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    TikTok evita proibição nos USA com acordo histórico de investidores

    ByteDance cede controlo maioritário a Oracle, Silver Lake e MGX numa operação de 14 mil milhões de dólares

    Depois de anos de incerteza e pressão política, o TikTok finalmente chegou a um acordo para continuar a operar nos Estados Unidos. A plataforma anunciou na quinta-feira, 22 de janeiro, a criação de uma joint venture maioritariamente americana que permite aos seus mais de 200 milhões de utilizadores norte-americanos continuar a usar a aplicação sem interrupções.

    O acordo foi fechado apenas um dia antes do prazo final estabelecido pela administração Trump e representa o culminar de uma saga que começou em 2020. A ByteDance, empresa-mãe chinesa do TikTok, retém apenas 19,9% da nova entidade, exatamente abaixo do limite de 20% estabelecido por lei. Os restantes 80,1% ficam nas mãos de investidores não chineses, com três empresas a assumir posições de gestão.

    A Oracle, Silver Lake e MGX, esta última uma firma de investimento detida pelo estado dos Emirados Árabes Unidos, detêm cada uma 15% da TikTok USDS Joint Venture LLC, como foi batizada a nova empresa. Os restantes 35% estão distribuídos por outros investidores, incluindo o escritório de investimentos de Michael Dell, fundador da Dell Technologies, e a Susquehanna International Group.

    Adam Presser, anteriormente responsável pelas operações e segurança do TikTok, foi nomeado CEO da nova entidade americana. Shou Chew mantém-se como CEO global do TikTok e integra o conselho de administração de sete membros da joint venture, maioritariamente composto por americanos. O conselho inclui também Egon Durban da Silver Lake, Kenneth Glueck da Oracle e David Scott da MGX, entre outros.

    A questão mais delicada do acordo prende-se com o algoritmo de recomendação de conteúdos, o verdadeiro “molho secreto” que torna o TikTok tão viciante. Segundo o anúncio oficial, a nova entidade será responsável por “retreinar, testar e atualizar” o algoritmo usando exclusivamente dados de utilizadores americanos. A ByteDance licenciará o algoritmo à joint venture americana, mas a Oracle ficará encarregue de “rever e validar o código fonte numa base contínua”.

    Esta separação levanta questões sobre se o acordo cumpre verdadeiramente o espírito da lei aprovada pelo Congresso em 2024, que exigia o corte total de laços operacionais com a ByteDance. A legislação proíbe especificamente “qualquer cooperação relativamente à operação de um algoritmo de recomendação de conteúdos” entre a ByteDance e um eventual novo grupo proprietário americano.

    Os dados dos utilizadores americanos serão armazenados localmente num ambiente de cloud seguro gerido pela Oracle, com a joint venture também a assumir responsabilidade pela moderação de conteúdos nos Estados Unidos. O acordo estende-se ainda às aplicações irmãs do TikTok, como o CapCut e o Lemon8, que ficarão igualmente sob supervisão da entidade americana.

    Donald Trump, que ironicamente foi o primeiro a tentar banir o TikTok em 2020 durante o seu primeiro mandato, celebrou agora o acordo no Truth Social. “Estou tão feliz por ter ajudado a salvar o TikTok! Será agora propriedade de um grupo de Grandes Patriotas e Investidores Americanos, os Maiores do Mundo, e será uma Voz importante”, escreveu o presidente. Trump agradeceu ainda ao presidente chinês Xi Jinping “por trabalhar connosco e, em última análise, aprovar o Acordo”.

    Para os utilizadores comuns, pouco deverá mudar no imediato. O TikTok garante “interoperabilidade”, o que significa que os americanos continuarão a ter acesso a conteúdos internacionais e os criadores norte-americanos manterão audiências globais. A aplicação que os utilizadores já têm instalada nos telemóveis permanecerá a mesma, sem necessidade de downloads ou novos registos.

    O acordo põe fim a uma batalha legal e política que começou há mais de cinco anos. Em 2024, o Congresso aprovou com maioria bipartidária uma lei que forçava a ByteDance a vender as operações americanas do TikTok ou enfrentar uma proibição total no país. A lei entrou em vigor em janeiro de 2025 e, durante algumas horas, o TikTok ficou mesmo indisponível para os utilizadores americanos.

    Mas no seu primeiro dia de mandato, Trump assinou uma ordem executiva para manter a aplicação a funcionar enquanto a administração procurava um comprador. Seguiram-se mais quatro ordens executivas ao longo do ano para adiar a aplicação da proibição, dando tempo para que as negociações chegassem a bom porto.

    Larry Ellison, fundador da Oracle e aliado de Trump, sai claramente vencedor deste acordo. Para além da participação significativa no TikTok, Ellison é o maior acionista da Paramount através da Skydance, acordo que foi fechado recentemente, consolidando ainda mais a sua influência nos media e entretenimento americanos.

    O TikTok tem cerca de 2 mil milhões de utilizadores globalmente, sendo que menos de 10% estão nos Estados Unidos. A criação de uma entidade separada para o mercado americano cria uma situação curiosa, uma versão da aplicação sob direção americana, com controlos adicionais sobre fluxos de conteúdo e segurança de dados, enquanto uma segunda versão, totalmente operada pela ByteDance, continuará disponível para o resto do mundo.

    Resta saber se esta separação será genuinamente eficaz ou se a ByteDance, mesmo com apenas 19,9% de participação, conseguirá manter influência suficiente sobre as operações americanas.

    Helder Archer
    Helder Archer
    Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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