
Durante décadas, os governos europeus usaram o Windows como se não houvesse alternativa. Não é que não as houvesse, é que a inércia, a pressão dos fornecedores e a falta de vontade política bloquearam sistematicamente qualquer tentativa de mudança. O que está a acontecer agora é diferente. A 8 de Abril de 2026, a Direção Interministerial do Digital francesa, conhecida pela sigla DINUM, anunciou formalmente a sua saída do Windows em favor de estações de trabalho com Linux. Todos os ministérios franceses foram também mandatados a apresentar os seus próprios planos de redução de dependências tecnológicas extra-europeias antes do outono de 2026.
Não se trata de um projeto-piloto nem de uma intenção vaga. Trata-se de uma directiva formal, que abrange sistemas operativos, ferramentas de colaboração, software antivírus, plataformas de inteligência artificial, bases de dados, virtualização e equipamentos de rede. O ministro David Amiel descreveu o esforço como uma forma de “recuperar o controlo do nosso destino digital”, acrescentando que o governo francês já não pode aceitar não ter controlo sobre os seus dados e a sua infraestrutura digital.
O que está a mudar concretamente
A DINUM será a primeira a migrar as suas próprias estações de trabalho, liderando pelo exemplo antes de exigir o mesmo aos outros organismos. Os restantes ministérios, operadores públicos e entidades afiliadas têm até ao outono de 2026 para apresentar os seus planos. As migrações operacionais efectivas estão previstas para 2027. A DINUM tem identificados cerca de 500.000 postos de trabalho a correr actualmente Windows que deverão de transitar para Linux.
Nenhuma distribuição Linux específica foi ainda escolhida, uma decisão que não é trivial. Migrar para open source não equivale automaticamente a migrar para soberania europeia, a Linux Foundation tem sede em San Francisco e muitas das distribuições mais populares são desenvolvidas por empresas americanas. A DINUM disponibiliza já a La Suite Numérique, um conjunto de ferramentas de produtividade soberanas que servirá de base à transição.
Esta mudança no sistema operativo não surge sozinha. Em Janeiro de 2026, a França já tinha anunciado a substituição do Microsoft Teams e do Zoom pela ferramenta de videoconferência de produção nacional Visio, para 2,5 milhões de funcionários públicos até 2027. Agora, a migração para Linux junta-se a esse movimento e vai mais fundo, toca na camada que está por baixo de tudo o resto. A seguradora nacional de saúde CNAM está a migrar 80000 agentes para ferramentas soberanas, Tchap para mensagens, Visio para videochamadas, e FranceTransfert para partilha de ficheiros. A plataforma nacional de dados de saúde deverá também mudar para uma solução soberana até ao final de 2026.
Anne Le Hénanff, ministra delegada para a Inteligência Artificial e o Digital, foi directa: “A soberania digital não é opcional, é uma necessidade estratégica”.
A Gendarmerie como modelo
Um dos argumentos mais fortes a favor desta migração é que esta já foi feita, com sucesso, dentro do próprio Estado francês. A Gendarmerie Nationale, força policial militar subordinada ao Ministério da Defesa francês, começou a transição para open source em 2004, com a adopção progressiva de OpenOffice, Firefox e Thunderbird. Em 2008, lançou a GendBuntu, a sua própria distribuição baseada em Ubuntu. Até Junho de 2024, a GendBuntu corria em 103164 estações de trabalho, representando 97% do parque informático da força. O resultado financeiro é claro, o projecto poupa aproximadamente dois milhões de euros por ano em licenças e reduziu o custo total de propriedade em cerca de 40%. Em Fevereiro de 2026, a DINUM citou explicitamente a Gendarmerie como o modelo de governação a seguir na implementação nacional.
O que está a acontecer no resto da Europa
A França não está sozinha. O estado alemão de Schleswig-Holstein é outro exemplo. Com 30000 funcionários a migrar para Linux e LibreOffice, o estado concluiu quase 80% da transição no início de 2026 e registou poupanças de 15 milhões de euros em custos de licenciamento só nesse ano, com um investimento único de 9 milhões de euros para completar a migração. A Áustria substituiu o Microsoft Office pelo LibreOffice nas forças armadas. A Dinamarca fez o mesmo no Ministério dos Assuntos Digitais. A Alemanha tornou o formato Open Document obrigatório para todos os ficheiros governamentais, excluindo explicitamente os formatos proprietários da Microsoft. Em Janeiro de 2026, o Parlamento Europeu aprovou um relatório a solicitar à Comissão Europeia que identificasse as áreas de maior dependência de fornecedores estrangeiros em domínios críticos, incluindo semicondutores, cloud, software e sistemas de inteligência artificial.
Desde que Donald Trump regressou à Casa Branca, a relação entre os Estados Unidos e a Europa deteriorou-se de forma acelerada. A administração americana usou tarifas e outras medidas para pressionar os países europeus a abandonar as suas regulações sobre as grandes tecnológicas. Em Agosto, Trump prometeu “defender as empresas tecnológicas americanas” face a países que as “atacam”. A administração chegou a classificar leis como o Digital Services Act da UE como “censura” e “um imposto”.
A resposta europeia foi clara. Na Conferência de Segurança de Munique, em Fevereiro de 2026, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou: “A nossa soberania digital é a nossa soberania digital”, acrescentando que a UE “não vai recuar” nesta matéria e que “o Iluminismo começou no nosso continente”.
As dúvidas que persistem
Os céticos têm razões para questionar. A história dos governos europeus a anunciar migrações para Linux e a não as concluir é longa. Munique é o caso mais citado, a cidade lançou o LiMux em 2004 e reverteu a decisão em 2017, parcialmente por pressão da Microsoft, que entretanto mudou a sua sede regional para a cidade. Muitos dos desafios são reais, compatibilidade de aplicações, reciclagem de utilizadores, dependências em software legado que não tem equivalente open source imediato.
Há também uma contradição que não passou despercebida, o objectivo declarado é a soberania europeia, mas muitas das distribuições Linux mais robustas são desenvolvidas por empresas americanas, e a própria Linux Foundation tem sede em São Francisco. A escolha de distribuição será, portanto, uma decisão política tanto quanto técnica.
O que diferencia esta vaga de migrações das anteriores é a combinação de pressão geopolítica, precedentes internos com sucesso comprovado, a Gendarmerie, Schleswig-Holstein, e uma vontade política que parece desta vez mais sustentada. A Microsoft não comentou publicamente a decisão da França que é um cliente de grande dimensão.









