
Há CEOs que falam em paixão. Hiroshi Matsuyama fala em raiva. O fundador e presidente da CyberConnect2, estúdio conhecido por Naruto: Ultimate Ninja Storm, deu uma entrevista à Denfaminicogamer onde falou sobre o que o move, e sobre o que o irrita.
“Na verdade, ainda estou furioso com a indústria dos jogos. Ainda tenho mais raiva em mim (risos)”, disse Matsuyama. Não é retórica. O CEO descreve este estado de irritação como algo que traz desde criança, a mesma idade em que descobriu a Weekly Shonen Jump Magazine, e que aprendeu a transformar em combustível criativo.
A ligação com a Jump não é superficial. Em 1977, com seis anos, Matsuyama leu pela primeira vez Ring ni Kakero, a obra de Masami Kurumada, autor de Saint Seiya. Desde então, diz ter comprado e lido todos os números da revista nos 49 anos que se seguiram, sem intenção de parar.
É esse fio condutor que usa para explicar a resiliência do entretenimento japonês. “Nos anos 90, havia uma altura em que Dragon Ball, Slam Dunk, Rurouni Kenshin, Yu Yu Hakusho e JoJo’s Bizarre Adventure estavam a ser publicados simultaneamente em cada número”, recordou. “Na altura, as pessoas diziam coisas como ‘Quando o Dragon Ball acabar, ninguém vai ler mais a Jump’, ou ‘A Jump vai perder todos os leitores quando o Slam Dunk acabar’. Mas será que deixaram mesmo de ler?”. A resposta, claro, foi não, e a prova são os sucessos que vieram a seguir: One Piece, Naruto, Demon Slayer, Jujutsu Kaisen. Para Matsuyama, a lição é simples: “O novo entretenimento está sempre a evoluir. E ainda assim, o entretenimento do passado é eterno. É nossa responsabilidade como criadores oferecer aos leitores e jogadores as nossas obras mais recentes. Essa mentalidade nunca vai vacilar, e não acho que alguma vez se esgote”.
A frustração de Matsuyama não se fica pela indústria dos jogos. Quando a CyberConnect2 anunciou a criação da CyberConnect2 Film, a nova divisão cinematográfica do estúdio, o CEO foi direto sobre a motivação, ao observar o mundo editorial, o anime e o cinema japoneses de fora, vê setores amarrados por regras e valores tradicionais que, na sua opinião, causam sofrimento às pessoas e alimentam modelos de negócio pouco rentáveis. “Quero mudar coisas que me fazem pensar: ‘Não estão a fazer isto só para proteger os vossos próprios interesses criados?'”, disse.
Um exemplo concreto que deu foi o dos salários dos animadores japoneses, tema que tem gerado debate crescente na indústria. Matsuyama reconheceu que as remunerações melhoraram nos últimos tempos, mas frisou que isso “ainda é apenas a ponta do icebergue”.
Quanto ao cinema: “Claro que o mangá será sempre o meu favorito, mas gosto de filmes quase tanto”, afirmou, acrescentando que vê entre 300 e 350 filmes por ano.








