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Apenas 3 em cada 10 rapazes japoneses ainda leem mangá e o número preocupa a indústria

Rin Kurusu screenshot Believer draw manga (2)

Apesar do sucesso mundial de séries como Jujutsu Kaisen, Demon Slayer ou Chainsaw Man, os dados recolhidos junto do público japonês contam uma história bem diferente, cada vez menos adolescentes no Japão leem mangá, seja em papel ou em formato digital. E o fenómeno não é uniforme, há uma diferença clara entre homens e mulheres que está a chamar a atenção de investigadores e editoras.

Rapazes leem cada vez menos, elas migram para o digital

O alerta partiu do investigador e autor japonês Ichishi Iida, que tem vindo a compilar e divulgar dados sobre hábitos de leitura no país. Segundo números do relatório E-Book Business Report 2025, elaborado pelo Impress Research Institute, apenas cerca de 30% dos rapazes entre os 10 e os 19 anos leem mangá com regularidade, contando leitura em papel e digital. Entre as menians da mesma faixa etária, a percentagem sobe para valores próximos dos 50%.

A divisão entre formatos também é reveladora:

  • Entre os rapazes, 35% leem mangá em papel, mas apenas 28% consomem mangá digital;
  • Entre as mulheres, o cenário inverte-se: 28% preferem o papel, enquanto 48% leem mangá através de plataformas digitais.

Ou seja, enquanto os rapazes parecem estar simplesmente a afastar-se da leitura, as jovens estão a substituir o papel pelo telemóvel, sem que isso, por si só, esteja a travar a quebra geral de leitores mais jovens.

Segundo dados anteriormente partilhados por Iida, o número médio de revistas de mangá lidas por mês por estudantes do ensino básico e secundário caiu de cerca de dez, há décadas, para apenas uma atualmente.

As razões apontadas para esta fuga vão além do simples desinteresse pelas histórias. Iida atribui parte do problema ao custo, subscrições digitais e compras dentro das aplicações tornam o acesso ao mangá mais caro do que era o formato em papel, o que penaliza especialmente os adolescentes com menos poder de compra. Os mais novos estão a afastar-se do papel, mas muitos também não conseguem pagar pelas plataformas digitais que substituíram as revistas.

A isto soma-se a concorrência feroz por atenção que qualquer adolescente com um smartphone enfrenta hoje em dia. Vídeos curtos em plataformas como TikTok ou YouTube Shorts, jogos gacha como Genshin Impact ou Honkai: Star Rail, e o consumo de transmissões em direto de VTubers de agências como a hololive ou a Nijisanji disputam o mesmo tempo livre que antes era dedicado à leitura. Um estudo de 2021 do National Institute for Youth Education indicava que cerca de três em cada dez estudantes do secundário japonês afirmavam ter dificuldade em processar textos longos, e um quarto dizia ter problemas em identificar os argumentos centrais de um texto.

Um mercado que ainda cresce, mas com uma base cada vez mais estreita

O paradoxo é que, em termos financeiros, o mercado do mangá não está em crise, pelo menos para já. A faturação global do setor continua elevada, sustentada sobretudo por leitores adultos, na casa dos 20 e 30 anos, que mantiveram o hábito desde a infância, e por um público internacional em expansão. É precisamente essa combinação que tem mascarado, nos números totais de vendas, uma erosão silenciosa junto da geração mais nova, aquela que, no futuro, deveria substituir os leitores atuais.

Se essa base de leitores mais jovens continuar a encolher, o risco apontado por vários analistas é que o mangá deixe gradualmente de ser o motor cultural que sempre foi no Japão, passando a funcionar cada vez mais como matéria-prima para adaptações anime, consumidas por um público que já não acompanha as histórias originais em papel ou em aplicações de leitura.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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