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    Netflix confirma uso de inteligência artificial para otimizar legendas

    Netflix revelou aos acionistas que está a expandir o uso de IA para localização de conteúdos, numa altura em que a Amazon enfrenta forte contestação pela mesma tecnologia aplicada a anime

    Terminator Zero anime poster Netflix (2)

    A Netflix confirmou oficialmente que está a utilizar inteligência artificial para melhorar a localização de legendas. A revelação surgiu na carta aos acionistas do quarto trimestre de 2025, divulgada a 20 de janeiro, onde a empresa detalha os seus planos para expandir o uso de IA em várias áreas do negócio.

    “Continuamos a aproveitar a IA para melhorar a experiência dos nossos membros, e estamos a expandir estas capacidades para apoiar as nossas equipas criativas e anunciantes”, afirma o documento. A empresa especifica que, na produção e promoção de conteúdos, está a usar IA “para melhorar a localização de legendas, tornando mais fácil que os nossos títulos cheguem a mais espectadores em todo o mundo”.

    O timing do anúncio é particularmente sensível. A revelação surge apenas semanas depois de a Amazon ter enfrentado uma onda de críticas devastadora pela implementação de dobragens geradas por IA em animes populares como Banana Fish e No Game, No Life Zero. A polémica explodiu nas redes sociais no final de novembro de 2025, quando fãs descobriram que a Amazon tinha lançado dobragens marcadas como “AI beta” durante o fim de semana de Thanksgiving.

    As dobragens da Amazon foram rapidamente ridicularizadas pela qualidade medíocre. Clips virais mostraram vozes planas, sem emoção, com entoação robótica completamente desligada da ação no ecrã. O caso tornou-se ainda mais controverso quando se descobriu que No Game, No Life Zero já tinha uma dobragem profissional feita pela Sentai Filmworks em 2017, que foi aparentemente ignorada.

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    A Kadokawa, detentora dos direitos, declarou que não tinha aprovado uma dobragem de IA “em nenhuma forma”. A Sentai Filmworks afirmou que “não foi informada antecipadamente” e que estava “a investigar o assunto com a Amazon”. Dias depois, a Amazon removeu silenciosamente as dobragens em inglês, embora algumas versões em espanhol tenham permanecido disponíveis.

    Atores de voz como Daman Mills, conhecido por dar voz a Frieza em Dragon Ball Super, foram particularmente vocais. “A escolha da Amazon de usar IA para dobrar Banana Fish é um insulto massivo para nós enquanto artistas”, escreveu Mills nas redes sociais, anunciando o cancelamento da sua subscrição Amazon Prime.

    A Netflix, por outro lado, tem adotado uma abordagem aparentemente mais cautelosa, concentrando-se em legendas em vez de dobragens. A empresa começou a testar ferramentas de IA para dobragem em idiomas selecionados durante 2025 e colocou anúncios de emprego para cientistas especializados em tecnologias de fala generativa, com o objetivo de “desenvolver algoritmos que permitam localização de alta qualidade em escala”.

    Na carta aos acionistas, a Netflix também revelou que está a implementar “ferramentas impulsionadas por IA para ajudar com merchandising, o que melhora a nossa capacidade de conectar membros com os títulos mais relevantes para eles assistirem”. A empresa começou ainda a testar novas ferramentas de IA para ajudar anunciantes a criar publicidade personalizada baseada na propriedade intelectual da Netflix, planeando expandir este progresso em 2026.

    Os números revelados no relatório mostram o peso crescente do streaming na vida das pessoas. A Netflix atingiu 325 milhões de assinaturas pagas e registou 96 mil milhões de horas assistidas no segundo semestre de 2025, um aumento de 2% face ao ano anterior. A receita de publicidade cresceu mais de 2,5 vezes em relação a 2024, ultrapassando 1,5 mil milhões de dólares.

    O anime tornou-se central para a estratégia da Netflix. A plataforma anunciou a 20 de janeiro uma parceria estratégica com o estúdio MAPPA, responsável por sucessos como Jujutsu Kaisen e Chainsaw Man. Segundo o acordo, as novas produções originais da MAPPA serão transmitidas exclusivamente na Netflix, com a colaboração a estender-se desde o desenvolvimento de histórias até ao merchandising.

    “Mais de metade dos membros da Netflix veem anime no serviço, e a audiência de anime triplicou nos últimos cinco anos”, revelou a empresa no comunicado. Manabu Otsuka, presidente e CEO da MAPPA, enfatizou que a parceria se baseia na “crença fundamental da MAPPA em ser um estúdio independente — tanto criativamente como em termos de negócio”.

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    A Crunchyroll, um dos principais concorrentes da Netflix no streaming de anime, também tem navegado estas águas turbulentas. O CEO Rahul Purini afirmou em 2024 que a empresa estava a testar IA para agilizar a legendagem e closed captions de anime. Contudo, em 2025, recuou nas declarações, garantindo que não estava a considerar IA “no processo criativo, incluindo os nossos atores de voz”. Permanece pouco claro se esta posição inclui legendas.

    A Disney também entrou na corrida. Anúncios de emprego recentes procuram um supervisor criativo para explorar localização apoiada por IA, sinalizando que a gigante do entretenimento está igualmente a investigar estas tecnologias.

    O uso de IA na indústria do entretenimento levanta questões complexas sobre qualidade, autenticidade e o futuro dos profissionais criativos. A National Association of Voice Actors (NAVA) rotulou as dobragens da Amazon como “porcaria de IA”, exigindo consentimento, controlo sobre réplicas de IA e compensação adequada. A organização está em reuniões com legisladores para promover legislação federal de proteção contra IA.

    O SAG-AFTRA, sindicato dos atores norte-americanos, conseguiu proteções através de acordos em 2023, 2024 e 2025. Os princípios fundamentais estabelecem que são necessários consentimento e compensação justa, e que performances sintéticas devem ser pagas na mesma escala que performances humanas. Estas proteções resultaram de uma greve de 118 dias em 2023.

    A série chinesa Super Cube utilizou dobragens de IA no iQIYI no ano passado, mostrando que a tecnologia está a ser explorada em vários mercados. Contudo, a qualidade permanece um problema significativo. Especialistas estimam que uma dobragem profissional de 12 episódios custa cerca de 10 mil dólares, dependendo se os atores são sindicalizados ou não.

    A diferença fundamental entre legendas e dobragens pode explicar por que razão a Netflix optou por focar-se nas primeiras. Legendas envolvem principalmente tradução de texto, uma área onde a IA tem demonstrado resultados mais consistentes. Dobragens, por outro lado, exigem performance emocional, timing preciso, sincronia labial e nuances culturais que a tecnologia atual ainda não consegue replicar de forma convincente.

    A Netflix tem sido particularmente ativa no desenvolvimento de tecnologias de localização. Em 2021, a plataforma processou 5 milhões de minutos de conteúdo dobrado e 7 milhões de minutos de conteúdo legendado. A empresa desenvolveu a iniciativa “Simplify-then-Translate” especificamente para línguas com menos recursos, mostrando que investe em investigação fundamental em vez de simplesmente usar ferramentas prontas.

    O mercado global de streaming depende fortemente de localização eficaz. Cerca de um terço dos espectadores da Netflix assiste conteúdo numa língua diferente do inglês, tornando a tradução e adaptação essenciais para o crescimento internacional. A empresa está disponível em mais de 190 países, cada um com as suas próprias preferências linguísticas e culturais.

    Helder Archer
    Helder Archer
    Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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