Tales of Eternia é um dos contos que mais debate gerou entre os fãs de Tales of Series, quanto mais não seja devido à sua distribuição. Lançado entre 2000 e 2001 apenas no Japão e na América do Norte, chegou à Europa alguns anos mais tarde, numa versão para a PlayStation Portable por cortesia, imaginem, da Ubisoft, antes de desaparecer completamente do radar por quase duas décadas. O título do jogo também contribuiu para tornar a sua história mais complicada. O jogo foi lançado na América do Norte com o nome Tales of Destiny II, apesar de não ter qualquer relação com o anterior Tales of Destiny, por dois grandes motivos, um para apelar ao público de Tales of Destiny e o segundo devido ao facto de “Eternia” ser uma trademark da Mattel associada aos brinquedos de He-Man and the Masters of the Universe. No entanto, Tales of Destiny 2 chegou mesmo a ser uma verdadeira continuação, embora apenas ao Japão, em 2002.
Em suma, a própria existência deste jogo é uma questão que a Bandai Namco Entertainment e a TOSE decidiram esclarecer através de uma edição remasterizada. Uma escolha que, convenhamos, também gera controvérsia, uma vez que existem outros títulos da série, como o já referido Tales of Destiny 2 e Tales of Rebirth, que nunca chegaram sequer a ser localizados, enquanto os fãs aguardam ansiosamente por um novo capítulo moderno da série. Posto isto, até que ponto pesam todas estas questões nesta edição moderna? Vale a pena jogar Tales of Eternia duas décadas depois?
Apesar da sua simplicidade narrativa, Tales of Eternia continua a ser um dos capítulos mais memoráveis da série na minha opinião. Um elenco reduzido não é fator contraproducente como muitos podem pensar, pelo contrário, um elenco modesto beneficia de dinâmicas e interações bem mais trabalhadas, sólidas e convincentes. Toda a aventura tem o doce sabor dos JRPG da era de 32 bits, especialmente se jogaram a saudosa série WILD ARMS na PlayStation. Nesta época, os jogos não se perdiam com subtilezas existenciais ou agendas, porém abordavam temas relevantes com alguma delicadeza, tais como a discriminação e a xenofobia, que são uma constante com a Meredy, uma das personagens principais da aventura.

A história acompanha outras três personagens principais, às quais se juntam, mais tarde, outras “secundárias”, de forma mais ou menos temporária. O grupo viaja entre dois planetas para impedir uma catástrofe, descrita como “Great Fall”. Nesta realidade o mundo está dividido entre Celestia, uma realidade tecnologicamente sofisticada, e Inferia, muito mais atrasada e com características quase medievais. É precisamente em Inferia que certo dia cai uma cápsula espacial na qual viajava a já referida Meredy que os protagonistas Reid, Farah e, mais tarde, Keele decidem acolher e proteger. Esta dinâmica é interessante porque os três são amigos de longa data. Por isso, o jogo não perde tempo a construir uma relação de confiança entre o trio, que se revela desde logo espontânea e natural. Meredy, por sua vez, não fala inicialmente a língua dos restantes protagonistas, mas acaba por se integrar gradualmente com Quicky, que apesar de ser coelho é azul e não é louco por achocolatados.
Ao longo da aventura, os protagonistas partem em busca dos espíritos elementais, aqui conhecidos como Great Craymels, que governam os dois planetas, na esperança de conquistar o seu favor e descobrir quem está por detrás da ameaça antes que também deflagre uma guerra. Entre pequenas histórias associadas a cada espírito e um arco narrativo mais abrangente, talvez um pouco previsível, Tales of Eternia Remastered afirma-se como um JRPG do mais tradicional, quer em termos narrativos como estruturais. A progressão divide-se entre a exploração de pequenas localidades, masmorras e mapa-mundo. A progressão é bastante linear, embora existam alguns momentos em que o jogador pode dedicar-se a missões secundárias e a vários minijogos, que incluem o infernal minijogo de dança de Meredy. Muitos destes conteúdos estão agora assinalados através de um novo sistema de indicações, criado especificamente para esta edição e que pode ser desativado a qualquer momento, caso o jogador prefira explorar o mundo por conta própria. Os textos foram revistos e, nesta remasterização, estão mais próximos da versão original. Pela primeira vez, podemos também ouvir o áudio original japonês, que inclui os skits, com uma qualidade de som superior. As vozes inglesas foram igualmente regravadas para esta edição. No entanto, não existe localização dos textos em português do Brasil, e estão disponíveis apenas em inglês e noutras línguas europeias e asiáticas.
A versão remasterizada inclui também o habitual conjunto de funcionalidades que permitem personalizar a experiência de jogo. É possível alterar a frequência dos combates, multiplicar a quantidade de gald e de pontos de experiência obtidos nas batalhas, melhorar de diferentes formas as capacidades das personagens em combate ou na cozinha, entre outras opções. Também é possível alternar, a qualquer momento, para a versão original do jogo sempre que a nostalgia falar mais alto. No entanto, esta opção acaba por evidenciar as limitações técnicas próprias da época. À exceção do mapa-mundo em miniatura e de alguns efeitos visuais bastante rudimentares, o jogo é praticamente todo apresentado em 2D, o que torna os cenários e os sprites visivelmente pixelizados, mesmo na versão remasterizada.

A apresentação visual é, aliás, um dos aspetos mais controversos desta reedição mesmo no PC. Embora o jogo suporte resoluções 4K e algumas opções gráficas, o tratamento para suavizar a imagem ficou aquém do esperado. Alguns cenários apresentam um efeito de desfocagem excessivo, enquanto os sprites das personagens permanecem praticamente inalterados e contribuem para um contraste visual pouco harmonioso entre os diferentes elementos. Em vez de disfarçar a idade do original, esta abordagem acaba por evidenciá-la, e deixa a sensação de que a Bandai Namco Entertainment poderia ter investido num trabalho de restauro mais consistente, mesmo por Ia, mas que fosse capaz de preservar a identidade artística do jogo.
Contudo, as críticas não se prendem apenas ao grafismo. A ausência de algumas funcionalidades presentes em versões anteriores, nomeadamente o multiplayer local da edição original para a PlayStation, também levanta questões sobre as prioridades desta reedição. Embora as opções adicionais para personalizar a experiência de jogo sejam bem-vindas, fica a sensação de que esta remasterização poderia ter ido mais longe. Porque, a meu ver, preservar um clássico significa não só torná-lo acessível nas plataformas atuais como também encontrar formas de melhorá-lo sem comprometer o que o tornou especial. Sem surpresas, é seguro afirmar que estamos perante um jogo tecnicamente datado que poderia beneficiar de um polimento mais cuidado.
A idade de Tales of Eternia também se reflete no sistema de combate da série, conhecido como Linear Motion Battle System (LMBS). Em Tales of Eternia Remastered, é inicialmente servido como um tutorial e apresenta a variante “Aggressive”, uma evolução do sistema utilizado em Tales of Destiny, que está longe de apresentar a sofisticação, as funcionalidades e os acrescentos que transformaram o sistema ao longo das duas décadas seguintes, durante as quais chegou inclusivamente a receber diferentes designações. Em Tales of Eternia, o sistema é simples e direto. Os encontros aleatórios dão origem a combates disputados exclusivamente num plano horizontal, no qual se movimentam os quatro sprites da equipa e os respetivos inimigos ou bosses. O jogador controla diretamente apenas uma personagem, enquanto as restantes três ficam entregues ao CPU que segue instruções genéricas ou ordens dadas através de um menu contextual em qualquer momento do jogo.
Os controlos incluem um botão dedicado aos ataques, que pode ser combinado com diferentes direções para executar diversos movimentos, e outro para defender e reduzir parcialmente o dano recebido. Também existem várias combinações de botões e atalhos que permitem utilizar habilidades especiais que são desbloqueadas à medida que as personagens sobem de nível e utilizam os ataques e as técnicas que já aprenderam.

O início pode ser algo desanimador. A mobilidade limita-se à corrida e ao salto, enquanto a escassez de golpes disponíveis dificulta a execução de combinações de ataques. Como resultado, os combates parecem pouco fluidos e até desajeitados. No entanto, à medida que avançamos, o sistema ganha alguma profundidade, com o desbloqueio de funcionalidades adicionais, habilidades mais elaboradas que permitem encadear ataques com maior facilidade e feitiços de alvo único ou de área que incluem invocações bem conhecidas pelos fãs da série. Apesar das diferenças entre as personagens e das particularidades de cada em combate, Tales of Eternia continua a ser um JRPG bastante básico no que diz respeito à gameplay. É uma espécie de aperitivo da série que conhecemos atualmente e constitui um caso de estudo incontornável para compreender as suas origens.

Tales of Eternia Remastered é difícil de recomendar ao jogador comum. No entanto, para os fã de Tales of Series que desejam descobrir as raízes considero-o imprescindível, apesar dos seus problemas e limitações. Este capítulo dá-nos a oportunidade de revisitar uma era marcante para o género, mas a sua idade e uma remasterização pouco ambiciosa acabam por deixar escapar a oportunidade de oferecer um produto melhor. Tales of Eternia Remastered não vem para revolucionar a série, mas permite que um dos seus capítulos mais marcantes continue vivo e afirmar-se como um importante esforço de preservação nas celebrações do 30.º aniversário da série.












