Atenção, a seguinte análise contém spoilers importantes sobre o final de Trails in the Sky 1st Chapter.
Trails in the Sky 2nd Chapter tinha a tarefa complicada de continuar o excelente trabalho realizado pelo remake de The Legend of Heroes: Trails in the Sky FC sem perder aquilo que tornou o original tão especial. Felizmente, e ao contrário do que acontece com muitos projetos desta natureza, a Nihon Falcom Corporation optou por não reinventar a fórmula. Em vez disso, manteve as bases do primeiro jogo e as personagens que já conhecemos e combinou-as com um grafismo reformulado e o sistema híbrido introduzido em The Legend of Heroes: Trails Through Daybreak. Se pensarmos bem, esta decisão faz todo o sentido, porque Trails in the Sky 2nd Chapter não funciona propriamente como uma continuação tradicional, porque é na verdade, a segunda metade de uma história que começou no jogo anterior. Tal como o título sugere, é como abrir o segundo volume do mesmo livro. Por isso, quem terminou Trails in the Sky 1st Chapter vai sentir-se imediatamente em casa.

A história começa precisamente no momento em que o primeiro jogo termina. Depois de descobrir que o seu passado está ligado à misteriosa Sociedade Ouroboros, Joshua Astray decide afastar-se da sua irmã adotiva Estelle Bright, convencido de que a sua presença acabará por colocá-la em perigo. Sem lhe dar oportunidade de o impedir, parte sozinho. Estelle, naturalmente, recusa-se a aceitar a decisão e parte determinada a encontrá-lo. A partir daqui, a história ganha uma dimensão bastante diferente da do jogo anterior. Estelle quer tornar-se mais forte e, acima de tudo, reencontrar Joshua. É uma premissa que poderá despertar algumas memórias a quem conhece Naruto Shippuden. Tal como acontece com Naruto e Sasuke, temos uma personagem que decide cortar os laços com alguém que lhe é próximo, enquanto a outra se recusa a aceitar essa decisão e parte determinada a encontrá-la. A comparação torna-se ainda mais interessante quando olhamos para a evolução de Estelle. A procura por Joshua não é apenas uma missão para recuperar alguém que ama. É também uma viagem de crescimento pessoal, na qual precisa de se tornar mais forte, compreender as razões que levaram Joshua a partir e descobrir até onde está disposta a ir para o trazer de volta.
A relação entre Estelle e Joshua é tratada de forma muito mais íntima e emocional, enquanto o passado de Joshua e a sua ligação à Ouroboros acrescentam novas camadas à narrativa. A própria organização e os seus enforcers podem, em alguns aspetos, recordar a Akatsuki de Naruto, sobretudo pela forma como reúne personagens com objetivos próprios e funciona como uma ameaça que vai muito além do conflito pessoal dos protagonistas. É neste capítulo que a Ouroboros coloca em marcha o primeiro de três estágios de um plano misterioso. O que começa como uma procura pessoal transforma-se gradualmente numa ameaça muito maior que obriga Estelle e os seus companheiros a enfrentar novamente uma conspiração que pode afetar todo o Reino de Liberl e, consequentemente, todo o continente de Zemuria. É uma evolução muito bem conseguida porque, apesar da escala da história aumentar consideravelmente, a produção nunca perde de vista aquilo que realmente importa, nomeadamente as personagens e o fantástico world building que tanto caracteriza a série.
Grande parte da aventura leva-nos novamente a locais que conhecemos de Trails in the Sky 1st Chapter. À primeira vista, isto pode parecer uma limitação, mas a Nihon Falcom Corporation aproveita muito bem o conhecimento que o jogador já tem deste mundo. Os NPC recordam acontecimentos anteriores, reconhecem Estelle e reagem às mudanças provocadas pela história. O resultado é uma sensação de continuidade extremamente convincente. Não estamos simplesmente a visitar os mesmos locais outra vez. Estamos a regressar a um mundo que continuou a evoluir depois dos acontecimentos do primeiro jogo. Também existem novas áreas e novas personagens, mas é precisamente esta continuidade que torna Trails in the Sky 2nd Chapter tão especial. Se há algo que a Nihon Falcom Corporation sabe fazer particularmente bem é escrever personagens.

Estelle, Joshua, Scherazard, Kloe (Klose), Olivier, este então é impossível não adorar, Tita, Zin e os restantes companheiros continuam a ser o principal motor emocional da aventura. As relações entre todo o grupo são extremamente naturais e existe uma enorme quantidade de diálogos e pequenos momentos que ajudam a construir personalidades muito mais completas. A história também não tem pressa. As personagens têm tempo para conversar, discutir, brincar e simplesmente existir. Até as missões secundárias contribuem para dar mais personalidade ao Reino de Liberl e aos seus habitantes. É precisamente por isso que, apesar de lidar com conspirações, organizações secretas e acontecimentos bastante dramáticos, Trails in the Sky 2nd Chapter consegue manter uma atmosfera surpreendentemente acolhedora. É também neste ponto que a comparação com Naruto Shippuden se torna particularmente interessante. Tal como a relação entre Naruto e Sasuke não funciona apenas como uma simples perseguição, a procura de Joshua é muito mais importante do que o próprio objetivo final. O percurso de Estelle e a forma como lida com a ausência de Joshua acabam por ser tão importantes como o eventual reencontro.

Se pensam que os paralelismos com Naruto estão fora de contexto, acreditem que não. A própria série The Legend of Heroes foi sendo construída numa época em que determinadas tendências dos anime estavam particularmente em voga, e isso é bastante evidente em alguns dos seus conceitos. Acreditem que o facto de The Legend of Heroes: Trails of Cold Steel decorrer numa academia militar não é propriamente uma escolha difícil de associar às tendências que dominavam o anime na altura. Basta olhar para os géneros e conceitos que estavam em destaque nesse período (2013) para perceber que a série não estava completamente desligada do que fazia sucesso entre o público japonês. O mesmo acontece com The Legend of Heroes: Trails in the Sky SC, lançado no mesmo ano em que Naruto Shippuden começou a ser transmitido. Atenção que não significa que a Nihon Falcom Corporation tenha simplesmente copiado Naruto, mas ajuda a contextualizar algumas das semelhanças que encontramos na forma como determinadas relações e temas são desenvolvidos. Por isso, quando comparamos a relação entre Estelle e Joshua com Naruto e Sasuke, não estamos a tentar forçar uma ligação onde não existe. São histórias diferentes, com personagens e universos próprios, mas partilham alguns arquétipos e temas que estavam muito presentes na cultura anime daquele período.
Em termos de gameplay, Trails in the Sky 2nd Chapter mantém praticamente intacta a estrutura do primeiro jogo. Os inimigos podem ser enfrentados diretamente em combate em tempo real e, quando necessário, a ação passa para o sistema de combate tático por turnos. É uma combinação pouco convencional, mas que funciona particularmente bem depois de algum tempo de adaptação. Os combates contra bosses continuam a apostar sobretudo na vertente estratégica e obrigam o jogador a preparar corretamente a equipa, escolher os Quartz adequados e aproveitar as capacidades de cada personagem. Acreditem que nas dificuldades mais elevadas, especialmente a “Nightmare”, vão ter de colocar todos os vossos conhecimentos em prática, porque os bosses no final de cada capítulo não ficam nada atrás dos Superbosses de jogos anteriores desta e de outras séries. Em suma, apesar da dificuldade punitiva nas maiores dificuldades, o sistema permanece praticamente igual. Não existem grandes evoluções ou revoluções e, sinceramente, também não eram necessárias. O sistema já funcionava muito bem e continua a fazê-lo.

O sistema de Quartz também regressa praticamente intacto. Através da combinação dos diferentes elementos, podemos desbloquear novas Arts e personalizar as capacidades das personagens. Existe, contudo, uma explicação bastante conveniente para justificar o reinício da progressão, o Orbment que utilizávamos no primeiro jogo tornou-se obsoleto e precisamos de um novo. É uma solução algo conveniente para colocar novamente o jogador no ponto de partida, mas funciona e permite recuperar gradualmente a sensação de progressão. Também é positiva a forma como o jogo evita uma progressão exagerada. O nível das personagens acompanha relativamente bem o dos inimigos e o modo de alta velocidade permite atravessar rapidamente áreas conhecidas e combater inimigos mais simples. Se tivermos em conta a dimensão da aventura, esta opção revela-se particularmente importante.
Ao contrário de Trails in the Sky 1st Chapter, existe muito mais para fazer além da história principal e das missões secundárias. Enquanto algumas são bastante simples, outras são completamente absurdas. Há investigações, partidas de póquer, pesca e até Creepy Sheeps que formam um “mecha” poderoso. É este tipo de conteúdo que ajuda a tornar Liberl num mundo mais credível. Nem tudo existe para fazer avançar a história principal e, muitas vezes, são precisamente estas pequenas aventuras que dão mais personalidade às personagens e ao mundo, e meus amigos, é neste jogo que surge a lenda conhecida como Anton! O sistema de pesca também regressa, agora reformulado, e continua a ser um daqueles minijogos que facilmente nos fazem perder mais tempo do que gostaríamos de admitir. Trails in the Sky 2nd Chapter é um jogo enorme. É possível terminar a aventura em cerca de 70 horas, mas quem quiser explorar tudo, completar missões secundárias e conhecer melhor as personagens pode facilmente ultrapassar as 100 horas.
Tal como acontece com o próprio crescimento de Estelle, a aventura recompensa quem estiver disposto a acompanhar o percurso até ao fim, em vez de procurar atalhos ou não parar de correr pelos cenários com as suas stregas. A história tem espaço para respirar. As relações desenvolvem-se gradualmente, as personagens têm tempo para crescer e até os acontecimentos mais pequenos podem ganhar importância várias horas depois Visualmente, Trails in the Sky 2nd Chapter mantém o excelente trabalho realizado no primeiro remake. Os modelos das personagens são bastante detalhados, as expressões faciais estão ainda mais trabalhadas e as cenas cinematográficas dão uma dimensão completamente diferente à narrativa original. Não estamos perante um jogo criado para ser uma demonstração tecnológica, mas a modernização visual funciona muito bem. A direção artística, as animações e a apresentação das personagens combinam-se para dar uma nova vida a um clássico.

A versão PC (Steam) é naturalmente a mais flexível das diferentes versões e permite ajustar vários parâmetros gráficos e tirar partido de tecnologias de SuperSampling da NVIDIA, resoluções elevadas e taxas de atualização superiores. Num sistema equipado com uma placa gráfica GeForce RTX 5090 e um Ryzen 7 9800X3D, o jogo está naturalmente muito longe de representar um desafio significativo para o hardware. É uma configuração bastante acima dos requisitos recomendados e permite jogar com as definições gráficas no máximo e manter uma experiência extremamente fluida. Os excelentes atores de voz desempenham novamente um papel fundamental na imersão. Estão disponíveis dobragens em inglês e japonês, textos em inglês, ambas de elevadíssima qualidade. Na minha opinião, as personagens são representadas de forma soberba na versão japonesa. Até os papéis secundários mais pequenos contam com excelentes interpretações, pelo que quase não existe uma diferença percetível de qualidade em relação às personagens principais. E é impossível não sorrir e até rir perante a ambiguidade sexual e os momentos mais estranhos e inusitados protagonizados pelo bardo Olivier Leheim, novamente interpretado pelo seiyuu Takehito Koyasu. A banda sonora é outro dos grandes destaques de qualquer jogo da Nihon Falcom Corporation. Embora muitas faixas de Trails in the Sky 1st Chapter regressem, está longe de ser um problema. Pelo contrário, a série conta com temas tão bons que continuam a ser difíceis de esquecer. Desde Silver Will, Golden Wings até à conclusão da aventura, é impossível não chegar à mesma conclusão, a banda sonora continua ao mais alto nível.

Trails in the Sky 2nd Chapter não tenta ser radicalmente diferente do primeiro jogo. É uma continuação direta, construída sobre os mesmos sistemas, personagens e mundo, mas com uma história mais ambiciosa e emocionalmente mais forte. A procura de Joshua dá à aventura um objetivo pessoal muito claro e, ao mesmo tempo, a ameaça da Ouroboros aumenta progressivamente a escala da narrativa. A dinâmica entre Estelle e Joshua pode recordar facilmente a relação entre Naruto e Sasuke em Naruto Shippuden, sobretudo pela ideia de alguém que parte por vontade própria enquanto a outra pessoa se recusa a desistir.
No entanto, a Nihon Falcom Corporation utiliza esta premissa para contar uma história com identidade própria e, sobretudo, para aprofundar as suas personagens. É esse o verdadeiro ponto forte de Trails in the Sky 2nd Chapter. Por baixo das conspirações, dos combates e da aventura em grande escala, continua a existir uma história sobre pessoas, relações e a dificuldade de aceitar que alguém que amamos decidiu seguir outro caminho. O resultado é um RPG extremamente focado nas personagens, com uma história longa, uma excelente banda sonora, combate estratégico e uma apresentação visual muito superior à do original.
Para quem jogou Trails in the Sky 1st Chapter, este jogo é praticamente obrigatório. Para quem ainda não entrou neste universo, a melhor recomendação continua a ser começar pelo primeiro capítulo. No fundo, Trails in the Sky 2nd Chapter não precisa de reinventar a roda. Só precisa de continuar a contar a sua história…e fá-lo muito bem! Que venham agora as controversas portas de Trails in the Sky the 3rd ou a SSS de Crossbell porque com remakes desta qualidade o impossível é não continuar.










