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    Novo anúncio anti-pirataria celebra heróis de mangá e anime

    Agência de Assuntos Culturais do Japão e campanha STOP! Manga Piracy unem-se em vídeo que desafia: "Vais tu salvar o futuro do mangá?"

    A Agência de Assuntos Culturais do Japão lançou esta semana um novo anúncio publicitário em parceria com a campanha STOP! Manga Piracy, que celebra heróis e heroínas de toda a história do mangá e anime num apelo directo aos leitores para combaterem a pirataria.

    O vídeo questiona se o mangá e o anime continuarão a existir daqui a um século, apresentando um desfile de personagens icónicas que atravessam décadas de cultura pop japonesa. Entre os destaques estão Astro Boy, Luffy de One Piece, JoJo’s Bizarre Adventure, Shōtarō Kaneda de Akira, Goku de Dragon Ball, Ryō Saeba de City Hunter, o Gundam RX-78-2 de Mobile Suit Gundam, Hamtaro de Hamtaro e Tanjiro Kamado de Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba.

    A mensagem final do anúncio coloca a responsabilidade directamente nos espectadores e leitores, afirmando que são eles que vão salvar o futuro do mangá e do anime.

    A campanha STOP! Manga Piracy teve início em 2018, quando as principais editoras japonesas Kadokawa, Kodansha, Shogakukan e Shueisha se uniram num esforço conjunto para acabar com a pirataria de mangá. Estas quatro editoras representam alguns dos títulos mais populares da indústria, desde Weekly Shonen Jump (casa de Dragon Ball, One Piece e Naruto) a Weekly Shonen Sunday e Weekly Shonen Magazine.

    Em Julho de 2024, a campanha deu um passo inédito ao publicar anúncios de agradecimento em jornais de quatro países: Estados Unidos, Itália, Espanha e França. Os anúncios apareceram no New York Times, La Repubblica, El País e Le Monde, adoptando uma abordagem positiva ao agradecer aos fãs que escolhem ler as versões oficiais em vez de recorrerem à pirataria.

    Esta estratégia de agradecimento, em vez de acusação, já tinha provado ser bem-sucedida no Japão. A mensagem dizia simplesmente “Obrigado por lerem as versões oficiais”, uma mudança de tom face às campanhas anti-pirataria tradicionais que se focam em ameaças legais ou apelos à culpa.

    Os números da pirataria de mangá são alarmantes. Segundo a organização anti-pirataria ABJ (Authorized Books of Japan), existiam 1.332 sites de pirataria a oferecer mangá em Maio de 2024. Apenas os 10 principais sites de tradução em inglês representam perdas estimadas em 800 milhões de dólares por mês em leituras gratuitas não autorizadas.

    A distribuição destes sites por idioma mostra que 466 plataformas oferecem traduções em inglês, 294 são em japonês, e os restantes 477 sites disponibilizam conteúdo em chinês, vietnamita, coreano, tailandês, indonésio, espanhol, português, russo e italiano. Por volume, os sites de tradução em inglês lideram, seguidos pelas plataformas em japonês e vietnamita.

    Bato.to desaparece após operação da Kakao Entertainment contra pirataria de mangá

    Entre Fevereiro e Maio de 2024, apareceram cerca de 100 novos sites piratas apenas num mês, demonstrando o ritmo acelerado a que a pirataria continua a expandir-se. A ABJ relatou que em Maio de 2024 o número total de sites tinha aumentado de 1.207 em Fevereiro para 1.332.

    As editoras japonesas têm lutado agressivamente contra a pirataria através de processos judiciais. Em Novembro de 2025, Shueisha, Kodansha, Kadokawa e Shogakukan venceram um processo histórico contra a empresa americana Cloudflare no Tribunal Distrital de Tóquio. O tribunal reconheceu cerca de 3,6 mil milhões de ienes (aproximadamente 24 milhões de dólares) em danos às quatro editoras, ordenando à Cloudflare o pagamento de cerca de 500 milhões de ienes (3,2 milhões de dólares).

    Pirataria de mangá no Japão: Cloudflare condenada a pagar 3,2 milhões de dólares

    O processo alegava que a Cloudflare distribui dados para sites de pirataria de mangá que infringem os direitos de autor das editoras. A decisão do tribunal enfatizou a responsabilidade da Cloudflare por não implementar procedimentos mais rigorosos de verificação de identidade. Segundo a Kodansha, a política da Cloudflare de exigir apenas um endereço de email para registo gratuito permite que os sites de pirataria escondam a sua identidade.

    Esta não foi a primeira vitória legal das editoras. Em 2018, os advogados de Kadokawa, Kodansha, Shueisha e Shogakukan apresentaram uma moção no Tribunal Distrital de Tóquio solicitando à Cloudflare que parasse de alojar conteúdo para vários sites de pirataria. Em 2019, chegou-se a um acordo que estipulava que se o tribunal declarasse os sites ilegais, a Cloudflare pararia de replicar os sites nos seus servidores no Japão.

    As editoras são parte da Content Overseas Distribution Association (CODA) do Japão, que lançou a International Anti-Piracy Organization (IAPO) em Abril de 2022 com organizações de mais de 12 países. A IAPO trabalha para reduzir a pirataria de mangá e anime e também auxilia as forças policiais em investigações criminais na área.

    Apesar dos esforços agressivos de aplicação da lei, a campanha reconhece que a educação e o apelo directo aos fãs são componentes essenciais da estratégia. O anúncio publicado nos jornais internacionais em Julho de 2024 foi lançado no “Dia do Mangá” (17 de Julho) com o objectivo de aumentar a consciencialização sobre os problemas de pirataria, mas fazê-lo através do agradecimento em vez da censura.

    A ABJ afirmou que os seus esforços contra a pirataria produziram alguns resultados, com o sector a registar um declínio de 25% na pirataria online entre 2022 e 2023. Este progresso pode ser atribuído a medidas agressivas como processos judiciais e detenções levadas a cabo pelas editoras contra os perpetradores de pirataria.

    No entanto, a reacção dos fãs às campanhas anti-pirataria tem sido mista. Muitos utilizadores das redes sociais apontam a limitada disponibilidade de traduções oficiais de mangá em inglês e outros idiomas como um factor que alimenta a pirataria. Normalmente, apenas as séries populares no Japão recebem traduções oficiais, deixando milhares de títulos inacessíveis aos leitores internacionais através de canais legais.

    Alguns fãs argumentam que a pirataria só pode ser eficazmente reduzida através do aumento da disponibilidade e acessibilidade de mangá oficial. Referem exemplos como a plataforma Manga Time Kirara/Houbunsha, que tentou expandir-se para uma audiência de língua inglesa com uma aplicação em Setembro de 2020, apresentando um punhado de séries, mas encerrou sem aviso alguns meses depois.

    Os criadores japoneses de mangá têm participado activamente nestas campanhas. Autores significativos da Shueisha como Takehiko Inoue (Slam Dunk), Koyoharu Gotouge (Demon Slayer), e Kohei Horikoshi (My Hero Academia) participaram na campanha STOP em 2021, juntamente com Hideaki Sorachi, Yasuhisa Hara e Ai Yazawa. Vários mangaka da Kodansha, Shogakukan, Akita Shoten, bem como Mine Yoshizaki da Kadokawa, Natsu Hyuuga e Touko Shino da Shufunotomo também aderiram.

    A campanha colaborou com 25 mangaka populares para chamar a atenção dos amantes de mangá sobre como a distribuição ilegal afecta o processo de criação de mangá e frequentemente gera lucros através de receitas publicitárias e taxas de adesão a sites.

    O site Mangamura, encerrado em Abril de 2018, tinha até 160 milhões de visitantes mensais e potencial para ganhar centenas de milhões de ienes por mês em receitas publicitárias. O site FreeBooks, agora também extinto, tinha 17,5 milhões de visitantes mensais antes de ser encerrado. Após o fecho do Mangamura, artistas de mangá relataram aumentos nas vendas das suas respectivas séries, alegando que mais utilizadores estavam a recorrer a meios legais para ler mangá com o desaparecimento do site de pirataria.

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    A criadora de mangá shojo de ficção científica Toriko Gin, o escritor de light novels Akinori Satake, o artista de mangá de comédia Sakuya Amano e o criador original de Shonen Onmyouji Mitsuru Yūki agradeceram aos leitores depois de verem um aumento nas vendas em 2018.

    Outras empresas asiáticas também intensificaram os esforços anti-pirataria. A Kakao Entertainment, empresa-mãe da plataforma de webtoon Tapas, bloqueou aproximadamente 240 milhões de casos de pirataria em todo o mundo entre Julho e Dezembro de 2024, segundo o seu 6.º relatório anti-pirataria publicado em Fevereiro de 2025. A empresa expandiu o seu sistema para incluir pela primeira vez web novels além de webtoons.

    A questão central do novo anúncio da Agência de Assuntos Culturais permanece pertinente: o mangá e o anime vão salvar-nos daqui a um século? A resposta, segundo a campanha, depende das escolhas que os leitores fazem hoje sobre onde e como consomem o conteúdo que amam.

    Helder Archer
    Helder Archer
    Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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