldes habituais e que hoje em dia se popularizou com a saga Souls.

O jogo arranca mais uma vez na cidade de Tóquio na perspetiva de um jovem estudante do ensino secundário que vive uma vida pacifica com os amigos no interior da Academia onde reside. Depois de ouvir rumores na aula sobre um acidente e se deparar com um assassinato dentro da estação de Shinagawa, a pedido de uma amiga da academia é levado a procurar um dos seus amigos dentro de um túnel próximo da estação. No seu interior, vemos o protagonista numa posição inesperada onde acaba por perder a consciência e misteriosamente, quando volta a si, depara-se com uma versão alternativa em ruínas e desertificada de Tóquio. Dentro desta realidade, onde Tóquio dá lugar a um outro mundo conhecido como Netherworld ou Da’at, os anjos e demónios vivem em plena guerra e para podermos lidar com ambos, podemos contar com a ajuda de uma misteriosa figura que desce dos céus, Aogami, com a qual o nosso protagonista une forças originando um ser que não é nem humano nem demónio, mas sim um Nahobino.

Daqui para a frente a narrativa mantém o jogador curioso com o que a história tem para oferecer. Os eventos principais transmitidos através das animações, são 10% do tempo que vamos passar em jogo, mas não deixam de ser cruciais para expor o que está a acontecer entre as duas realidades, sendo fundamental para o desenvolvimento das personagens. Afinal de contas, dentro deste cenário opressivo e sinistro, interagimos com inúmeros demónios e humanos tal como é tradicional na série, providenciando diálogos fascinantes e indispensáveis que têm tendência a alterar consoante as nossas escolhas e dão ao jogador mais informações sobre este mundo. A equipa responsável por SMT é exímia a construir histórias secundárias em que os antagonistas e protagonistas secundários acabam muitas das vezes por roubar a atenção do nosso herói principal.

Seguindo esta metodologia, encontramos associadas as missões secundárias. As tarefas que nos são atribuídas pelos demónios que conhecemos em Da’at são pouco ou nada mais que entregar itens e derrotar criaturas, no entanto em SMT é frequente surgirem imprevistos quando os próprios demónios nos tentam persuadir a trair a confiança de outros ou quando os pedidos nos levam a encarar os exigentes chefes opcionais que têm ótimas recompensas a oferecer, indo geralmente de uma quantidade interessante de XP, à moeda do jogo macca ou à conquista de talismãs que são determinantes para desbloquear as habilidades Magatsuhi do protagonista, ou dos nossos aliados demoníacos. Por essa razão e muitas outras, é recomendável fazerem o máximo de missões secundárias, seja para vivenciarmos as diferentes situações que despertam o carisma de SMT V ou mesmo pelas recompensas que podem ser cruciais para atenuar a dificuldade.

Em Shin Megami Tensei V à medida que andamos pelo mundo de Da’at podemos observar os demónios que combatemos a caminhar pelos cenários sob a sua forma física em vez das precedentes silhuetas. Esta mudança, ainda que pareça despercebida, facilita a ponderar os confrontos ou a saber quais os demónios que naquela área podemos encontrar.

Ao contrário de Pokémon, para os poder capturar é necessário convencê-los em combate através de negociações, por norma voláteis, para estes se aliarem à nossa equipa. Normalmente, o demónio que queremos convencer a juntar-se à nossa equipa, tem tendência a tomar algumas exigências que podem levar-nos a fazer sacrifícios, testando o nosso temperamento e vontade de os ter ao nosso lado. Estes exigem parte da nossa vida ou até de Macca, para no fim da negociação ficarem satisfeitos e aceitarem o desafio ou até mesmo abandonarem a luta com o que conseguiram furtar. Entretanto, com o sistema de fusão, que é disponibilizado a partir de Sophia no seu World of Shadows, somos capazes de obter esses demónios que não conseguimos alcançar por meio de fusões, ou então fundir os demónios que temos em posse por algo novo e, idealmente, para uma espécie mais poderosa. É importante ressaltar que o nível do nosso protagonista está ligado às fusões que podemos realizar, sejam elas normais ou especiais.

Ainda dentro do World of Shadows temos o Apotheosis, um sistema recém-adicionado, onde temos acesso aos Essences. Esta mecânica conseguida principalmente a partir dos demónios, permite ao nosso Nahobino implementar as habilidades e afinidades dos demónios em si mesmo ou nos seus aliados para fortalecer as suas características, dado que neste capítulo deixamos de ter a presença de equipamentos para melhorar as nossas estatísticas. Ao mesmo tempo, essa novidade é um complemento determinante para facilitar a derrota dos chefes deste jogo.

A apoteose no mundo antigo era invocada para elevar um indivíduo ao estatuto de divindade, ou seja, endeusar ou deificar uma pessoa devido a alguma circunstância excecional.

No Apotheosis ainda temos outra particularidade, os Miracles, que atuam de forma semelhante ao aplicativo de SMT IV. Estes Milagres desbloqueados com o acumular de Glory, para além de darem acesso a habilidades passivas e aprimoramentos nos diversos atributos da nossa equipa, podem ainda por exemplo adicionar novos espaços para acrescentar outros poderes ao nosso personagem, novos espaços para recrutar mais aliados ou até conceber bónus de experiência nas fusões que fazemos.

SMT não deixa de a princípio assustar os novos jogadores com a sua complexidade devido ao tempo que gastamos com a personalização do nosso herói e membros da equipa. Mas tanto as adições mais recentes como as familiares que encontramos continuam a fazer desta série uma das melhores a nível de gestão e estratégia. Por isso, não dar oportunidade a algo que não conhecemos ou com que não nos sentimos tanto à vontade, pode levar os jogadores as perderem uma incrível jornada proposta com tanta dedicação pelas mãos da Atlus.

Todos estes pormenores mencionados anteriormente proporcionam um equilibrado sistema de combate e exploração. Como um RPG japonês por turnos, para além do nosso Nohabino dispomos de mais três parceiros em batalha. Este como devem ter percebido continua a beber inspiração de outras séries. Em combate os demónios e o nosso protagonista usam um ataque normal que não consome MP e outras particularidades sejam elas mágicas ou físicas que consomem MP. Desta vez temos presente uma barra de energia vermelha que representa as Magatsuhi. Esta quando fica completa permite-nos usar um estilo de habilidades especiais que por exemplo facultam ao nosso grupo a capacidade de fazer ataques críticos do tipo físico e mágico até ao fim dos turnos ou até mesmo duplicar os efeitos de buffs e debuffs desencadeados em combate.

Por outro lado, temos adversários que beneficiam igualmente das mesmas mecânicas que nós, ou seja, podem atacar, usar as magias, incluindo as Magatsuhi. Devido a isso, devemos analisar bem os comportamentos dos adversários, ter em mente os seus pontos fortes e fracos, sendo isso fundamental para infligir danos devastadores ou para facilitar a escolha de demónios que queremos utilizar em combate. Em Shin Megami Tensei V devemos tirar proveito dos buffs e debuffs que temos em posse para aumentar os atributos e possivelmente reduzir a dos adversários para termos vantagens nos combates.

Tudo isto em prática, aparenta ser mais simples do que parece, porém relembro-vos, SMT é absolutamente severo com os jogadores, sobretudo nos chefes principais que, suportam os encontros mais marcantes e desafiantes de Da’at. Ainda assim, a determinada altura os jogadores têm a opção de fazer o download da dificuldade Safety para reduzirem a dificuldade e aproveitarem a história do jogo, o que pessoalmente desaconselho. Isto porque apesar de a história ser agradável, é desvalorizado um dos elementos que favorece o mundo deste jogo.

No início também conhecemos Gustave, o único comerciante e o guardião da Cadaver´s Hallow. Este cadáver que ostenta luxúria, para além de vender uma variedade de itens ao longo do jogo, também nos oferece recompensas por encontrarmos pelo mapa os seus 200 peões escondidos chamados Mimans. Para além de ser um dos métodos de ter Glory, por cada cinco das criaturas que entregamos a Gustave, somos recompensados com diversos itens que serão compensatórios no decorrer da jornada.

Por mais que o enredo principal seja valorizado, são os aspetos visuais e sonoros que conseguem adicionar personalidade ao universo dos jogos. Pela primeira vez na série, a produtora dá uso ao motor gráfico Unreal Engine 4 para dar vida às animações e ao impressionante ambiente apocalíptico de Shin Megami Tensei. Agora com áreas mais amplas, os territórios hostis envolvidos pela natureza e os destroços das regiões de Tóquio são ainda mais belos de apreciar e investigar, incluindo os seus personagens e demónios que ficaram mais vibrantes com esta nova evolução visual.

A série inspira-se nas religiões e mitologias, principalmente no Cristianismo. Incluindo a criação dos seus personagens.

O único aspeto negativo são sem dúvida as várias quedas de frames que aconteçam durante alguns momentos, fazendo-se notar algumas limitações gráficas da híbrida de Nintendo. A banda sonora no geral continua a seguir o mesmo percurso dos seus antecessores, mantendo a mesma energia, principalmente nos temas focados nos combates.

O lançamento de Shin Megami Tensei V veio no momento certo para iluminar o ano de 2021 entre os poucos sucessos do género RPG. Continua a deixar a sua marca com a sua característica particularidade desafiante, conseguindo comprovar como uma fórmula que nasceu em 1992 pode ainda ser aperfeiçoada e continuar fiel a si mesma sem deixar de corresponder a todas as expetativas que temos para com o universo da série. Os seus combates e grafismos cativantes estão também ao lado de um enredo que persiste em recordar aos jogadores as questões que usurpam a nossa época. Tudo isso, é o suficiente para invadirmos o mundo de Shin Megami Tensei V e mais uma vez recomendar este título que chegou no dia 12 de Novembro à Nintendo Switch.

Interessado em videojogos com o gosto acentuado para JRPG, está presente na equipa do OtakuPT desde 2013 com o propósito de acompanhar e informar sobre o que de melhor se faz na área do entretenimento gamer.