
O final de Stranger Things chegou a 31 de dezembro de 2025 e fechou uma das maiores séries da Netflix, mas deixou várias perguntas sem resposta imediata. Uma das mais perturbantes envolvia o destino das mulheres grávidas que a personagem Kali encontrou nos laboratórios da Dra. Kay no Upside Down. Agora, numa entrevista ao The Wrap, Matt e Ross Duffer esclarecem o que realmente aconteceu a estas vítimas.
A revelação surge dias após o episódio final de duas horas ter sido transmitido na Netflix e em algumas salas de cinema nos Estados Unidos e Canadá. As mulheres grávidas, vistas brevemente no episódio 5 da temporada final, eram parte de uma experiência militar que tentava replicar os poderes de Eleven e das outras crianças criadas pelo Dr. Brenner.
O que aconteceu no episódio 5
Durante o quinto episódio da temporada final, intitulado Shock Jock, Kali explica a fuga que tentou fazer do laboratório onde estava presa. Foi nessa tentativa que descobriu várias salas com mulheres grávidas a receber transfusões de sangue, o seu próprio sangue. A Dra. Kay, interpretada por Linda Hamilton, estava a tentar recriar as experiências originais de Brenner que deram origem a Eleven e aos seus “irmãos”.
O plano era injetar o sangue de Kali nas mulheres grávidas para criar uma nova geração de crianças com poderes psíquicos. Mas havia um problema, o sangue de Kali não era suficientemente poderoso. As experiências originais de Brenner tinham usado o sangue de Henry Creel, cuja exposição ao Mind Flayer na infância tinha alterado fundamentalmente a sua biologia. Esse sangue “puro” é que tinha funcionado décadas antes.
Kali percebeu rapidamente que as experiências não estavam a correr bem. As mulheres estavam doentes, a sofrer, e a pedir ajuda. O sangue dela não estava a funcionar da forma que a Dra. Kay esperava.
Na entrevista ao The Wrap, Matt Duffer foi direto ao assunto: “Olhem para o que Kay estava a tentar fazer com todas aquelas mulheres grávidas. Todas aquelas mulheres grávidas morreram porque aquele sangue não funcionou. Mas se isso tivesse funcionado, então teríamos dezenas de crianças que iam crescer exatamente como ela e que iam ser transformadas em armas e abusadas”.
A declaração deixa claro que as mulheres não sobreviveram às experiências. Morreram antes mesmo da equipa de Hawkins destruir o Upside Down no final da série. A falha do sangue de Kali foi fatal para as cobaias.
Ross Duffer contextualizou ainda a escolha de Eleven no final da temporada. A protagonista teve de decidir se queria arriscar colocar outras crianças em perigo com a sua existência ou retirar-se completamente da equação. Era uma escolha entre a visão otimista de Mike e a perspetiva mais cínica de Kali, que questionava como Eleven poderia alguma vez ter uma vida normal enquanto o governo a perseguisse.
Matt Duffer disse: “De qualquer forma, a escolha de Eleven é, penso eu, corajosa e altruísta, porque mesmo tendo de deixar os amigos para trás, está a proteger qualquer outra criança de experienciar o que ela experienciou. Basta olhar para o que Kay estava a tentar fazer com todas aquelas mulheres grávidas. Todas aquelas mulheres grávidas morreram porque aquele sangue não funcionou”.

Por que o sangue de Kali não funcionou
A peça em falta do puzzle está na origem dos poderes. Brenner criou as crianças psíquicas, incluindo Kali (Oito) e Eleven (Onze), usando o sangue de Henry Creel, também conhecido como One ou Vecna. Henry tinha sido infetado pelo Mind Flayer quando era criança, numa dimensão chamada Dimension X ou o Abismo, conforme revelado na peça de teatro Stranger Things: The First Shadow.
Essa exposição alterou permanentemente o sangue de Henry, tornando-o capaz de transmitir poderes psíquicos. Quando Brenner injetou o sangue de Henry em mulheres grávidas décadas antes, criou uma geração de crianças com habilidades extraordinárias.
O sangue de Kali, por outro lado, era sangue derivado, ela própria tinha recebido os poderes através do sangue de Henry. Não tinha a mesma potência ou pureza. Era por isso que a Dra. Kay estava obcecada em capturar Eleven durante toda a quinta temporada. Eleven era a mais poderosa de todos os “irmãos” e os seus poderes eram os mais próximos dos de Henry.
O destino das mulheres grávidas acaba por ser uma das razões que levam Eleven a tomar a decisão final no episódio 8. Se ela sobrevivesse e continuasse a existir no mundo normal, o governo jamais desistiria de a perseguir. Eventualmente, conseguiriam capturá-la e usar o seu sangue para criar uma nova geração de crianças-arma.
A narrativa da quinta temporada apresenta dois pontos de vista opostos através de Hopper e Kali. Hopper, o pai adotivo de Eleven, acredita que ela merece viver e ser feliz depois de tudo o que sofreu. Kali, mais pragmática, questiona como isso seria possível quando o governo nunca pararia de a procurar.
Os irmãos Duffer revelaram que esta era exatamente a discussão que acontecia na sala de argumentistas. Era possível Eleven ter um final feliz? Ou a única forma de garantir que nenhuma outra criança sofreria o mesmo destino seria ela desaparecer completamente?
Matt Duffer explicou que, tematicamente, Eleven representa a magia da infância. Os seus poderes são fantásticos, impossíveis, e fazem parte do elemento de fantasia da série. No final, quando Mike fecha a porta da cave onde costumavam jogar Dungeons & Dragons, está simbolicamente a fechar a porta para Nárnia, para a infância e para a fantasia.

Um final ambíguo
Os criadores deixaram propositadamente em aberto se Eleven está viva ou morta. No final, Mike oferece uma teoria alternativa aos amigos, talvez ela tenha fingido a morte, escapado e esteja a viver em paz algures. Os irmãos Duffer querem que a audiência decida por si própria, tal como as personagens têm de decidir no que acreditar.
“Queremos deixar o destino dela nas mãos da audiência”, disse Matt Duffer. “Obviamente, dizemos aquilo em que as nossas personagens acreditam. Mas queremos deixar o destino dela nas mãos da audiência, e o que é que elas pensam?”.
Ross Duffer comparou a situação ao final de Os Sopranos, onde o destino de Tony Soprano ficou igualmente em aberto. É uma escolha narrativa que inevitavelmente divide opiniões, mas que permite a cada espectador ter o seu próprio encerramento.
Seja qual for a interpretação, uma coisa é certa, o sacrifício das mulheres grávidas no laboratório da Dra. Kay não foi em vão na narrativa. A sua morte ilustra exatamente o tipo de horror que Eleven estava determinada a impedir que voltasse a acontecer, mesmo que isso significasse desaparecer do mundo que conhecia.









