
A inteligência artificial está prestes a dar um salto que vai muito além de assistentes virtuais e chatbots. Segundo Mustafa Suleyman, CEO da Microsoft AI, dentro de cinco anos toda a gente terá o seu próprio companheiro de IA, uma presença digital que acompanhará cada momento do dia, compreendendo preferências, motivações e contextos de forma profundamente pessoal.
“Daqui a cinco anos, todos terão um companheiro de IA que os conhecerá profundamente, o que vêem, ouvem, preferem e sentem, ele não só auxiliará, viverá a vida ao teu lado, um amigo sempre presente que te ajudará a enfrentar os maiores desafios da vida”, afirmou Suleyman em declarações na rede social X. “Verá o que vês, ouvirá o que ouves, compreenderá o teu contexto, as tuas preferências, as tuas motivações, e parecerá uma ajuda ou amigo sempre presente para te ajudar a navegar os grandes desafios da vida”.
A visão de Suleyman representa uma mudança fundamental na forma como a tecnologia se relaciona com as pessoas. Em vez de uma ferramenta que se abre quando necessário, a IA evoluirá para uma companhia constante que existe em paralelo com a vida de cada utilizador.
Esta perspetiva não surge do nada. Antes de assumir o cargo na Microsoft em março de 2024, Suleyman cofundou a Inflection AI, onde desenvolveu o Pi, um chatbot desenhado especificamente para oferecer suporte emocional e conversação. O Pi enfatizava empatia e compreensão, acumulando cerca de um milhão de utilizadores diários antes de Suleyman e a sua equipa se mudarem para a Microsoft. Anteriormente, também cofundou a DeepMind, adquirida pela Google em 2014.
O Copilot, produto principal da Microsoft AI, está a receber atualizações que apontam exatamente nesta direção. Durante as celebrações do 50.º aniversário da Microsoft, o serviço ganhou melhorias significativas, incluindo avatares virtuais mais expressivos, capacidades de memória expandidas e funcionalidades de personalização profunda. A ideia é fazer com que a interação se pareça menos com consultar uma enciclopédia e mais com falar com alguém familiar.
“Estamos a fazer a transição do fim da primeira fase desta nova era de inteligência para o início da próxima fase”, explicou Suleyman numa entrevista ao podcast Big Technology. “Nos últimos dois anos, todos ficámos maravilhados com as respostas básicas, factuais e sucintas em estilo de perguntas e respostas que estes chatbots nos dão. Isso é incrível. Podem pensar nisso como o QI deles, a sua inteligência básica. Mas a maioria dos consumidores preocupa-se realmente com o tom. Importam-se se é educado e respeitoso. É ocasionalmente engraçado nos momentos certos? Lembra-se não só do meu nome, mas de como pronunciá-lo?”
A diferenciação entre produtos de IA das várias empresas já não passará tanto pela capacidade técnica, Amazon, Anthropic, Google, Microsoft e OpenAI estão todas a desenvolver sistemas contextualmente conscientes e com elevado quociente emocional. O que separa um produto de outro será cada vez mais a personalidade e a forma como se relaciona com os utilizadores.
A Microsoft não está sozinha nesta corrida. A indústria tecnológica movimenta-se rapidamente em direção a companheiros digitais cada vez mais sofisticados. A xAI de Elon Musk lançou em julho de 2025 o Companion Mode para o Grok, apresentando avatares 3D animados que interagem com os utilizadores. A personagem mais popular, Ani, inspirada em estética anime com visual gótico lolita, tornou-se viral e gerou mais de 1,2 milhões de impressões nas primeiras 48 horas após o lançamento.
No início de janeiro de 2026, a Razer revelou o Project AVA, um companheiro de IA holográfico que se materializa num dispositivo físico sobre a secretária. Com um ecrã holográfico de 5,5 polegadas, o AVA apresenta-se através de avatares animados que podem ajudar tanto em tarefas quotidianas como em sessões de gaming. O dispositivo está equipado com microfones de campo alargado, câmara HD e sensores que lhe permitem ter consciência do contexto à volta do utilizador.
Razer quer colocar um holograma com inteligência artificial na tua secretária
O papel da IA já se expande muito além de companheiros digitais. A tecnologia alimenta veículos autónomos, automatiza postos de trabalho e até assiste pacientes em hospitais. A linha entre o mundo digital e físico continua a diluir-se, criando uma realidade onde sistemas de inteligência artificial se infiltram em praticamente todos os aspetos da vida moderna.
Suleyman, que continua a defender aquilo a que chama superinteligência humanista, centra a sua abordagem em garantir que tecnologia poderosa permanece alinhada com valores humanos e serve os interesses das pessoas. O objetivo declarado da Microsoft AI, segundo o próprio site da divisão, é construir modelos de IA de última geração e criar um companheiro de IA para todos.
A previsão de cinco anos pode parecer simultaneamente ambiciosa e conservadora. Alguns comentadores nas redes sociais sugeriram que a tecnologia pode evoluir ainda mais rapidamente do que o previsto. Outros manifestaram preocupações sobre dependência emocional e os efeitos potenciais na saúde mental das pessoas.
Investigações sugerem que cerca de 15% dos utilizadores de longo prazo de companheiros de IA já demonstram sinais de vinculação emocional. O mercado de companheiros de IA interativos atingiu 2,8 mil milhões de dólares em 2024 e projeta-se que duplique até 2028.
À medida que mais pessoas começam a interagir com estes sistemas, surgem questões importantes sobre privacidade, segurança de dados e o impacto social de relações mediadas por algoritmos. Casos problemáticos já emergiram, incluindo processos judiciais contra empresas de IA relacionados com utilizadores que desenvolveram dependências pouco saudáveis dos chatbots.
A indústria encontra-se num momento crucial. As empresas tecnológicas investem centenas de milhões, em alguns casos, milhares de milhões, no desenvolvimento destes sistemas. A competição é feroz, mas também levanta questões éticas sobre até onde deve ir a intimidade entre humanos e máquinas.
Suleyman tem sido vocal sobre a necessidade de contenção e de estabelecer limites claros para que sistemas avançados ajudem em vez de prejudicarem a humanidade. Mas o rumo parece traçado: a IA está a transformar-se de ferramenta em companhia, de produto em presença.









