
A ASUS acaba de confirmar oficialmente aquilo que os rumores antecipavam há semanas, não haverá novos smartphones em 2026. O chairman Jonney Shih anunciou a decisão durante o encontro anual de colaboradores realizado a 16 de janeiro no Taipei Nangang Exhibition Center, confirmando que a empresa “não irá adicionar novos modelos de telemóvel no futuro”.
A formulação cuidadosa da mensagem deixa alguma margem de interpretação. Shih não confirmou se este é um encerramento definitivo ou uma pausa estratégica, mas reconheceu explicitamente essa possibilidade. O que ficou absolutamente claro foi a nova direção da empresa: inteligência artificial, com foco particular em “IA física” através de robótica e óculos inteligentes.
Durante o evento de fim de ano, onde a ASUS distribuiu oito automóveis e múltiplos prémios aos colaboradores, Shih revelou números que justificam a mudança estratégica radical. A empresa alcançou 23,4 mil milhões de dólares em receitas durante 2025, representando um crescimento de 26% comparado com 2024.
Mas é o segmento de servidores de IA que conta a história verdadeira. Este sector cresceu 100%, duplicando as próprias metas internas da empresa. Mais impressionante ainda, os servidores de IA representam agora 20% das receitas totais da ASUS, um número que continua a crescer rapidamente à medida que a procura global por hardware especializado em IA explode.
Quando comparado com o negócio de smartphones, que consistentemente representava menos de 10% das receitas e operava com prejuízo há anos, a decisão de realocar recursos torna-se óbvia do ponto de vista financeiro.
Uma história de nicho que nunca escalou
A ASUS tinha duas linhas distintas de smartphones, cada uma visando mercados específicos. A série Zenfone posicionava-se como alternativa flagship mainstream, enquanto a linha ROG Phone estabeleceu-se como referência absoluta para gaming móvel desde 2018.
O ROG Phone foi pioneiro em muitos aspetos que hoje são standard em telemóveis gaming: sistemas de refrigeração radicais, ecrãs de alta taxa de atualização, ecosistemas de acessórios dedicados. Os modelos Zenfone, particularmente o Zenfone 10, tornaram-se um dos últimos redutos de smartphones compactos premium num mercado dominado por dispositivos cada vez maiores.
Mas reconhecimento crítico não se traduziu em vendas. A quota de mercado global da ASUS permaneceu abaixo de 1%, tornando impossível competir com gigantes como Samsung e Apple que dominam o segmento premium, ou com marcas chinesas como Xiaomi, OPPO e vivo que controlam o mercado de volume através de cadeia de fornecimento e investimento em marketing.
Mesmo em Taiwan, o mercado doméstico da empresa, a quota da ASUS era de apenas 1,89% em setembro de 2024. Num segmento onde escala é tudo, estes números simplesmente não sustentam um negócio viável.
Os sinais já lá estavam
Quem seguia a ASUS de perto já tinha notado os indícios. A série ROG Phone 9 foi lançada em novembro de 2024, sem qualquer atualização durante todo 2025. O Zenfone 12 Ultra chegou em fevereiro de 2025, mas foi acompanhado pelo ROG Phone 9 FE exclusivo para a Tailândia, sinais claros de uma empresa a gerir inventário em vez de inovar.
Já em 2023 circulavam rumores de que o Zenfone 10 seria o último da série, negados na altura pela ASUS. Os rumores regressaram no segundo semestre de 2025, desta vez com mais substância. Em janeiro de 2026, distribuidores taiwaneses confirmaram que tinham deixado de receber stock de smartphones ASUS, forçando a empresa a confirmar publicamente que nenhum modelo novo seria lançado este ano.
A memória RAM emergiu como catalisador final. Shih admitiu que a escassez atual de memória está a tornar laptops e outros produtos mais caros. Quando fornecedores de chips de memória priorizam capacidade de produção para os segmentos mais lucrativos de IA e servidores, fabricantes menores de smartphones como a ASUS ficam em clara desvantagem na cadeia de fornecimento.
A ASUS garantiu que clientes existentes continuarão a receber suporte completo. Atualizações de software e serviços de garantia permanecerão ativos para todos os modelos Zenfone e ROG Phone já no mercado.
Múltiplas regiões já reportam que modelos como o ROG Phone 9 e Zenfone 12 Ultra estão esgotados, particularmente nos Estados Unidos. Uma vez que o stock atual se esgote, não haverá reposição. Para quem procurava um smartphone compacto premium ou um dispositivo gaming de topo, as opções acabam de diminuir drasticamente.

A nova fronteira: IA física
A ASUS não está simplesmente a abandonar smartphones. Está a reposicionar-se deliberadamente para liderar aquilo que chama de “Quarta Revolução Industrial” através de tecnologias de IA física. Isto inclui sistemas robóticos que operam com mínima intervenção humana e dispositivos wearable que integram capacidades de IA diretamente.
Os óculos inteligentes apresentados na CES 2026 representam o tipo de produto onde a ASUS vê futuro. Ao contrário de smartphones onde compete contra dezenas de rivais estabelecidos, estes segmentos emergentes oferecem oportunidades de estabelecer liderança tecnológica antes de mercados maturarem.
Durante a CES no início de janeiro, a ASUS mostrou laptops de ecrã duplo, óculos gaming e outros produtos que não têm nada a ver com smartphones. Se a divisão móvel desaparecer completamente, não faltará hardware com a marca ASUS nas prateleiras.
A ASUS junta-se a uma lista crescente de fabricantes que abandonaram ou reduziram drasticamente ambições em smartphones. A LG saiu em 2021, a Microsoft encerrou Windows Phone em 2017, a BlackBerry terminou em 2016. Até a Sony, que continua a produzir a linha Xperia, opera num nicho microscópico do mercado.
O problema fundamental é que o mercado global de smartphones estagnou em cerca de 1,2 mil milhões de unidades anuais. A inovação desacelerou. Margens contraíram-se. Apenas empresas com escala massiva conseguem manter rentabilidade, empurrando jogadores menores para segmentos cada vez mais estreitos ou para fora do mercado completamente.
Para entusiastas que valorizavam alternativas como o Zenfone compacto ou o ROG Phone especializado, esta consolidação significa menos escolha. O Android está a tornar-se menos diverso, dominado por Samsung no topo e um punhado de marcas chinesas a lutar por volume no meio.
2026 ou para sempre?
A linguagem usada pela ASUS deixa tecnicamente a porta entreaberta. Shih disse especificamente que não haverá novos modelos “no futuro”, mas não declarou formalmente o fim definitivo da divisão. Alguns interpretam isto como pausa temporária com possível regresso em 2027.
A realidade económica sugere o contrário. Com servidores de IA a crescer 100% ano após ano e smartphones a perder dinheiro consistentemente, que incentivo tem a ASUS para regressar? A não ser que o mercado mude radicalmente, ou que a empresa desenvolva alguma tecnologia verdadeiramente disruptiva, um regresso parece cada vez mais improvável.
A confirmação oficial de Jonney Shih fecha um capítulo para a ASUS. Desde 2014 com os primeiros Zenfone, a empresa tentou criar espaço próprio num mercado brutal. Trouxe inovações genuínas, particularmente em gaming móvel. Mas num negócio onde escala é tudo e margens são cada vez mais apertadas, reconhecer derrota e realocar recursos para áreas mais promissoras pode ser a decisão estratégica mais inteligente.









