O “Survivor Horror” é um género que tem como principal propósito produzir na mente dos jogadores a sensação de sobrevivência, mistério e terror. Esta base cimentada em particular pelo produtor Frédérick Raynal em “Alone in the Dark”, conseguiu criar o seu caminho e fermentar o que hoje é originalmente conhecido como a fórmula “survivor horror”, por meio de jogos de culto como Resident Evil e Silent Hill. Com estes mesmos artifícios, o estúdio espanhol Protocol Games surgiu com a sua primeira experiência Song of Horror, um indie de terror e sobrevivência jogado na terceira pessoa que se divide por vários episódios, presenciados com uma história e jogabilidade que foram beber a clássicos de terror e de obras “Lovecraft” que nos situam num drama sombrio e num ambiente que integra tanto o bizarro como o aterrorizante.

A história de Song of Horror começa no ano de 1998 com Daniel Noyer, um assistente com adversidades ligado ao alcoolismo, que a pedido do editor decide investigar o desaparecimento do conceituado escritor Sebastian P. Husher. Levado à propriedade da família Husher, ao seguir o som de uma caixa de música, cuja melodia misteriosa parece provocar alucinações e pesadelos, o assistente acaba por desvanecer sem deixar rastos.

A partir deste momento, Song of Horror apresenta ao longo dos episódios uma experiência dinâmica e assustadora. Em cada episódio, vamos percorrendo alguns cenários habituais nestas temáticas que vão desde uma mansão assombrada, um hospital psiquiátrico a uma loja de antiguidades, onde vamos relacionando e assumindo um elenco versátil que está interligado especialmente pela investigação sobre uma misteriosa caixa de música amaldiçoada. Entre estes caminhos, a narrativa vai-se alterando ligeiramente dependendo das personagens que sobrevivem e de quais escolhas que forem feitas, desenvolvendo uma experiência distinta ao longo do jogo para cada jogador. Cada um dos protagonistas está construído sobre as suas próprias estatísticas: força, furtividade, velocidade e serenidade. Apesar de não conseguirmos atacar ou defender, cada uma das características pode ser benéfica no momento em que encaramos os inimigos que nos aterrorizam. Um personagem com mais força, por exemplo, num tipo de Quick Time Event (QTE) consegue empurrar e bloquear portas com mais eficiência quando as entidades a tentam atravessar, enquanto personagens com serenidade mais elevada, são capazes de manter a calma e controlar melhor a respiração sempre que ameaça se aproxima.

Os movimentos pesados e os ângulos de câmera fixa dos personagens proporcionam uma sensação mais tradicional do terror de sobrevivência. Embora esta abordagem pareça arcaica para um título lançado primeiramente no Halloween de 2019, foi uma aposta corajosa do estúdio que aumenta a dificuldade intencionalmente, complementando os eventos sobrenaturais que ocorrem durante a experiência.

Relacionado com os eventos sobrenaturais, a equipa da Protocolo Games decididamente conseguiu acertar ao criar uma entidade ameaçadora conhecida como “The Presence”. Apesar de não ser a única figura ameaçadora, esta criatura tentacular cercada pela escuridão é o principal antagonista do jogo que durante os episódios se vai revelando das mais variadas formas. “The Presence” com base nas nossas acções em jogo, como uma rotina, consegue alcançar e despertar todos os tipos de fenómenos paranormais, que vão desde múltiplos braços que nos tentam puxar para escuridão ou portas a fechar e abrir, até lâmpadas que explodem inesperadamente.

Para ampliar a ansiedade e o suspense, os personagens também têm um medidor de medo que aumenta a partir de atividades fora do normal. Este medidor representado pelos batimentos cardíacos dos personagens, em consequência, caso não consigamos reprimir o medo, o ambiente que nos rodeia é desfigurado pela escuridão, podendo tornar-se denso ou com temperaturas baixas, escondendo-nos num local seguro, levando o personagem à morte em última instância.

Ao contrário da maioria dos títulos de terror, em Song of Horror, encarar a morte é um estado de morte permanente (Permadeath). Isto é, quando perdemos um dos personagens disponíveis, este não retorna à vida. O seguinte protagonista que selecionarmos vai continuar a investigação e com isso, encontrar todas as ações que o anterior deixou executadas, (portas destrancadas, quebra-cabeças resolvidos e ainda encontrar os objetos da vítima). Contudo, caso todos os personagens jogáveis por episódio morram, o capítulo é reiniciado e teremos de fazer tudo novamente. Este pormenor curioso promove uma agradável insegurança em jogo, deixando-nos ainda mais atentos e ansiosos nos momentos em que escutamos à porta, ou quando ouvimos o desconhecido.

Como parte do modelo terror de sobrevivência, temos também uma variedade de quebra-cabeças por solucionar e de documentos para descobrir que serão indispensáveis para apurar a investigação. Uma exploração atenta sobre os locais será relevante para percebermos as pistas que neles se encontram, para além dos itens que vamos adquirir que serão necessários para resolver os desafios. Em alguns casos vamos descobrir chaves, procurar fusíveis que servem para recuperar a eletricidade, enquanto que em outros, teremos de desvendar enigmas mais complexos no qual a lógica e a ajuda de uma folha e de um lápis para recolher apontamentos, serão uma mais-valia para os decifrar. Tal como em jogos como Silent Hill, ler os documentos que encontramos ajuda o jogador a compreender todos os elementos narrativos da investigação e aprofundar o conhecimento sobre os personagens.

A sonoridade é um dos pontos vitais em Song of Horror que dá vida a um clima arrepiante que sentimos permanentemente. O silêncio que por vezes se torna numa atmosfera ofegante é auxiliada por sons de fundo tais como choros angustiantes, passos vindos de outros lugares ou por ruídos do pavimento e da canalização envelhecida que se manifestam nos momentos que menos esperamos. Também temos um voice acting em inglês que faz muito bem o seu trabalho. As vozes escolhidas são boas e conseguem transmitir a emoção nos eventos.

Em contrapartida, Song of Horror demonstra ser um jogo datado no que toca ao grafismo. Apesar do excelente uso da luz em cenários sombrios não ser decepcionante quanto ao seu pormenor com fortes inspirações em obras como Resident Evil ou até Obscure, nas suas cinemáticas vemos uma carência de qualidade comparativamente aos restantes elementos. Texturas fracas, modelo dos personagens com feições estranhas ou portas fantasmas que até se podiam adequar em contexto mas não é o caso. Independentemente destas pequenas lacunas, observamos um ótimo trabalho no que diz respeito à entrega de uma sensação aterrorizante ao longo do título, sendo evidentemente o seu principal objetivo.

Esta apreciação que a Protocol Games demonstrou pelo género, faz com que Song of Horror em nenhum momento consiga ser decepcionante. Ter oportunidade de jogar um título de terror que se reinventa tão bem com uma fórmula que até hoje foi utilizada por grandes produtoras das mais variadas formas, e que mesmo assim, não nos deixou de surpreender pela positiva. Apesar da sua presença visual ter os seus defeitos, investigar locais assombrados com ambientes inquietantes onde o medo se torna iminente e aliando isso a uma história envolvente, são mais do que motivos suficientes para nos deixar agarrados ao comando para descobrir os mistérios por detrás da misteriosa caixa de música. Todas estas características fazem de Song of Horror um jogo imperdível para quem aprecia sensações empolgantes e aterradoras.

Lançado pela Raiser Games, Song of Horror está disponível para PC Steam, PlayStation 4 e Xbox One.

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Mathilda Cohle
Mathilda Cohle
7 , Junho , 2021 19:09

Pra quem curte Survival Horror Hardcore, é um jogão. Fica a recomendação também de Devotion (saiu das lojas por conta de polêmicas com a China) e Visage (melhor jogo de terror do ano passado e quase com a proposta do Silent Hill PT praticamente)

Ricardo Martins
Ricardo Martins
Reply to  Mathilda Cohle
7 , Junho , 2021 20:15

Concordo. Pode afastar alguns jogadores que estão habituados às mecânicas mais modernas dos Survival Horror. Estou a gostar bastante do jogo, hardcore sem duvida, ao mínimo erro é fatal. Obrigado pelas dicas, vou sem dúvida espreitar ambos os jogos.