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Vídeos curtos do TikTok, YouTube e Instagram podem reduzir capacidades cognitivas, revela estudo

Investigadores da Universidade de Zhejiang registaram a atividade cerebral de pessoas enquanto faziam testes de atenção. Quem consumia mais vídeos curtos mostrou menor autocontrolo e atividade reduzida na zona do cérebro responsável pelo foco.

O termo “brainrot”, literalmente “cérebro podre”, usado pela Geração Z para descrever o estado de entorpecimento mental causado por horas a fazer scroll em vídeos curtos, pode ter acabado de ganhar validação científica. Um estudo publicado em junho de 2024 na revista Frontiers in Human Neuroscience, da Universidade de Zhejiang, na China, encontrou uma correlação direta entre o consumo frequente de vídeos curtos em telemóvel e uma diminuição mensurável na capacidade de atenção e de autocontrolo. O estudo, que foi publicado há cerca de dois anos, voltou a circular nas últimas semanas e está a gerar discussão online.

O estudo envolveu 48 participantes com uma média de idades de 21,8 anos, 35 mulheres e 13 homens, todos utilizadores regulares de redes sociais que consumiam conteúdo em formato curto como TikTok, Instagram Reels e YouTube Shorts. Os participantes responderam a uma série de questionários sobre os seus hábitos de consumo de vídeo, o seu nível de impulsividade, a tendência para a distração mental, o autocontrolo e os níveis de ansiedade e stress. Depois, foram submetidos ao Attention Network Test, um protocolo de avaliação cognitiva com 192 ensaios que mede vigilância, foco espacial e controlo executivo, enquanto a sua atividade cerebral era registada em tempo real através de eletroencefalograma, com uma touca de 64 elétrodos.

O que os investigadores encontraram foi uma correlação entre quem relatava maior tendência para o consumo compulsivo de vídeos curtos e piores resultados nas métricas de atenção e autocontrolo. Mais do que os resultados comportamentais, os dados do EEG revelaram algo concreto, esses participantes apresentavam atividade reduzida na região frontal mediana do córtex pré-frontal, a zona do cérebro associada ao foco, ao planeamento e à inibição de distrações. Uma maior tendência para o consumo compulsivo de vídeos em telemóvel estava significativamente associada a um controlo executivo reduzido.

“Estes resultados sugerem que uma maior tendência para a adição a vídeos curtos em telemóvel pode impactar negativamente o autocontrolo e diminuir o controlo executivo no âmbito das funções de atenção”, lê-se no estudo. E acrescenta: “Este estudo lança luz sobre as consequências adversas decorrentes do consumo de vídeos curtos e sublinha a importância de desenvolver intervenções para mitigar a adição a vídeos curtos”.

Vale a pena ser preciso sobre o que o estudo diz, e sobre o que não diz. A amostra é relativamente pequena, com 48 pessoas, e a metodologia mede correlação, não causalidade, não é possível concluir com certeza, a partir destes dados, que os vídeos curtos causam menor atenção, ou se pessoas naturalmente com menos capacidade de foco tendem a consumir mais este tipo de conteúdo. O estudo também não distingue entre consumo moderado e compulsivo, a variável determinante parece ser a tendência para a adição, e não simplesmente o ato de ver Reels ocasionalmente.

Ainda assim, os resultados encaixam num padrão mais amplo. A American Psychological Association publicou em 2025 um estudo com conclusões semelhantes, encontrando correlação entre o uso de redes sociais e menor atenção e controlo inibitório. E investigação anterior já tinha associado a adição a vídeos curtos a pior desempenho académico, procrastinação e menor capacidade de concentração em tarefas prolongadas, padrões descritos em estudos publicados igualmente na revista Frontiers.

Vídeos curtos do TikTok e Instagram prejudicam capacidade de atenção e saúde mental, diz estudo

O estudo da Universidade de Zhejiang é, por isso, mais um contributo para um corpo de investigação que vai crescendo, e que coloca perguntas incómodas sobre o design das plataformas, especialmente quando o público inclui crianças e adolescentes cujos cérebros ainda estão em desenvolvimento.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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