Tormented Souls II marca o regresso da série de terror da Dual Effect, surgindo como sequela direta do título de 2021 que conquistou os fãs graças à sua abordagem ao terror de sobrevivência “à moda antiga”. Depois de superar o pesadelo vivido na primeira aventura, Caroline Walker vê-se novamente arrastada para horrores inimagináveis, numa história que aprofunda e expande de forma ambiciosa o universo sombrio criado pelo estúdio chileno.
Em Tormented Souls II, voltamos a controlar Caroline Walker, sobrevivente dos eventos traumáticos no Hospital Wildberger. Depois de salvar a irmã Anna das garras de um culto misterioso, Caroline acredita finalmente poder ter uma vida tranquila. Contudo, a sua paz dura pouco. Anna começa a ter visões perturbadoras e a produzir desenhos inquietantes que, de forma inexplicável, começam a ganhar forma no mundo real. Alarmada com a deterioração da irmã, Caroline a convite de umas freiras parte rumo à isolada cidade de Villa Ness na América do Sul. À primeira vista, tudo parece normal, mas depressa fica claro que algo sinistro se esconde por detrás daquela aparente calma. Uma força obscura regressa para atormentar Anna, obrigando Caroline a enfrentar novos pesadelos num ambiente opressivo e devastador.

Fiel ao espírito do original, a sequela continua a homenagear clássicos como Resident Evil e Silent Hill, mantendo o espírito de terror psicológico ao longo do jogo. Não se limita a replicar a fórmula, assume orgulhosamente as influências e veste-as com um visual moderno proporcionado pelo Unreal Engine. Além disso, consegue novamente captar a atmosfera dos survival horror da era de ouro, com foco na exploração, resolução de puzzles e ambientes claustrofóbicos. Embora recomende jogar o primeiro título para perceber melhor a história e o vínculo entre Caroline e Anna, a sequela foca-se essencialmente num novo mistério, apesar de que, mais uma vez, a motivação principal seja salvar a sua irmã.
Quanto a movimentação mantém parte do estilo tank dos jogos de terror dos anos 90: direcional, metódica e com câmara fixa. Ainda que esta escolha seja propositada, nota-se nesta continuação uma maior fluidez e um ligeiro refinamento que aproxima a sensação de controlo dos padrões modernos. Os jogadores mais habituados a movimentos mais intuitivos poderão ter alguma dificuldade, especialmente durante o combate, mas essa rigidez acaba por contribuir para a tensão e vulnerabilidade que define bem esta experiência de survival horror.
O cenário, centrado entre um mosteiro e uma vila repleta de simbolismo religioso cristão, é um dos seus trunfos. Percorremos por exemplo um convento, uma biblioteca, masmorras, e posteriormente, novos locais como um centro comercial ou um cemitério. Cada um destes locais tem identidade e atmosfera própria, complementados por detalhes que reforçam a sensação de terror e desconforto. A iluminação volta aqui a ser crucial para a sobrevivência, a luz das velas a tremelicar, lâmpadas instáveis e o isqueiro de Caroline são, muitas vezes, a única coisa que impede a escuridão de engolir o ambiente e a ela.

A própria jogabilidade segue à risca os pilares deste género, gestão de inventário, exploração minuciosa, backtracking, combate tenso e puzzles elaborados. Quase tudo no jogo está ligado à resolução de enigmas e não há soluções básicas. Uma porta raramente exige só uma simples chave; frequentemente obriga a vários passos, peças e raciocínios encadeados. A sua natureza exige atenção aos cenários, leitura cuidada aos documentos e interpretação astuta das pistas que encontramos.
Para nos apoiar, temos acesso a um mapa que torna-se indispensável para perceber o que já foi explorado e o que falta desbloquear ou desvendar. A gravação do progresso segue a tradição, nada de auto-saves ou gravações rápidas, sendo que só é possível salvar em locais específicos utilizando um item próprio espalhado pelo jogo. Esta escolha reforça a importância da gestão de recursos, desde as cassetes de gravação até as munições da pistola de pregos ou os escassos itens de cura que mantêm Caroline viva.
Para os veteranos do género, tudo isto será um retorno familiar e confortável, mas essa é precisamente a intenção do estúdio. Tormented Souls II não tenta reinventar a roda mas sim melhorar uma fórmula que sabe dominar. É a evolução natural do primeiro jogo, mais polida, mais ambiciosa e mais consistente.

Nos gráficos vemos que houve um salto de qualidade evidente desde os primeiros minutos de jogo. Os ambientes são bonitos, pormenorizados e beneficiam amplamente do motor gráfico Unreal Engine 5. Na PlayStation 5, o jogo apresenta-se estável, tanto nas cutscenes como durante a jogabilidade. O som é um excelente alicerce desta experiência. Cada ruído, cada sussurro e música contribui para uma atmosfera melancólica e sobrenatural que supera a do jogo original. No entanto, o leque de inimigos acaba por ser demasiado familiar para quem jogou o primeiro título. Embora surja pontualmente uma criatura diferente, a maioria das ameaças apresenta um design demasiado semelhante ao que já conhecíamos. Por fim, é de destacar a presença de legendas em português, sempre útil para acompanhar a história e a resolução de puzzles com maior clareza.
Tormented Souls II é uma sequela que sabe exatamente o que quer ser, um tributo aos clássicos do survival horror. Mantém o espírito do primeiro jogo, reforça os seus alicerces e oferece uma experiência mais polida, coesa e visualmente mais forte. Ainda que contenha alguns elementos menos inspirados, como a limitada variedade de inimigos, o jogo entrega uma narrativa envolvente, uma atmosfera densa e um cuidado notável na construção do seu mundo. Se gostaram da primeira aventura de Caroline, esta nova jornada será certamente mais uma experiência memorável para vocês.










