Durante muitos anos, parecia impensável que The Legend of Heroes conseguisse acompanhar no Ocidente o ritmo dos lançamentos japoneses. Pelo caminho ficaram arcos inteiros que nunca chegaram a ver a luz do dia fora do Japão, numa altura em que os JRPG pareciam condenados a um nicho cada vez mais reduzido. Muito se tem falado da NIS America e das suas traduções polémicas, mas se há algo que dificilmente pode ser colocado em causa é o seu compromisso inabalável com a série The Legend of Heroes.
Num espaço de apenas três anos, a NIS America alcançou um feito verdadeiramente admirável, a ousadia de lançar no Ocidente títulos com volumes massivos de texto, sem deixar nenhum capítulo pelo caminho para finalmente alinhar o público ocidental com o lançamento mais recente da série. The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon chegou ao Japão em 2024 como parte das celebrações dos 20 anos da série para não só representar um marco histórico, como também a convergência de duas décadas de narrativa contínua. Para os fãs de longa data, este é o culminar de uma viagem marcada por emoções intensas, grandes revelações e pela consolidação de um dos sistemas de jogo mais refinados e completos do género.
Os acontecimentos que envolveram o tenebroso Crimson Grendel pertencem agora ao passado. Atualmente, todos os holofotes de Calvard estão apontados para o Presidente da República, Gramheart, e para o seu ambicioso projeto, o Project Startaker, uma operação cujo objetivo é lançar um foguetão para o espaço e, a longo prazo, enviar uma pessoa para o espaço exterior pela primeira vez na história do continente de Zemuria e explorar o que existe para lá do horizonte. No meio de toda esta agitação, Van e a Arkride Solutions são chamados aos escritórios da Marduk para ajudar a testar uma nova tecnologia de shards.
Contudo, como já é habitual na série, The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon não se centra exclusivamente apenas numa personagem principal. Rean Schwarzer, Altina Orion e Kevin Graham, personagens centrais dos arcos de Liberl e Erebonia, são igualmente convidados a experimentar esta nova tecnologia. Tal como em The Legend of Heroes: Trails into Reverie e The Legend of Heroes: Trails Through Daybreak II, a narrativa desenvolve-se a partir das perspectivas das equipas de Van, Rean e Kevin, e cada conta com objetivos específicos a cumprir à medida que o Project Startaker se aproxima cada vez mais da sua concretização.

The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon decorre, maioritariamente, três dias antes do Project Startaker poder avançar. É possível escolher seguir o percurso de Van Arkride, enquanto investiga o surgimento de um novo culto em Edith, à procura de um “novo amanhecer”. Este conceito faz bastante sentido e permite unir várias pontas narrativas soltas quando é associado ao nome original do arco da República de Calvard, Kuro no Kiseki, que em inglês se traduz em algo como Trails Before Dawn.
Tal como já foi referido, Rean Schwarzer possui também um arco narrativo próprio onde reúne com alguns dos seus antigos colegas da Classe VII para ajudar a preparar as forças militares antes do lançamento do foguetão. Por último, Kevin Graham, uma das personagens mais aguardadas pelos fãs regressa finalmente ao ativo e contrata Rufus e a sua companhia para o ajudarem a localizar um novo inimigo da Igreja.
Em termos narrativos, The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon avança a um ritmo mais contido, muito devido à enorme bagagem de arcos anteriores. Tradicionalmente, nos jogos The Legend of Heroes, o primeiro título de um arco serve como preparação e o segundo como execução. No entanto, dado que o jogo anterior foi fortemente focado no desenvolvimento das personagens, podemos afirmar, sem grandes dúvidas, que The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon aqui assume claramente o papel de jogo de execução. Nesse sentido, produz um efeito semelhante a The Legend of Heroes: Trails in the Sky the 3rd e The Legend of Heroes: Trails into Reverie. Por isso, deixo o apelo a todos os jogadores que estejam a descobrir a série pela primeira vez, este não é, de todo, o vosso ponto de entrada. Para os veteranos, The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon é um verdadeiro prato cheio. Quem acompanha a joia da coroa da Nihon Falcom Corporation desde o seu início pode esperar momentos absolutamente memoráveis dotados de um peso narrativo tremendo.
Como se isso não fosse suficiente, o fluxo do jogo é significativamente superior ao do episódio anterior, sendo que um dos seus aspectos mais sólidos são os eventos de ligação. Estes eventos consistem em situações onde um dos protagonistas interage com outro membro do grupo e recebe pontos que fortalecem o vínculo entre ambos. The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon aprofunda ainda mais esta estrutura o que resulta em eventos de ligação extremamente bem conseguidos, que contribuem de forma significativa para o desenvolvimento das personagens. O mesmo se pode dizer das atividades secundárias, que estão bem distribuídas por cada grupo de personagens. O sistema de alinhamento “Law”, “Gray” e “Chaos” regressa para avaliar as decisões do jogador em algumas destas atividades, embora, infelizmente, continue sem ter um impacto direto na história principal.

No seu todo, The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon apresenta uma narrativa fantástica e coesa, onde é difícil apontar falhas estruturais. O jogo não só encerra de forma satisfatória os conflitos internos de Rean, como continua a explorar a moral “cinzenta” de Kevin e expor os males da Sociedade, ao mesmo tempo que desenvolve Van como uma personagem muito mais completa, graças às suas experiências na Arkride Solutions. A evolução das personagens do início ao fim é absolutamente soberba e prova de que uma narrativa de longo prazo pode proporcionar algumas das experiências mais emocionais nos videojogos. O jogo aborda ainda vários enigmas e mistérios da série para antever muito mais, já que este é verdadeiramente o início do fim de algo que nos acompanha há mais de duas décadas.
Grande parte desses mistérios é revelada através do Grim Garten, uma nova vaga de masmorras aleatórias introduzida após o Reverie Corridor. O espaço virtual do Marchen Garten de The Legend of Heroes: Trails Through Daybreak II foi hackeado pela Sociedade Ouroboros e foi transformado no Grim Garten. À semelhança do epílogo dos primeiros arcos da série, é possível formar um grupo personalizado e enfrentar pisos aleatórios distribuídos por vários Domains. A progressão mantém-se essencialmente inalterada, mas o layout dos Domains assume agora a forma de um jogo de tabuleiro. O jogador move o avatar da equipa turno a turno até chegar ao boss do Domain, normalmente um monstro poderoso ou um membro da Ouroboros. Foram também adicionados elementos típicos de roguelites, tais como “casas” que oferecem itens e recursos aleatórios, mira, equipamento e até shards. Caso as condições não sejam favoráveis, é possível sair e repetir o Domain.
Embora o Grim Garten seja conteúdo opcional, a sua conclusão é altamente recomendada, pois inclui material extremamente relevante para a história principal e para várias personagens do continente de Zemuria. Revelar mais seria estragar a surpresa, mas posso assegurar que o esforço vale a pena, especialmente para quem acompanha a série desde 2004. Estes momentos são tão importantes que o próprio jogo alerta para a possibilidade de perder cenas específicas caso não se avance devidamente na história principal. Felizmente, Altina avisa sempre que um novo Domain do Grim Garten fica disponível.
Para além dos Domains, o Grim Garten oferece uma grande variedade de conteúdos adicionais, que incluem minijogos de póquer e blackjack com Jack e Halle, batalhas de desafio na Grim Arena e novas áreas de pesca. A Slab of Reminiscence do True Reverie Corridor regressa sob a forma do Reminiscence Pedestal e permite aos jogadores consultar lore recolhido no Grim Garten através das Memento Orbs. Estas desbloqueiam gravações de eventos passados ao longo da série e oferecem contexto adicional para acontecimentos específicos.
À medida que avançamos no jogo, acumulamos Grim Tokens, utilizados no sistema de Grimoire Decryption para decifrar Grimoires, e são equivalentes aos Mystic Cubes abertos repetidamente por Mare. Desta vez, o processo é bastante menos moroso e funciona de forma semelhante ao Unsealing Pedestal de Reverie, felizmente permite desbloquear várias recompensas de uma só vez com um simples toque de botão. Fiquei extremamente satisfeito com o conteúdo oferecido pelo Grim Garten, embora tivesse apreciado a inclusão de mais Mementos no Reminiscence Pedestal. The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon, tal como os seus antecessores, é um jogo com uma quantidade massiva de informação, e o Grim Garten revela-se uma excelente ferramenta para relembrar os eventos mais importantes, que certamente terão consequências significativas no futuro da série.

Para além da narrativa e do worldbuilding, a série The Legend of Heroes é também amplamente reconhecida pelo seu sistema de combate. Desde a introdução do sistema híbrido em The Legend of Heroes: Trails Through Daybreak, que a Nihon Falcom Corporation tem vindo a aperfeiçoá-lo progressivamente. Neste capítulo, encontramos o sistema de batalha mais completo até à data, e a meu ver um dos melhores do género. As Field Battles deixaram de ser meramente experimentais e oferecem agora maior versatilidade, com combos mais poderosos, o regresso da barra de stun, das EX Actions e a introdução de novas mecânicas que elevam tudo a um novo patamar. A mecânica de Awakening permite utilizar a barra de Boost para entrar num estado de poder aumentado nas Field Battles e causar enormes quantidades de dano em pouco tempo o que evita batalhas por turnos desnecessárias. No caso de Van Arkride, esta ativação resulta na transformação imediata do Grendel, e Rean na sua unificação. Combinada com o regresso das Quick Arts, esta mecânica torna as Field Battles verdadeiramente viáveis durante grande parte do jogo enquanto equilibra o ciclo da gameplay. Embora ainda exista margem para melhorias, este é, sem dúvida, o ponto mais sólido do sistema até agora.
O sistema de Orbment regressa com uma vasta seleção de Quartzes que oferecem bónus de atributos e Shard Skills passivos que se ativam automaticamente através da SCLM Chain. Estas habilidades revelam-se especialmente poderosas nas Command Battles e permitem criar personagens extremamente fortes com builds específicas. Entre as novas adições destaca-se a Z.O.C (Zone of Control), que abranda o tempo momentaneamente para surpreender inimigos nas Field Battles. Nas Command Battles, é ativada através do S-Boost a troco de 2 barras. Cada personagem pode efetuar até dois boosts, sendo o segundo responsável por ativar a Z.O.C e conceder um turno extra imediato, algo extremamente gratificante se o juntarmos após a execução de uma EX Chain.

Com tantas opções de combate e um vasto elenco jogável, a profundidade estratégica é enorme. As Brave Orders, introduzidas em The Legend of Heroes: Trails of Cold Steel III, regressam sob a forma de Shard Commands, que consomem o medidor de S-Boost. Tal como anteriormente, também os inimigos podem recorrer a estas habilidades para aumentar significativamente o desafio, algo que senti de forma particular ao iniciar a aventura na dificuldade “Nightmare”, onde alguns confrontos, especialmente contra bosses, se revelaram implacáveis. Outra novidade é o sistema BLTZ, que surge como um bónus de AT em determinados turnos. Quando ativo, permite desencadear BLTZ Chains ou BLTZ Supports. Embora útil, não considero que seja excessivamente poderoso, e como um todo julgo necessita ainda de algum refinamento e uma melhor inserção.
No seu conjunto, o sistema de combate de The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon está muito próximo da sua perfeição e representa a culminação de anos de experimentação. Para quem desejar um primeiro vislumbre, a demo de PC já se encontra disponível e permite transitar todo o progresso para o jogo completo que inclui os achievements dentro e fora do jogo. Durante o meu tempo com a demo, consegui desbloquear várias proezas que incluíram a classificação de batalha “5.0” um feito que exige domínio absoluto de praticamente todas as mecânicas novas e clássicas da série, é possível obterem no prólogo mas exige bastante preparação, conhecimentos e alguma sorte.
Quer a demo como a versão final para PC (Steam) ficaram a cargo do reconhecido Durante e da equipa da PH3, e resulta numa conversão de consola para PC tecnicamente exemplar. O jogo disponibiliza um conjunto robusto de opções gráficas e de escalabilidade, que inclui o suporte para resoluções arbitrárias, taxas de FPS desbloqueadas, controlo granular de efeitos de renderização, ajustes avançados de qualidade visual, tais como sombras por PCSS, e compatibilidade com as tecnologias Intel XeSS e NVIDIA DLSS 4.5. A rápida implementação desta última foi disponibilizada aos jogadores em menos de uma semana o que evidencia não só a elevada competência técnica da equipa contratada pela NIS America, como também a sua capacidade de resposta às mais recentes evoluções do ecossistema de hardware para PC.

Tal como nos episódios anteriores, a personalização de entradas foi desenvolvida especificamente para PC, e integra um modo “Free Look” optimizado para o rato, um conjunto alargado de atalhos de teclado, navegação integral dos menus apenas com o uso do rato e indicações dinâmicas de botões que refletem os mapeamentos personalizados.
Do ponto de vista da optimização, The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon apresenta um desempenho extremamente sólido e consistente. O jogo demonstra um excelente equilíbrio entre a carga de processador e da placa gráfica o que evita congestionamento mesmo em cenários com elevada densidade de NPCs, geometrias e múltiplos efeitos ativos em simultâneo. O frame pacing mantém-se estável ao longo de praticamente toda a experiência, com frametimes uniformes com 1% lows baixíssimos, por isso podem ficar descansados que a vossa estadia em Calvard vai ser sem stutters, mesmo durante transições de áreas ou situações mais exigentes, tais como batalhas caóticas repletas de elementos.
Em termos de compatibilidade, o jogo corre de forma fluida quer em sistemas portáteis, tais como a Steam Deck e a ROG Ally, até dispõe de perfis específicos para a máquina da Valve, como em PC de secretária ou portáteis com vários anos de uso. Em hardware de gama média, é possível atingir 60 FPS estáveis com definições elevadas, enquanto sistemas mais antigos beneficiam claramente da escalabilidade oferecida pelas múltiplas opções gráficas disponíveis. Os tempos de carregamento são reduzidos através da cache de recursos dedicada, e não foram detectados problemas de shader compilation stutter, numa unidade SSD NVMe externa ligada através de um Cabo USB-C, um aspecto crítico em muitas conversões recentes para PC de qualquer perfil.
Nos testes efetuados na vossa já bem conhecida configuração, foi possível jogar com todas as opções gráficas no máximo, a 4K nativo e 144 FPS estáveis durante praticamente todo o tempo. O desempenho revelou-se maioritariamente através da placa gráfica, com o processador a apresentar margens confortáveis mesmo em zonas mais congestionadas. Ao ativar a NVIDIA DLSS 4.5 no perfil “M”, verificou-se uma descida acentuada da taxa de FPS, com valores a oscilar entre os 114 e 120 FPS nas áreas mais exigentes, tais como a cidade de Edith que neste capítulo apresenta uma maior densidade de assets, novos locais, tais como o distrito de Lévre, NPCs e elementos de cenário. Este comportamento sugere que, em resoluções elevadas e mesmo com hardware de elite a utilização da NVIDIA DLSS 4.5 pode introduzir overhead adicional desnecessário, sendo mais vantajoso continuar a optar pela NVIDIA DLSS 4.

Em cenários de hardware menos potente, tais como um PC portátil com um chipset NVIDIA 3070 e 8GB de Memória RAM, a NVIDIA DLSS 4 revela-se eficaz para estabilizar o desempenho e permite atingir targets de 60 FPS ou superiores sem comprometer significativamente a qualidade de imagem. A ausência de artefacting visível e a boa preservação de detalhe tornam a implementação tecnicamente competente, mesmo com o modelo transformer da geração anterior, infelizmente o jogo não dispõe de suporte AMD FSR, mas é possível utilizar ferramentas de terceiros, tais como a Optiscaller para habilitar tecnologias de SuperSampling em outros sistemas.
No meio de tanta modernização também foram implementados recursos de renderização alternativos para garantir compatibilidade com placas gráficas “Legacy”. A compatibilidade com o Windows 10 e sistemas operativos baseados em Linux, tais como o SteamOS também não apresentou erros ou inconsistências de compatibilidade.
No seu conjunto, a versão PC de The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon estabelece um novo patamar de qualidade para as conversões da série e de jogos de PC. Trata-se de uma port altamente escalável, estável e bem optimizada, que beneficia quer utilizadores de hardware recente como de jogadores com sistemas Legacy mais modestos. A combinação de excelente frame pacing, opções gráficas abrangentes e suporte rápido para tecnologias modernas faz deste lançamento um exemplo a seguir no que diz respeito a adaptações de consola para PC.

The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon teve o seu lançamento original no Japão em setembro de 2024, o que foi antecedente a Trails in the Sky 1st Chapter. Este enquadramento temporal reflete-se claramente na sua apresentação visual, uma vez que o jogo não beneficia do mesmo nível de modernização gráfica, polimento técnico e reestruturação de assets presente no remake que marcou o início da série. Em particular, as texturas apresentam uma resolução mais contida, os normal maps são menos detalhados, existem carregamentos entre áreas, e as animações faciais e corporais revelam mais “robótica” e menor complexidade quando comparadas com o projeto mais recente.
No entanto, quando analisado isoladamente ou em comparação direta com o capítulo anterior, The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon demonstra uma evolução consistente. As animações de personagens exibem novas transições nas Crafts e uma maior variedade de movimentos contextuais no cômputo geral, os modelos 3D beneficiam de pequenos refinamentos ao nível da geometria, menos triângulos e objetos mais naturais, melhores texturas, e rigging para suavizar as já citadas novas animações, o pipeline de iluminação também foi claramente melhorado. A introdução de sistemas de luz e sombra mais dinâmicos, que incluem sombras mais definidas, melhor gestão de iluminação ambiental e um uso mais eficaz de fontes de luz localizadas, contribui para uma maior sensação de profundidade e vida nos cenários urbanos e naturais da República de Calvard.

O level design também tira melhor partido destas melhorias, com ambientes familiares que à partida parece ser os mesmos, mas que na lupa revelam ser ligeiramente mais densos e com uma maior disposição de assets parar transmitir maior dinamismo às cidades, masmorras e outras zonas exploráveis. No entanto, estamos perante um jogo “AA” composto por uma equipa modesta por isso continua assente no mesmo motor e a recorrer soluções técnicas conservadoras em termos de post-processing, com efeitos como ambient occlusion, anti-aliasing e a manterem-se discretos e funcionais, longe de experiências mais atuais ou modernas.
Contudo, a direção artística do jogo lapida este pequeno inconveniente. A escolha por uma paleta cromática mais sóbria e por uma estética menos saturada e adulta confere identidade própria à República de Calvard, mas acaba por acentuar o contraste face ao estilo mais vibrante, colorido e assumidamente anime de Liberl. Admito que esta abordagem visual, embora coerente com o tom narrativo mais político e urbano deste arco, não provoca o mesmo impacto imediato, sobretudo para quem, como eu, ficou particularmente marcado pela expressividade visual e pelas cores mais vivas do primeiro episódio da aventura dos irmãos Bright.
A sonoplastia de Calvard reforça igualmente a identidade própria deste arco, ainda que grande parte da banda sonora recorra a melodias provenientes de jogos anteriores, temas que, importa sublinhar, continuam a ser absolutamente brilhantes, apesar de inexplicavelmente permanecerem ausentes das grandes celebrações da indústria, como os eventos de videojogos apresentados pelo “Tio Geoff”.
À semelhança do que acontece na maioria dos títulos da série, são os pianos, guitarras e violinos que ditam o tom musical para criar uma paisagem sonora simultaneamente emotiva e enérgica. É impossível não reconhecer o génio da Falcom Sound Team jdk e de Shuntaro Koguchi, capazes de elevar até um tema de batalha aparentemente modesto, que transita de forma magistral entre progressão e dinamismo graças à sua instrumentalização adaptativa nas Field e Command Battles. Outra melodia que merece destaque é a do menu principal, quase como uma canção de embalar, mas que, simultaneamente, transmite uma sensação de mistério e uma subtil inquietação. No meio de tanta positividade, receio ter de continuar a dar más notícias aos nossos amigos do outro lado do oceano.
O jogo continua sem disponibilizar textos em português do Brasil. Aliás, no que diz respeito à localização, apenas estão disponíveis textos em inglês, bem como áudio nas versões original japonesa e localizada em inglês. Porém para todos os públicos foram implementadas novas funcionalidades que elevam elementos já existentes no outros jogos, tais como a possibilidade escolher as áreas, velocidades e funções do célebre modo turbo e os graciosos salvadores de partida automática que tantas vezes, literalmente, me salvaram o dia.

Parte Técnica da PlayStation 5 – Ricardo M.
Ainda que não ofereça o mesmo nível de personalização gráfica disponível no PC, a continuação do arco de Calvard apresenta-se em excelente forma na PlayStation 5. O jogo permite escolher entre duas opções visuais, o modo Gráfico e o modo Performance. O primeiro foca-se maioritariamente na componente visual, destacando o nível de detalhe presente em vários aspectos, desde os modelos das personagens até às paisagens que compõem o mundo do jogo. Já o segundo privilegia os 60 fps, garantindo uma experiência mais fluida, sobretudo durante as batalhas que se revelam ainda mais dinâmicas do que nos títulos anteriores
Ambos os modos funcionam de forma competente, mas pessoalmente gostei de experienciar as inúmeras sequências narrativas de Trails Beyond the Horizon no modo Gráfico. Este realça a beleza e a energia que o jogo pretende entregar ao longo da jornada, deixando claro que a editora japonesa está a alcançar um patamar cada vez mais interessante, não só ao nível narrativo, mas também no plano gráfico. Mesmo assim, os 60fps não se mantêm sempre estáveis, ocorrendo algumas quebras ocasionalmente que poderão ser notadas pelos jogadores mais atentos.
Para mim, o grande salto neste campo deu-se com o remake de Trails in the Sky mas ainda assim fiquei bastante satisfeito com o que este capítulo nos conseguiu entregar.
Destaco também a sua banda sonora, que volta a trazer uma enorme vivacidade aos momentos mais leves, bem como aos mais intensos e emotivos da aventura. Não tenho qualquer apontamento negativo a fazer neste campo, todas as melodias encaixam na perfeição e elevam constantemente a experiência, funcionando como a cereja no topo do bolo desta grande jornada.
Relativamente ao elenco de vozes, continuo a preferir o áudio japonês, que nos brinda com atuações memoráveis e facilmente marcantes. Para completar, temos ainda o regresso de personagens célebres de outros arcos, como Rean e Crow Armbrust, cuja presença será certamente apreciada pelos fãs de longa data, tais como o próprio autor desta análise.

The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon não é apenas mais um episódio da série, é uma recompensa pela paciência, pela dedicação e pela memória de quem acompanhou esta viagem durante mais de vinte anos. Cada revelação, cada reencontro e cada momento de tensão narrativa carrega o peso de tudo o que veio antes para criar uma experiência profundamente emocional e gratificante. Como tal exige envolvimento, mas que o retribui com alguns dos momentos mais marcantes que o género já ofereceu.
Para os fãs de longa data, este é um daqueles raros jogos que nos fazem parar, respirar e perceber porque nos continuamos a vibrar série mesmo no meio de tantos lançamentos no género. The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon representa o culminar de um legado não só da Nihon Falcom Corporation ou da NIS America, como também de todos os jogadores que trilharam lado a lado caminhos com estas incríveis personagens ao longo de duas décadas e para lá de horizontes de produções com maiores orçamentos.











