
Quase metade dos livros enviados à Kobo Writing Life, a plataforma de autopublicação da Rakuten Kobo, não chegou às prateleiras digitais da empresa em 2025. Segundo a Kobo, o número corresponde a centenas de milhares de títulos e a maioria das rejeições deveu-se a obras que aparentavam ter sido geradas por inteligência artificial.
De notar que os 45% representam a percentagem de submissões recusadas e não a proporção de livros escritos por IA. Dentro desse grupo, o presidente executivo da empresa, Michael Tamblyn, atribui mais de 80% das recusas a livros que considera claramente gerados por IA e de qualidade muito fraca.
Uma editora com 1000 livros que não existia
Para ilustrar o problema, Tamblyn recorda um caso concreto. Apareceu na plataforma uma editora desconhecida que, de um dia para o outro, submeteu mil títulos. A Kobo acabou por perceber que não se tratava de uma editora a sério: “vimos aparecer uma editora da qual nunca tínhamos ouvido falar, e logo com 1.000 livros – e conseguimos perceber que não era realmente uma editora, mas três LLMs ‘camuflados’ a gerar conteúdos em massa”.
O responsável insiste que a Kobo não tem problemas em vender livros maus. A diferença, explica, é de escala: “Atualmente, não é preciso tempo nenhum para escrever 10.000 maus livros”. Segundo Tamblyn, a empresa assiste a “um aumento constante e sustentado de conteúdos gerados por IA”.
A Kobo não pretende proibir qualquer utilização de IA. Tamblyn lembra que autores e editores já recorrem a estas ferramentas para organizar pesquisa, procurar inspiração ou rever texto, o que dificulta a definição de uma linha clara entre criação humana e tecnologia. Uma regra de 0% de IA, avisa, teria um custo: “Se dissermos que apenas venderemos livros com 0% de IA, provavelmente acabaremos por excluir muitos livros que merecem ser lidos”.

O problema, para a empresa, está no efeito sobre quem vive da escrita. Num texto publicado no Publishing Perspectives, Tamblyn explica que a Kobo ponderou entre dar prioridade aos leitores ou à comunidade do livro e optou pela segunda via. O receio é que a avalanche de títulos soterre os autores profissionais: “Se tiverem de atravessar seis metros de lixo gerado por IA para chegar a esses leitores, não me parece que estejamos a fazer um bom trabalho a fazer o mercado funcionar”.
A página de ajuda da Kobo Writing Life, atualizada em maio, enumera os motivos comuns de rejeição: livros demasiado curtos, conteúdo total ou parcialmente gerado por IA, traduções fracas e preços considerados excessivos. Os termos da empresa reservam-lhe o direito de aceitar, recusar, suspender ou retirar qualquer título, preveem que os livros submetidos não serão usados para treinar sistemas de IA generativa e admitem que a Kobo use IA para ler e analisar textos durante a avaliação.
O próprio Tamblyn reconheceu que o software de deteção de IA avaliado pela Kobo confunde com frequência texto humano com texto de máquina, e o contrário. Por isso, a empresa tem usado a qualidade como critério prático para recusar, em vez de tentar certificar a origem exata de cada ficheiro.









