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    Grok: União Europeia inicia investigação após criação de deepfakes sexuais

    Bruxelas acusa plataforma de Elon Musk de falhar na proteção de utilizadores contra imagens explícitas geradas por IA, incluindo material de abuso infantil

    X (Twitter) logo HD

    A Comissão Europeia abriu esta segunda-feira uma investigação formal contra a plataforma X (antigo Twitter) e o seu chatbot de inteligência artificial Grok, acusando a empresa de Elon Musk de não conseguir travar a disseminação de deepfakes sexuais não consensuais, incluindo imagens que podem constituir material de abuso sexual infantil.

    A decisão de Bruxelas surge depois de o Grok ter gerado uma onda global de indignação ao permitir que utilizadores criassem imagens explícitas de mulheres e crianças através das suas ferramentas de edição de imagens. O processo pode resultar em sanções pesadas para a plataforma, que há menos de dois meses já tinha sido multada em 120 milhões de euros por violações à Lei dos Serviços Digitais.

    Henna Virkkunen, vice-presidente executiva da Comissão Europeia, foi direta nas críticas: “Deepfakes sexuais não consensuais de mulheres e crianças são uma forma violenta e inaceitável de degradação. Com esta investigação, vamos determinar se o X cumpriu as suas obrigações legais ao abrigo da DSA [Lei dos Serviços Digitais], ou se tratou os direitos dos cidadãos europeus — incluindo os de mulheres e crianças — como danos colaterais do seu serviço”.

    A Comissão afirmou que irá avaliar se a plataforma tomou medidas suficientes para reduzir os riscos relacionados com a disseminação de conteúdo ilegal quando implementou o Grok. Os reguladores sublinham que estes riscos incluem imagens sexualmente explícitas manipuladas, incluindo conteúdo que pode constituir material de abuso sexual infantil.

    “Estes riscos parecem ter-se materializado, expondo cidadãos na UE a danos graves”, declarou a Comissão no comunicado oficial.

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    Função de edição desencadeou tsunami de abusos

    A controvérsia começou no final de dezembro, quando o Grok introduziu uma funcionalidade de edição de imagens que permitia aos utilizadores modificar qualquer fotografia na plataforma. Rapidamente, utilizadores descobriram que bastava marcar o Grok em comentários e pedir para remover roupa de mulheres e crianças em fotografias para que a IA obedecesse aos comandos.

    Investigadores da organização AI Forensics analisaram mais de 20 mil imagens aleatórias geradas pelo Grok e 50 mil pedidos de utilizadores entre 25 de dezembro e 1 de janeiro. Os dados revelaram uma prevalência elevada de termos como “ela”, “colocar/remover”, “biquíni” e “roupa”. Mais de metade das imagens geradas de pessoas continham indivíduos em roupa mínima, como roupa interior ou biquínis.

    A investigação europeia não surge isolada. A Malásia e a Indonésia tornaram-se os primeiros países do mundo a bloquear o acesso ao Grok no início de janeiro, citando preocupações com a geração de conteúdo sexualmente explícito não consensual. A ministra digital da Indonésia, Meutya Hafid, foi clara: “O governo vê os deepfakes sexuais não consensuais como uma violação grave dos direitos humanos, dignidade e segurança dos cidadãos no espaço digital”.

    Investigação alargada aos algoritmos de recomendação

    Para além da nova investigação, Bruxelas alargou também o processo iniciado em dezembro de 2023 sobre os sistemas de recomendação do X. A Comissão quer perceber se a plataforma avaliou corretamente os riscos sistémicos associados à mudança para um modelo de recomendações baseado no Grok.

    Se forem confirmadas violações à Lei dos Serviços Digitais, a Comissão pode concluir que o X violou múltiplas disposições relacionadas com a avaliação de riscos, medidas de mitigação e obrigações de reporte. As multas podem chegar até 6% da receita global anual da empresa.

    Em resposta à investigação, um porta-voz do X remeteu para declarações anteriores feitas pela empresa: “Continuamos empenhados em fazer do X uma plataforma segura para todos e continuamos a ter tolerância zero para qualquer forma de exploração sexual infantil, nudez não consensual e conteúdo sexual indesejado”.

    A 14 de janeiro, o X anunciou que o Grok deixaria de permitir a edição de imagens de pessoas reais com roupa reveladora, mas apenas em locais onde tal tenha sido considerado ilegal.

    A Comissão da Malásia considerou a resposta insuficiente, afirmando que o X “concentrou-se principalmente em mecanismos de denúncia iniciados pelo utilizador e não conseguiu abordar os riscos inerentes que surgem do design e operação da ferramenta de IA”.

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    Momento delicado nas relações transatlânticas

    A investigação surge num momento particularmente tenso entre Bruxelas e Washington. A administração Trump já colocou a União Europeia na mira pela sua fiscalização sobre empresas tecnológicas americanas, e agora terá de lidar diretamente com Musk, que possui o maior megafone na própria plataforma sob escrutínio.

    Quando o X foi multado em 120 milhões de euros em dezembro por violar a Lei dos Serviços Digitais, Musk reagiu com virulência, chamando à UE o “quarto Reich” e defendendo num post no X que o bloco “deveria ser abolido”.

    O bilionário partilhou uma imagem da bandeira da União Europeia a descascar-se para revelar a bandeira da Alemanha nazi, comentando “praticamente” em resposta. Musk acusou Bruxelas de ser uma “burocracia tirânica e não eleita a oprimir o povo da Europa” e apelou à dissolução do bloco, defendendo que a soberania deveria ser devolvida aos países individuais.

    A investigação não tem prazo definido para conclusão. O caso pode terminar com o X a comprometer-se a alterar o seu comportamento ou com uma multa avultada, a segunda em menos de três meses.

    Helder Archer
    Helder Archer
    Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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